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Pneumologia28 outubro 2026

Oxigenoterapia domiciliar na alta hospitalar: Recomendações da AARC 2026

Seis recomendações GRADE abordam reavaliação, educação, coordenação e segurança de quem inicia oxigenoterapia domiciliar após internação
Por Leandro Lima

A prescrição inédita de oxigenoterapia domiciliar (OD) na alta hospitalar não deve se limitar à definição de um fluxo em litros por minuto. A escolha do equipamento, a avaliação da oximetria em repouso e aos esforços, a capacitação do paciente e a programação de reavaliações são partes fundamentais do tratamento. 

Nos Estados Unidos, mais de 1,5 milhão de adultos recebem oxigenoterapia domiciliar. No Brasil, uma estimativa histórica sugeriu cerca de 65 mil pacientes em 2000, com base na extrapolação de dados europeus. Embora seja um ato prescricional corriqueiro para o médico internista, ainda há muita inconsistência na indicação, prescrição e reavaliação dessa terapia em diversos serviços.  

A nova diretriz da American Association for Respiratory Care (AARC), publicada em 2026 na Respiratory Care, é pioneira no que se refere à transição da oxigenoterapia do hospital para o domicílio.

Saiba mais: ATS 2025: Uma nova abordagem para o diagnóstico da DPOC 

Como a diretriz de oxigenoterapia de longo prazo foi construída? 

O painel multidisciplinar reuniu fioterapeutas respiratórios, especialistas em equipamentos médicos domiciliares e enfermeiros, além de representantes de pacientes com DPOC, um metodologista certificado e um bibliotecário.  

O protocolo foi registrado no PROSPERO e a busca incluiu as bases de dados PubMed/MEDLINE, Embase e CINAHL até junho de 2025, abrangendo adultos avaliados em estudos randomizados e observacionais.

As recomendações seguiram o sistema GRADE. 

Quais os benefícios da oxigenoterapia domiciliar? 

Quando bem indicada e utilizada de forma consistente (≥ 15 horas/dia, ≥ 90 dias), a OD reduz a mortalidade na DPOC com hipoxemia grave, segundo dois ensaios do início dos anos 1980. Contudo, prescrições que não garantem saturação adequada durante as atividades físicas domiciliares expõem o paciente ao risco de hipoxemia prolongada, com impacto deletério sobre a qualidade de vida e comorbidades. 

Gerenciamento da doença recebeu a única recomendação forte 

A diretriz recomenda que a OD seja integrada ao acompanhamento da doença de base, com educação direcionada, suporte ao autocuidado e seguimento após a hospitalização. 

Dessa forma, foi recomendado oferecer um programa educativo estruturado para prevenir reinternações e melhorar a adesão dos pacientes no momento da alta hospitalar (recomendação forte, certeza baixa).  

Cinco ensaios em DPOC sustentaram a análise, demonstrando tendência à redução de exacerbações (risco relativo de 0,73), embora sem significância estatística e com heterogeneidade elevada. Em um dos RCTs, o programa conduzido por fisioterapeutas respiratórios reduziu a taxa de readmissão de 28,5% para 20,1%. 

O painel extrapolou os achados para além da DPOC, incluindo hipertensão pulmonar, doença intersticial pulmonar, insuficiência cardíaca e candidatos ao transplante pulmonar.  

Em termos de adesão terapêutica, foi notório que menos de 70% dos pacientes com DPOC valiam-se da OD por 15 horas diárias ou mais, apesar de sua associação com redução da mortalidade.

Saiba mais: Terapia inalatória para pacientes com DPOC 

PaO2 supera a SpO2 na reavaliação da oxigenoterapia 

Recomenda-se reavaliar periodicamente a indicação da OD em adultos que receberam alta recente com oxigênio (recomendação condicional, certeza moderada).  

O racional é de que a hipoxemia identificada durante uma exacerbação ou outra doença aguda pode melhorar após a recuperação. Por isso, uma prescrição feita na alta não deve ser considerada definitiva. 

Os sete estudos incluídos mostraram que a reavaliação levou à mudança ou suspensão da prescrição em muitos casos.  

