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Pediatria22 junho 2026

VSR em lactentes: segurança da vacina materna e do nirsevimabe

Estudo avalia segurança, tolerabilidade e resposta imunológica contra VSR em lactentes com RSVpreF e nirsevimabe.
Por Ronaldo Gismondi

O vírus sincicial respiratório (VSR) é uma das principais causas de doenças do trato respiratório inferior e de hospitalização em lactentes. Atualmente, duas estratégias de prevenção podem ser utilizadas: vacinar a gestante com a vacina baseada na proteína F de pré-fusão do VSR (RSVpreF) e imunizar o lactente com o anticorpo monoclonal de longa duração, o nirsevimabe. Ambas as estratégias apresentam alta eficácia comprovada em estudos e ensaios clínicos. No momento, as recomendações preconizam uma ou outra estratégia, embora algumas situações de alto risco possam justificar a administração de ambas as intervenções. 

Diante da escassez de dados sobre o uso combinado desses produtos, um estudo publicado na Pediatrics teve como objetivo avaliar a segurança, a tolerabilidade e as respostas imunológicas associadas a essas duas medidas preventivas, de forma isolada ou sequencialmente, em mães e seus bebês. 

Saiba mais: Estudo italiano compara o uso do nirsevimabe em internações por bronquiolite

cuidados recém nascidos

Como o estudo comparou as estratégias de proteção 

Foi realizado um estudo prospectivo, randomizado, aberto, de fase 4, em oito centros americanos. Os pares mãe-bebê foram randomizados na proporção 1:1:1:1 durante a gravidez: 

  • Vacina RSVpreF materna isoladamente; 
  • Vacina RSVpreF materna/nirsevimabe infantil ao nascimento; 
  • Vacina RSVpreF materna/nirsevimabe infantil aos 3 meses; ou 
  • Nirsevimabe infantil isoladamente ao nascimento. 

Os pesquisadores estão acompanhando os pares por um período de 1 ano para determinar a segurança, a tolerabilidade infantil e a magnitude e durabilidade dos anticorpos neutralizantes (nAbs) contra RSV-A e RSV-B. No estudo publicado na Pediatrics, eles apresentaram dados interinos de 19 de setembro de 2024 a 15 de maio de 2025, incluindo o acompanhamento dos lactentes aos 4 meses de vida. 

Critérios de inclusão descritos pela equipe de pesquisa

  • Ter entre 18 e 45 anos de idade no momento da inclusão, apresentar gestação única sem complicações e não possuir risco aumentado conhecido para complicações, conforme julgamento clínico do investigador; 
  • Compreender e concordar em cumprir todos os procedimentos do estudo; 
  • Estar disposta e apta a fornecer consentimento para participação no estudo para si e para seu bebê antes do início de qualquer procedimento relacionado à pesquisa; 
  • Estar em bom estado geral de saúde, conforme determinado pelo histórico médico e pelo julgamento clínico do investigador; 
  • Ter a intenção de realizar o parto em hospital ou unidade de nascimento na qual os procedimentos do estudo pudessem ser executados; 
  • Ser elegível para receber qualquer um dos produtos do estudo de acordo com as respectivas bulas aprovadas pela FDA; 
  • Receber vacinação materna com RSVpreF entre 32 semanas e 0 dias e 36 semanas e 6 dias de idade gestacional, durante o período de 1º de setembro a 31 de março. 

Critérios de exclusão

  • Comprometimento comportamental, cognitivo ou doença psiquiátrica que, na opinião do investigador, pudesse interferir na capacidade da participante de participar do estudo; 
  • Qualquer condição que, na opinião dos investigadores, pudesse representar risco à saúde da participante ou interferir na avaliação dos objetivos do estudo; 
  • Distúrbio hemorrágico materno, ou diátese hemorrágica, ou qualquer condição que contraindicasse a administração intramuscular; 
  • Doença congênita ou adquirida materna conhecida ou suspeita que comprometesse o sistema imunológico, incluindo asplenia funcional ou imunossupressão decorrente de doença de base ou tratamento; 
  • Uso materno de medicamentos imunossupressores ou agentes biológicos nos 30 dias anteriores à inclusão no estudo, incluindo corticosteroides orais ou parenterais. O uso de imunoglobulina anti-D (RhoGAM) não foi incluído nesse critério; 
  • Condições maternas conhecidas por prejudicar a transferência transplacentária de anticorpos, como alterações placentárias, hipergamaglobulinemia e infecção pelo HIV; 
  • História materna de síndrome de Guillain-Barré (SGB) ou outra condição médica potencialmente imunomediada; 
  • História materna de reação adversa grave ou anafilaxia à vacina ABRYSVO ou a qualquer um de seus componentes; 
  • História materna de parto prematuro, definido como idade gestacional inferior a 34 semanas; 
  • Gestação atual complicada por hipertensão não controlada, pré-eclâmpsia ou eclâmpsia; 
  • Recebimento prévio de ABRYSVO ou de outra vacina contra VSR, aprovada ou investigacional. 

