O aleitamento materno exclusivo segue sendo uma das intervenções de saúde pública mais importantes na pediatria brasileira e ganha ainda mais relevância durante o Agosto Dourado, mês de conscientização e incentivo à amamentação. Levantamentos do Ministério da Saúde mostram que, embora quase a totalidade das crianças brasileiras seja amamentada em algum momento, a manutenção da exclusividade recomendada até os seis meses de vida ainda está longe da meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), a amamentação exclusiva entre bebês de 0 a seis meses acompanhados pela Atenção Primária (APS) do Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 57% de cobertura em 2025. Já em 2026, o levantamento aponta que até agosto 59% dos bebês de até seis meses acompanhados pela APS estão em aleitamento materno exclusivo. Desde o início da pesquisa, em 2015, as maiores coberturas foram em 2024 e 2025, ambas com 57%.
De acordo com a Dra. Larissa Pires, neonatologista e editora da Afya, o Brasil apresentou uma evolução muito expressiva nas últimas décadas. “A prevalência do aleitamento materno exclusivo entre menores de seis meses era muito baixa nas décadas de 1980 e 1990 e, desde então, aumentou progressivamente até atingir 45,8% em 2019. Por outro lado, o fato de menos da metade das crianças brasileiras menores de seis meses estar em aleitamento exclusivo mostra que a promoção da amamentação não pode depender apenas da informação fornecida à mãe”, destaca.

Como está a taxa de aleitamento materno exclusivo no Brasil
Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI) registrados em entre 2019 e 2020 mostraram que 96,2% das crianças brasileiras menores de 2 anos foram amamentadas ao menos uma vez, e 62,4% iniciaram a amamentação ainda na primeira hora de vida. Já a prevalência de aleitamento materno exclusivo (AME) em menores de 6 meses foi de 45,8% no Brasil. O relatório destaca que esses números, embora expressivos, ainda estão abaixo do esperado pela OMS. A entidade estabelece como meta que 60% das crianças menores de seis meses estejam em aleitamento materno exclusivo até 2030.
O estudo observou que a duração mediana do AME foi de apenas 3 meses, enquanto a duração mediana do aleitamento materno como um todo foi de 15,9 meses. Já o aleitamento materno continuado no segundo ano de vida, entre crianças de 12 a 23 meses, teve prevalência de 43,6%, caindo para 35,5% na faixa de 20 a 23 meses.
Iniciativas públicas desenvolvidas pelo Ministério da Saúde são fundamentais para promoção, proteção e apoio à amamentação, como a ação Mulher Trabalhadora que Amamenta (MTA), a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil (EAAB), a Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC),a criação do Agosto Dourado , os Postos de Coleta e os Bancos de Leite Humano, entre outros. Essas políticas também explicam os avanços nas taxas de amamentação nas últimas décadas.
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O que explica a interrupção da amamentação exclusiva
Segundo levantamento do Observatório de la Economía Latinoamericana, entre os principais desafios enfrentados por recém mães na manutenção do aleitamento materno exclusivo estão dor, fissuras mamilares, insegurança materna quanto à produção de leite, desinformação e ausência de apoio profissional ou familiar.
O mesmo estudo constatou que o acolhimento empático, o acompanhamento contínuo e as ações educativas fortalecem a confiança materna e favorecem a manutenção do aleitamento exclusivo, concluindo que o ato de amamentar ultrapassa o aspecto biológico, envolvendo dimensões emocionais e sociais que exigem abordagem interprofissional e humanizada por parte das equipes de saúde.
A Dra. Larissa Pires destaca que o papel do pediatra e do neonatologista com as mães que têm dificuldade para amamentar deve ser muito mais ativo do que simplesmente dizer “continue tentando”. “Quando a mãe relata dificuldade, precisamos transformar a queixa em uma avaliação clínica estruturada: observar uma mamada, avaliar pega e posicionamento, identificar se existe deglutição efetiva, examinar as mamas, analisar a frequência das mamadas e ordenhas, avaliar peso e trajetória de crescimento do bebê e investigar fatores maternos e neonatais que possam interferir na lactação”, explica.