Em coorte de 659 pacientes com DPOC liberados após exacerbação, menos da metade foi reavaliada em 90 dias e, destes, 43,2% já não preenchiam critérios para manter a terapia. 

Em ensaio com 546 pacientes, a avaliação por fisioterapeuta respiratório em dois meses reduziu o uso de oxigênio de 93,5% para 58,3%, com custo-eficácia documentada.  

Enquanto parâmetro de avaliação, a PaO2 foi considerada superior à oximetria para qualificar o paciente, sobretudo com SpO2 abaixo de 92%, pela perda de colinearidade entre os dois métodos. 

Ajuste dispositivo, ambiente e educação na transição hospital-domicílio 

As quatro recomendações restantes são condicionais, com certeza baixa: 

  • Coordenação da alta: Sugere-se um programa estruturado entre equipe hospitalar, fornecedores de equipamentos, atenção domiciliar e ambulatório.  O objetivo é evitar falhas como entrega tardia do dispositivo, divergências na prescrição e ausência de treinamento. Em ensaio com 253 pacientes, um coordenador de alta, com ligação em 48 horas e visita domiciliar entre 7 e 10 dias, reduziu reinternações por DPOC em 180 dias (14% versus 31%). 
  • Titulação de oxigênio em repouso e atividade: Sugere-se avaliar dispositivo (cilindros, concentrados de oxigênio e oxigênio líquido) e fluxo em repouso e em esforço antes da alta. Prescrições hospitalares costumam usar cateter nasal de fluxo contínuo, sem testar o paciente em atividades diárias habituais. O modo pulsado, presente em concentrados portáteis de O2 e deflagrados à inspiração, não equivale necessariamente ao fluxo em litros por minuto, e o concentrador gerou PaO2 em média 6 mmHg menor que a rede hospitalar. 
  • Avaliação do domicílio: Sugere-se examinar o ambiente e as atividades de vida diária, incluindo risco de queimaduras por tabagismo ou outras fontes de ignição, bem como risco de quedas relacionados às tubulações. Em metanálise, 84,3% das queimaduras ligadas à OD decorreram do fumo. Cilindros devem ficar a ao menos 1,5 m de chamas e fontes de calor, e a cessação do tabagismo deve vir com plano educativo escrito. 
  • Educação do paciente: Sugere-se educação no período da alta focada na prescrição, abordando fluxo, duração do uso, operação do equipamento, segurança e barreiras à adesão. 

O que orientar ao paciente e à família? 

A educação próxima à alta deve abordar, de forma prática: 

  • Porque o oxigênio foi prescrito e em quais situações deve ser utilizado; 
  • O ajuste e a duração de uso prescritos; 
  • Como ligar, operar e verificar o equipamento; 
  • A diferença entre modo pulsado e fluxo contínuo, quando aplicável; 
  • Os cuidados para prevenir incêndios e queimaduras; 
  • As dificuldades para usar o oxigênio durante as atividades e os deslocamentos; 
  • Quando e onde será feita a reavaliação. 

Quais as principais limitações da nova diretriz?

A maior parte da evidência é proveniente de populações com DPOC estável, não de pacientes com prescrição nova no momento da alta hospitalar. Faltam ensaios sobre dispositivos e dados sobre educação para pulso de demanda versus fluxo contínuo, o que restringe a certeza das recomendações. 

Principais pontos a se considerar na decisão de prescrever OD

  • A prescrição de oxigenoterapia domiciliar não é apenas a requisição de um equipamento, mas sim um processo planejado que se deve ser iniciado antes da alta hospitalar.  
  • Na prática, isso significa testar o oxigênio em repouso e em esforço, perguntar sobre tabagismo e rotina em casa, explicar a prescrição ao paciente e ao cuidador e agendar a reavaliação, de preferência com gasometria arterial, ciente de muitos pacientes serão candidatos à desprescrição.  
  • No contexto brasileiro, aplicar essas medidas exige articular a equipe hospitalar com quem fornece o equipamento e acompanhar o paciente no cenário pós-alta. 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos. 

Autoria

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Leandro Lima

Editor médico na Afya. Médico pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG - 2018). Endoscopia digestiva pela UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do Hospital Universitário da UFJF (HU-UFJF) e membro do corpo clínico do Hospital Monte Sinai desde 2019.

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