Critérios para adiamento temporário: 

  • Febre, definida como temperatura ≥38°C, ou outra doença aguda nos 3 dias anteriores à vacinação ou à imunização passiva. 

Critérios de exclusão para nirsevimabe em lactentes

  • História de reação grave de hipersensibilidade, incluindo anafilaxia, ao nirsevimabe ou a qualquer um dos seus excipientes; 
  • Distúrbio hemorrágico, ou diátese hemorrágica, do lactente ou qualquer condição que contraindicasse a administração intramuscular; 
  • Recebimento prévio de nirsevimabe. 

Caso o lactente apresentasse qualquer um desses critérios de exclusão, ele seria excluído apenas da administração de nirsevimabe, mas continuaria sendo acompanhado para avaliação de segurança e dos desfechos imunológicos. 

O que apareceu na análise interina 

No momento da análise interina, 181 mães haviam sido inscritas; 180 mães e 179 lactentes foram incluídos na população de segurança. 

Tanto a vacina para a gestante quanto o nirsevimabe para o lactente se mostraram seguros de forma isolada e também combinados. 

A vacinação da gestante com RSVpreF aumentou os títulos de nAbs contra o VSR-A materno em 17,35 vezes no momento do parto. Os títulos permaneceram estáveis até três meses após o parto. A taxa média geométrica de transferência de nAbs contra o VSR-A foi superior a 1,3 e semelhante entre os grupos. 

Os nAbs contra o VSR estavam muito elevados em lactentes com idades entre 6 semanas e 3 meses, independentemente do grupo, com pequenas diferenças na redução dos níveis. 

O nirsevimabe foi bem tolerado, e toda a reatogenicidade local e sistêmica foi de intensidade leve a moderada. 

Eventos adversos graves relacionados em mães ou bebês não foram descritos. 

O que os autores concluíram sobre a sequência das estratégias 

O estudo mostrou que a vacinação das gestantes e a imunização infantil com nirsevimabe, administradas isolada ou sequencialmente, foram seguras e proporcionaram altos títulos de nAb contra VSR-A e VSR-B em bebês, que se mantiveram elevados até três meses após o parto. Os pesquisadores destacam que, embora a maioria dos lactentes não precise receber ambas as estratégias de proteção, os resultados sugerem que as duas medidas podem ser administradas sequencialmente com segurança. 

Como o tema se conecta ao cenário brasileiro 

No Brasil, a vacina Abrysvo encontra-se disponível para todas as gestantes pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A administração deve ser feita entre 28 e 36 semanas de idade gestacional (IG), em dose única. O nirsevimabe é administrado pelo SUS somente nos seguintes grupos de risco para o VSR: 

  • Prematuros: bebês nascidos com IG de até 36 semanas e 6 dias, com indicação de aplicação ainda nas maternidades, preferencialmente; 
  • Presença de comorbidades: crianças menores de 2 anos, até 1 ano, 11 meses e 29 dias, que possuem condições como cardiopatia congênita, broncodisplasia, imunocomprometimento grave, síndrome de Down, fibrose cística, doenças neuromusculares graves e anomalias congênitas das vias aéreas.

Saiba mais: Saúde adquire 1,8 milhão de doses de vacina contra vírus sincicial para gestantes

Autoria

Foto de Ronaldo Gismondi

Ronaldo Gismondi

Editor-chefe médico da Afya RJ. Pós-doutorado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Coordenador da Cardiologia do Niterói D’Or. Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)

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