As espondiloartrites (SpA) axiais (axSpA) e periféricas (pSpA) possuem uma conhecida relação com as doenças inflamatórias intestinais (DII). Estudos com biópsia intestinal demonstram que até 60-70% dos pacientes com SpA, a depender da série analisada, podem apresentar sinais de colite microscópica. Já nos pacientes com DII recentemente diagnosticada, até 17% e 50% podem apresentar, respectivamente, sinais de axSpA e pSpA, após avaliação reumatológica detalhada.
Um outro ponto em comum entre esses grupos de doença é o atraso no diagnóstico, que pode chegar a anos, em ambas as situações. De modo a minimizar esse atraso, é importante conhecer a relação temporal e os fatores de risco para o seu desenvolvimento para diagnósticos mais oportunos.
Nesse sentido, Agrawal et al. desenvolveram um estudo cujo objetivo era relação temporal entre o diagnóstico de espondiloartrite (EpA) e doença inflamatória intestinal (DII), além de identificar os fatores de risco associados a essa coexistência.
Métodos
Trata-se de uma coorte populacional nacional da Dinamarca, que incluiu pacientes entre janeiro de 1998 e julho de 2022.
Foram identificados 17.108 indivíduos com DII e pareados na proporção de 1:5 com 85.540 indivíduos de referência sem DII. Utilizou-se regressão logística para determinar as chances (OR) de EpA preceder o diagnóstico de DII e regressão de Cox para determinar o risco (HR) de EpA de início recente após o diagnóstico de DII.
Resultados
Foram incluídos 17.108 indivíduos com DII (29,5% com doença de Crohn e 70,5% com retocolite ulcerativa). A proporção de pacientes do sexo feminino foi de 53,3%. A idade no diagnóstico era: <30 anos (25,2%), 30-49 anos (34,3%), 50-70 anos (28,7%) e > 70 anos (11,8%).
Os autores encontraram uma chance aumentada de SpA até 8 anos antes do diagnóstico de DII (aOR 1,95; IC95% 1,78-2,14), quando comparados com a população de referência. A chance de axSpA nos pacientes com DII foi maior do que a de pSpA (aOR 4,65; IC95% 3,63-5,95 e aOR 1,74; IC95% 1,58-1,93, respectivamente). Além disso, a chance de SpA foi maior nos pacientes com diagnóstico posterior de doença Crohn (aOR 11,49; IC95% 7,55-17,92).
Após o diagnóstico de DII, o risco de SpA foi maior nos pacientes com DII geral, doença de Crohn e retocolite ulcerativa (aHR 2,51; IC95% 2,34-2,70; aHR 3,17; IC 95% 2,81-3.59, e aHR 2,24; IC95% 2,05-2,45, respectivamente). O aHR foi maior para axSpA nos pacientes com doença de Crohn (aHR 8,28; IC95% 5,95-11,51).
A análise de tendência temporal demonstrou que o risco aumentou acentuadamente no ano anterior ao diagnóstico de DII e nos 2 anos seguintes, principalmente em mulheres, jovens (18-45 anos) no início da DII, subtipo axSpA e doença de Crohn.

Comentários: espondiloartrites e as doenças inflamatórias intestinais
O conhecimento dessa evolução temporal e fatores de risco para a coexistência de espondiloartrites (SpA) e doenças inflamatórias intestinais (DII) pode nos guiar na formulação de estratégias de rastreamento desse grupo importante de pacientes.
Saiba mais: Fator Reumatoide (FR)
Autoria

Gustavo Balbi
Editor-chefe de Clínica Médica da Afya • Residência em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Reumatologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro • Doutorando pela USP • Professor de Reumatologia da Universidade Federal de Juiz de Fora • Chefe do serviço de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora • Membro da Comissão de Síndrome Antifosfolípide e da Comissão de Vasculites da Sociedade Brasileira de Reumatologia
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