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Impactos da amamentação exclusiva na saúde de bebês e crianças
Uma revisão integrativa da literatura publicada pela Asclepius International Journal of Scientific Health Science mapeou os benefícios do aleitamento materno exclusivo e os fatores associados ao desmame precoce.
“Um dos principais componentes do leite humano é a imunoglobulina. A secretora que recobre as mucosas e dificulta a adesão e a invasão de agentes infecciosos. Além dessa, o leite também contém lactoferrina, lisozima, leucócitos, citocinas e diversos fatores de crescimento e imunomodulação”, destaca a Dra. Larissa. “No trato respiratório, além da ação imunológica das moléculas presentes no leite, a proteção das mucosas e a menor ocorrência de infecções sistêmicas e gastrointestinais contribuem para um menor risco de doença infecciosa”.
O AME está associado à redução da incidência de infecções do trato respiratório, doenças gastrointestinais, hospitalizações e mortalidade infantil, além de contribuir para o desenvolvimento neuropsicomotor durante a infância. Para as mães, a revisão também identificou associação com menor risco de câncer de mama, câncer de ovário, diabetes mellitus do tipo 2 e complicações no período puerperal.
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Aleitamento materno exclusivo para o recém-nascido prematuro
Para o recém-nascido prematuro, o leite humano tem uma importância ainda maior porque ele atende simultaneamente necessidades nutricionais, imunológicas e de maturação gastrointestinal.
Segundo a médica, “O leite materno está associado a menor ocorrência de enterocolite necrosante, infecções graves e mortalidade em prematuros e recém-nascidos de baixo peso, além de possíveis benefícios no desenvolvimento neurológico. Por isso, a OMS considera o leite materno a primeira escolha para esses pacientes”.
A neonatologista ainda destaca que cabe aos profissionais de saúde identificarem precocemente as dificuldades, oferecer manejo baseado em evidências e evitar intervenções desnecessárias que possam comprometer a lactação. Também é importante reconhecer e tratar prontamente as situações em que o bebê realmente necessita de complementação. “Mais do que dizer à mulher que ‘o leite materno é o melhor’, precisamos estar ao lado dela para que consiga amamentar com segurança, conforto e confiança”, concluiu Larissa.
Bancos de leite humano distribuem 150 mil litros por ano
O Ministério das Mulheres destaca que o Brasil coleta, processa e distribui cerca de 150 mil litros de leite humano por ano a recém-nascidos de baixo peso internados em unidades neonatais, por meio da rede de bancos de leite humano do SUS. Segundo o órgão, um litro de leite doado pode alimentar até dez bebês por dia, e, dependendo do peso do prematuro, um mililitro já pode ser suficiente para uma mamada.
Apesar da estrutura da rede, o ENANI-2019 identificou baixa adesão à doação: apenas 4,8% das mães de crianças menores de 2 anos doaram leite para bancos de leite humano. A recepção de leite humano ordenhado pasteurizado também foi baixa, alcançando 3,6% das crianças menores de 2 anos no país.
O leite humano de banco tem um papel estratégico, especialmente para prematuros e recém-nascidos de muito baixo peso quando o leite materno não está disponível ou é insuficiente. Apesar disso, a Dra. Larissa ressalta que o leite de banco não deve ser encarado como substituto permanente da ordenha materna. “Ao mesmo tempo em que utilizamos o leite do banco para garantir proteção ao recém-nascido, precisamos trabalhar ativamente para estabelecer e aumentar a produção de leite da própria mãe”.
Diante disso, é importante ressaltar que informação, acolhimento e suporte são imprescindíveis na atenção primária para oferecer manejo adequado da amamentação e evitar intervenções desnecessárias que possam comprometer a lactação.
Autoria

Gabriela Costa
Estagiária de conteúdo da Afya. Graduanda em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense.
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