Na série especial “Histórias de Cuidado: Relacionamento médico-paciente”, compartilhamos relatos de médicos sobre casos que vivenciaram em sua rotina e como lidaram com cada situação de forma gentil e empática.
O objetivo é explorar a Medicina sob uma perspectiva mais subjetiva, revelando as nuances do cuidado com o paciente.
Boa leitura!
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Caso de hoje
Sra. Josefa chegou à minha sala com o olhar altivo e confiante, antes mesmo de eu iniciar a consulta. O seu olhar criterioso, quando abri a porta do consultório, foi da minha cabeça aos meus pés, como quem avalia mais do que apenas aparência.
Talvez meus cabelos presos às pressas, a sapatilha sem marca rigorosa e o meu rosto cansado e sem maquiagem (devido a uma semana intensa cuidando da minha caçula recém-recuperada de uma bronquiolite) tenham lhe causado uma certa desconfiança.
Chamei à porta como sempre faço:
– Sra. Josefa!
Ela se levantou, ajeitou a bolsa – claramente bem mais cara que a própria consulta – e entrou.
Depois das boas-vindas, confirmei se era a primeira vez. Minha memória pode falhar para nomes, mas raramente esqueço um rosto que já passou pela minha sala.
– Primeira, sim – respondeu, já se acomodando.
Conversamos sobre suas queixas de saúde. Perguntei se era casada.
– Viúva há 31 anos.
– Que pena. Tem filhos?
– Não tivemos no início. Não quisemos adotar. E depois decidimos não ter mais.
Uma pausa. Ambas contemplamos o que talvez fosse um lapso de silêncio compartilhado, refletindo escolhas, destino ou, quem sabe, a companhia da própria solidão.
Lembrando da idade dela, perguntei:
– Mas, se precisar de ajuda, tem algum sobrinho, amigo ou familiar que possa te amparar?
Ela ajeitou a bolsa com certo orgulho e disse:
– Não, doutora. Meu esposo me deixou muito bem, minhas irmãs se afastaram com o tempo por ciúmes. Vivo só, mas com conforto. Se algo estraga em casa, contrato ou compro novo. Se preciso de companhia pra algo, pago por ela. Não me falta nada. Paga-se tudo com dinheiro, afinal. Vivo muito bem assim.
Sua frase pairou no ar. Como a ciência me exige precisão, não pude deixar de pensar no vazio de suas palavras disfarçado de autossuficiência.
Os exames que ela trazia já me davam um diagnóstico. Rins estavam normais; ela sentia dor nas costas e marcou um especialista pensando ser seus rins.
– Não há nada que justifique um retorno?
Expliquei que, como nefrologista, não. Mas poderia pedir exames para avaliar doenças preveníveis da idade.
_ Ótimo, então peça. Por que gostei de conversar contigo e se a consulta tem retorno; prefiro vir e ter mais um tempo de conversa.
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Retorno ao consultório
Por compaixão ou responsabilidade humana, pedi uns poucos exames e combinamos o retorno. Quando voltou, seu semblante estava um pouco mais leve – talvez pela familiaridade de já conhecer o consultório e, quem sabe, a mim. Olhei os resultados: normais. Ela continuou insistindo:
– Não há nada que justifique continuar o acompanhamento?
Respondi gentilmente:
– Seus rins estão perfeitos. Seus exames estão normais. Nada de errado.
Ela suspirou, agradeceu e saiu. Aquele andar confiante escondeu, mais uma vez, uma pequena frustração de não poder ter alguém pra conversar sempre. Lembrei-me do ditado: “Quem tem tudo pode não ter nada.” Às vezes, até mesmo o dinheiro – capaz de comprar quase tudo – não substitui uma mão amiga ou um sorriso sincero.
Conclusão
E nós, médicos, que diariamente temos o privilégio de ouvir e acolher muitas pessoas, somos lembrados de que, às vezes, o que vem pela porta do consultório é mais do que a saúde do corpo. A medicina nos lembra que, por trás de diagnósticos e protocolos, somos chamados a acolher a solidão, o desamparo e a carência por vezes tão bem disfarçados de “independência”. Afinal, nem sempre será um exame ou um remédio que encerrará uma consulta.
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