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Carreira10 março 2026

Dilema ético: IA como apoio, não substituição do raciocínio clínico

Como lidar quando a inteligência artificial sugere um diagnóstico diferente do raciocínio clínico? Um caso real sobre ética, decisão e prática médica
Por Redação Afya

O ambulatório já estava no fim do turno quando o Sr. Amaro, 78 anos, entrou apoiado na filha. Dispneia progressiva há três meses, edema de membros inferiores e cansaço aos pequenos esforços. Hipertenso e diabético de longa data, em uso irregular das medicações.

Antes mesmo de se sentar, a filha posicionou o celular sobre a mesa: “Doutor, analisamos todos os exames numa plataforma de inteligência artificial. O sistema apontou alta probabilidade de amiloidose cardíaca. Precisamos investigar isso”.

Inteligência artificial na medicina: apoio diagnóstico ou fonte de conflito?

O médico, com mais de 30 anos de prática clínica, ouviu sem interromper. Sabia que o uso da IA na medicina vinha acompanhada de entusiasmo, mas também de ruídos. O hospital onde atuava havia recentemente integrado um sistema de apoio diagnóstico ao prontuário eletrônico. Ferramentas distintas, bancos de dados distintos, resultados potencialmente distintos.

Iniciou a consulta como sempre fizera: escuta atenta, anamnese estruturada, exame físico minucioso. O Sr. Amaro apresentava turgência jugular discreta, estertores bibasais finos e edema maleolar bilateral. O ecocardiograma recente mostrava hipertrofia ventricular esquerda concêntrica, fração de ejeção preservada e átrio esquerdo aumentado. Padrão compatível com cardiopatia hipertensiva crônica.

Quando duas inteligências artificiais apontam diagnósticos diferentes

Sem desconsiderar a inquietação da família, o médico acessou a ferramenta institucional de IA, inseriu os dados clínicos e exames. O sistema apontou maior probabilidade de insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada secundária à hipertensão, classificando amiloidose como hipótese remota.

Duas inteligências artificiais, duas probabilidades. A família enxergava na tecnologia uma sentença quase definitiva. O médico via ali um instrumento estatístico que não substituía o contexto clínico. O dilema não era apenas diagnóstico; era ético.

O dilema ético do uso da inteligência artificial na medicina

Até que ponto aceitar a sugestão algorítmica? Como equilibrar autonomia do paciente, beneficência e responsabilidade profissional diante de ferramentas que não assumem consequências?

O Código de Ética Médica é claro ao estabelecer que a responsabilidade pelo ato médico é pessoal e indelegável. Não há previsão de transferência dessa responsabilidade a sistemas automatizados. A IA pode apoiar, mas não decide.

O profissional não pode abdicar de sua autonomia nem submeter sua conduta a pressões externas — inclusive tecnológicas.

Decisão clínica compartilhada com o paciente

Com serenidade, o médico explicou ao Sr. Amaro e à filha que algoritmos das IAs operam com base em grandes volumes de dados, identificando padrões, probabilidades. No entanto, tem limitações como seus resultados podem ser mudados pelos dados onde foram treinados caso sejam diferentes dos nossos, , limitações de seus métodos e ausência de nuances individuais — especialmente em populações idosas, muitas vezes sub-representadas em estudos.

Abordou também os riscos das investigações sugeridas: cintilografia específica e eventual biópsia endomiocárdica, procedimentos invasivos, com potenciais complicações para o sr Amaro. Perguntou ao paciente quais eram suas prioridades. Ele desejava melhorar o fôlego e manter autonomia para suas atividades diárias. Não demonstrava disposição para exames de maior risco sem indicação precisas.

A conduta clínica diante da incerteza diagnóstica

O médico propôs conduta gradual: otimização do tratamento para insuficiência cardíaca, ajuste dos  anti-hipertensivos, melhor controle glicêmico e reavaliação clínica em curto prazo. Estabeleceu quais os critérios para que pensassem em outros diagnósticos: ausência de resposta terapêutica, surgimento de sinais e sintomas sugestivos de doença infiltrativa ou alterações específicas em exames complementares.

O experiente clínico também registrou em prontuário a existência de laudo de IA externa, os resultados divergentes, a discussão compartilhada com paciente e familiar e o racional clínico adotado. Transparência e documentação são pilares de segurança ética.

O risco da automatização acrítica na medicina

Na semana seguinte, em reunião clínica com colegas mais jovens, o caso foi debatido. O médico destacou que a tecnologia não devia ser vista como adversária nem como oráculo. A virtude está na integração crítica. A chamada “automatização acrítica” — quando o profissional aceita a sugestão algorítmica sem reflexão — pode comprometer o raciocínio clínico e diluir a responsabilidade.

Recordou que a relação médico-paciente permanece centrada na confiança. Quando a filha afirmou confiar mais na máquina por considerá-la “imparcial”, emergiu outro ponto sensível: a percepção social de neutralidade tecnológica. Contudo, algoritmos são desenvolvidos por humanos, treinados com dados humanos e sujeitos a imperfeições humanas.

Desfecho clínico

Após quatro semanas, o Sr. Amaro retornou com melhora significativa da dispneia e redução do edema. A resposta terapêutica reforçava a hipótese inicial. A investigação invasiva tornou-se desnecessária naquele momento.

O caso ilustra que a incorporação da IA exige maturidade profissional e ética. Cabe ao médico manter protagonismo nas decisões, informar o paciente sobre o uso dessas ferramentas, reconhecer suas limitações e evitar tanto o negacionismo tecnológico quanto a submissão acrítica. A inovação deve servir à beneficência, nunca substituir o raciocínio clínico.

Em tempos de avanços exponenciais, talvez a principal competência do médico experiente não seja apenas dominar novas ferramentas, mas discernir quando utilizá-las — e quando confiar, sobretudo, na escuta, no exame e na responsabilidade que nenhuma inteligência artificial pode assumir.

Este conteúdo foi produzido com o suporte de ferramenta de inteligência artificial (ChatGPT) e revisado pela editora-médica Ester Ribeiro.

Autoria

Foto de Redação Afya

Redação Afya

Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.

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