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Saúde27 outubro 2026

Depressão circadiana associa padrão de sono à resposta antidepressiva

Pesquisa australiana descreve sintomas, perfil genético e possíveis implicações clínicas de um subtipo depressivo ainda em investigação.
Por Bruna Lupp

Estudo publicado em 2026 no The British Journal of Psychiatry investigou a depressão circadiana em 11.380 adultos australianos. A pesquisa relacionou resposta a antidepressivos e sintomas do subtipo circadiano em 2.604 participantes (23%), com maior gravidade clínica.

A análise utilizou dados transversais do Australian Genetics of Depression Study, incluindo informações clínicas, genéticas e respostas autorreferidas aos medicamentos. A classificação exigiu pelo menos três características relacionadas ao ritmo circadiano.

Insônia 

Imagem de freepik

Estudo identifica menor resposta a antidepressivos

Na depressão circadiana, a eficácia autorreferida dos ISRS foi menor (OR 0,88; IC 95% 0,82–0,94) em comparação ao grupo não circadiano. Associação semelhante ocorreu com os IRSN (OR 0,89; IC 95% 0,83–0,97), acompanhada de maior frequência de efeitos adversos, incluindo sonolência, fadiga, ansiedade e alterações do sono.

O grupo circadiano também apresentou início mais precoce da depressão, aos 18,7 anos, contra 23,2 anos no grupo comparador. Além disso, 52% relataram dez ou mais episódios depressivos, ante 36% dos participantes sem esse perfil, indicando maior recorrência.

A avaliação clínica identificou níveis mais elevados de ideação suicida, sofrimento psicológico, sintomas somáticos e experiências semelhantes à hipomania e à psicose. Na análise genética, destacaram-se associações com maior risco poligênico para depressão maior (OR 1,11), TDAH (OR 1,11), ansiedade (OR 1,10) e transtorno bipolar (OR 1,09).

Também foram observadas associações com predisposição genética a triglicerídeos elevados, maior IMC, resistência à insulina e interleucina-6. Segundo os autores, esses resultados sustentam a investigação da depressão circadiana como possível perfil de estratificação clínica, embora ainda sejam necessárias validações independentes.

Saiba mais: O que há de novo no tratamento da depressão em adultos? 

O que caracteriza o grupo com alterações circadianas?

Para identificar esse grupo, os pesquisadores consideraram a presença de pelo menos três entre seis características relacionadas ao sono e ao ritmo circadiano. Entre os 2.604 participantes classificados, as mais frequentes foram dormir mais do que o habitual durante o pior episódio depressivo (84%) e sentir cansaço intenso ao despertar (83%).

A preferência por horários mais tardios para dormir e acordar, denominada cronotipo vespertino, apareceu em 68% dos participantes. Outros 42% apresentaram atraso do ponto médio do sono, correspondente ao horário intermediário entre o início do sono e o despertar.

A sazonalidade esteve presente em 41% dos casos, considerando mudanças no humor, sono, apetite, peso, energia e atividade social entre as estações. Já o jet lag social, caracterizado pela diferença entre os horários de sono em dias de trabalho e de folga, foi observado em 35%.

Além dessas características, o grupo apresentou manifestações clínicas mais graves. O ganho de peso durante episódios depressivos ocorreu em 41% dos participantes, contra 31% daqueles classificados no grupo não circadiano. Também foram registrados níveis mais elevados de ideação suicida, sofrimento psicológico, queixas somáticas e experiências semelhantes à hipomania e à psicose.

Os autores ressaltam que a classificação foi desenvolvida para fins exploratórios e ainda necessita de validação independente. Portanto, essas características não constituem, por enquanto, critérios diagnósticos estabelecidos para um subtipo de depressão.

Saiba mais: CBN 2024: Atualizações de tratamento da insônia 

Alternativas terapêuticas em investigação

Diante da menor eficácia autorreferida dos antidepressivos convencionais, os pesquisadores propõem investigar intervenções direcionadas ao ritmo circadiano. Entre as possibilidades discutidas estão a exposição à luz durante o dia, a redução da luminosidade noturna e a regularização dos horários de sono e vigília.

O artigo também menciona a melatonina e os medicamentos agonistas melatoninérgicos como alternativas farmacológicas de interesse. Essas abordagens integram o campo das cronoterapias, que procuram atuar diretamente sobre o sistema circadiano.

Segundo os autores, evidências discutidas no artigo sugerem benefícios potenciais dessas estratégias em pessoas com depressão e alterações circadianas. Entretanto, o estudo australiano não avaliou diretamente a eficácia dessas intervenções, nem comparou seus resultados com os antidepressivos convencionais.

Os pesquisadores defendem novos estudos para determinar se a identificação do subtipo circadiano pode orientar a seleção de tratamentos individualizados. A validação dos critérios clínicos e da capacidade preditiva desse perfil permanece necessária.

Limitações do estudo

O delineamento transversal impede estabelecer causalidade, e os autorrelatos estão sujeitos a viés de memória. A ancestralidade europeia dos participantes também restringe a generalização, enquanto os critérios circadianos permanecem exploratórios.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão da Equipe Afya.

Autoria

Foto de Bruna Lupp

Bruna Lupp

Editora de Conteúdo Sr. Formada em Letras pela UFRJ e pós-graduada em Gestão de Projetos. Atuante na produção de conteúdo médico há 10 anos.

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