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Reumatologia15 junho 2026

Lúpus eritematoso sistêmico: estudo TULIP-SC avalia anifrolumabe subcutâneo

Estudo avaliou a eficácia e a segurança do anifrolumabe subuctâneo no tratamento dos pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES)
Por Gustavo Balbi

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença autoimune multissistêmica, que possui grande potencial mórbido e letal. Atualmente, novos tratamentos, em particular os biológicos, foram desenvolvidos, o que resultou em melhores desfechos para os pacientes que sofrem dessa doença.

O anifrolumabe é um medicamento biológico IgG1 kappa que inibe a ligação do interferon do tipo 1 (IFN-1), uma molécula fundamental na fisiopatogênese do LES, com seus receptores IFN-alfa, interferindo, assim, com a sinalização de todos os tipos de IFN-1 e reduzindo sua atividade biológica.

Esse medicamento já havia sido aprovado para o tratamento do LES após os resultados dos estudos de fase 3 do programa TULIP (TULIP-1 e TULIP-2), por via endovenosa. Recentemente, Manzi et al. publicaram os dados do estudo TULIP-SC, que avaliou o uso do anifrolumabe por via subcutânea no tratamento do LES.

Lúpus eritematoso sistêmico: estudo TULIP-SC avalia anifrolumabe subcutâneo

Métodos do estudo 

Trata-se de um estudo multinacional, duplo-cego e controlado por placebo, no qual foram incluídos pacientes de 18 a 70 anos com lúpus eritematoso sistêmico (LES) de moderado a grave (definido por SLEDAI-2K≥ 6, BILAG-2004 nível A em ≥1 órgão ou nível B em ≥ 2 órgãos) que mantinham atividade da doença apesar da terapia padrão.

Os participantes foram randomizados (1:1) para receber anifrolumabe 120 mg SC semanalmente ou placebo, durante 52 semanas. A randomização foi estratificada por pontuação SLEDAI-2K (<10 vs. ≥ 10), dose de glicocorticoide oral no baseline (<10 vs. ≥ 10 mg/dia) e assinatura gênica de interferon tipo I (IFNGS) (alta vs. baixa).

O desfecho primário analisado foi a proporção de pacientes que atingiram a resposta BICLA (BILAG-based Composite Lupus Assessment) na semana 52. Já os desfechos secundários foram resposta BICLA com redução mantida de glicocorticoides (para ≤7,5 mg/dia); tempo até a primeira resposta BICLA sustentada; e tempo até o primeiro surto (flare).

Inicialmente, foi realizada uma análise interina do desfecho primário após a inclusão do paciente 220. A análise completa de todos os desfechos incluiu 367 pacientes.

Resultados

Dos 367 pacientes incluídos (184 no grupo anifrolumabe vs. 183 no grupo placebo), a grande maioria (91,6%) eram do sexo feminino, com uma idade média global de 42,5±12,0 anos. Além disso, 74,4% eram brancos.

O desfecho primário foi atingido com sucesso na análise interina, com uma taxa de resposta BICLA de 59,4% para o anifrolumabe vs. 43,9% para o placebo (diferença de 15,5%; IC 95% 2,3-28,6; p=0,0211). Na análise completa, os resultados foram consistentes, com 56,2% de resposta no grupo anifrolumabe vs. 37,1% no placebo (diferença de 19,1%; IC 95% 9,0-29,2; p=0,0002).

Com relação aos desfechos secundários, mais pacientes no grupo anifrolumabe atingiram resposta BICLA mantendo doses reduzidas de corticoides (56,2% vs. 34,0%; diferença de 22,3%; IC 95% 12,3-32,2; p < 0,0001). Além disso, o tempo para a primeira resposta BICLA sustentada foi significativamente menor com o anifrolumabe (HR 2,2; IC 95% 1,5–3,2; p<0,0001). Também houve uma redução numérica no risco de surtos, embora sem significância estatística formal (HR 0,76; IC 95% 0,55–1,03; p=0,0798). A remissão DORIS foi alcançada por 29,0% dos pacientes com anifrolumabe vs. 14,7% com placebo (diferença de 14,2%; IC 95% 5,6–22,8; p=0,0012), e a baixa atividade de doença (LLDAS) em 40,1% vs. 26,0% (diferença de 14,1%; IC 95% 4,6–23,6; p=0,0038). Ademais, foram observadas melhorias significativas nas taxas de resposta SRI(4) (65,5% vs. 49,8%; p=0,0020) e CLASI-50 para pele (76,9% vs. 61,2%; p=0,0030).

No que diz respeito à tolerabilidade, o perfil de segurança foi considerado aceitável e consistente com os estudos de anifrolumabe intravenoso. A frequência global de eventos adversos e de eventos adversos graves foi similar entre os grupos. No entanto, a taxa de herpes-zoster foi maior com o anifrolumabe (3,8%) do que com o placebo (1,1%), condizente com o mecanismo de ação da droga.

Comentário e mensagem prática 

Este estudo demonstra a eficácia e a segurança do anifrolumabe subuctâneo no tratamento dos pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES), despontando como uma nova possibilidade para o tratamento da doença, com a comodidade do regime de tratamento subcutâneo.

No entanto, ainda devemos aguardar a aprovação das agências regulatórias para seu uso na prática clínica.

Autoria

Foto de Gustavo Balbi

Gustavo Balbi

Editor-chefe de Clínica Médica da Afya • Residência em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Reumatologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro • Doutorando pela USP • Professor de Reumatologia da Universidade Federal de Juiz de Fora • Chefe do serviço de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora • Membro da Comissão de Síndrome Antifosfolípide e da Comissão de Vasculites da Sociedade Brasileira de Reumatologia

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