Logotipo Afya
Anúncio
Pediatria30 março 2026

Vonoprazana na pediatria: uma nova era no tratamento do refluxo?

Estudo foi o primeiro a avaliar a farmacocinética e segurança do vonoprazana em crianças e adolescentes no tratamento do refluxo
Por Jôbert Neves

A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) continua sendo um dos motivos mais frequentes de consulta em pediatria, e sua prevalência vem crescendo entre crianças e adolescentes. Estudos sugerem que até 20% dos jovens podem relatar sintomas semanais, números que reforçam a necessidade de abordagens terapêuticas mais eficazes e rápidas. Embora os inibidores de bomba de prótons (IBPs) sigam como primeira linha, suas limitações, especialmente a variabilidade de resposta e a latência terapêutica, trazem desafios significativos na prática clínica.  

Nesse cenário desponta a vonoprazana, um bloqueador competitivo de potássio (P‑CAB), capaz de suprimir a secreção ácida de maneira mais rápida e potente que os IBPs. O estudo de Mulford et al., o primeiro a avaliar sua farmacocinética e segurança em crianças e adolescentes, abre uma perspectiva inédita para a pediatria. 

Desvendando o comportamento da vonoprazana em crianças e adolescentes 

O trabalho reuniu dois estudos de  fase 1 conduzidas nos Estados Unidos com crianças de 6 a 11 anos e adolescentes de 12 a 17 anos, todas com sintomas de DRGE. Ao total, 42 participantes receberam vonoprazana 10 mg ou 20 mg uma vez ao dia por 14 dias. Utilizando um modelo farmacocinético previamente desenvolvido em adultos, os autores analisaram as concentrações plasmáticas, a depuração, o volume de distribuição e a área sob a curva no estado de equilíbrio, comparando diretamente os resultados pediátricos com exposições conhecidas em adultos. Além disso, os sintomas de DRGE foram avaliados qualitativamente, e eventos adversos monitorados rigorosamente.

O achado central do estudo é surpreendentemente simples e ao mesmo tempo transformador: crianças e adolescentes apresentaram exposições à vonoprazana praticamente idênticas às observadas em adultos, tanto para as doses de 10 mg quanto de 20 mg. Além disso, os modelos mostraram excelente performance previsível, sem desvios significativos relacionados à idade ou peso. Os sintomas de DRGE diminuíram de forma consistente até o dia 14 em ambos os grupos etários, reforçando um sinal clínico de benefício, ainda que qualitativo. 

Segurança: sinal tranquilizador, mas com vigilância necessária 

O perfil de segurança observado foi favorável. Apenas seis eventos adversos emergentes foram registrados entre os 46 participantes expostos ao tratamento, com apenas um considerado relacionado ao medicamento. Não houve eventos graves, internações ou necessidade de interromper o estudo devido a efeitos adversos. Entre os poucos registros, destacam-se otite média, refluxo, vômitos e um caso de prolongamento leve de QTc, este último considerado relacionado ao fármaco, mas sem repercussão clínica relevante. Ainda que tranquilizadores, esses achados reforçam a necessidade de estudos maiores com acompanhamento prolongado para confirmar a segurança cardíaca e geral da vonoprazana em crianças. 

Um avanço promissor, ainda distante da prática clínica 

O pediatra, portanto, deve olhar para esses dados como um primeiro passo promissor, e não uma base para mudança imediata de conduta. Caso a vonoprazana avance para estudos fase 2 e 3 com resultados consistentes, ela pode se tornar, em poucos anos, uma ferramenta valiosa para casos selecionados de DRGE pediátrico. 

Em síntese, o estudo de Mulford et al. sinaliza que a pediatria pode estar à beira de uma nova geração de supressores ácidos, mais rápidos e talvez mais confiáveis que os IBPs. Mas, até que novas evidências sejam publicadas, permanece o chamado clássico da boa prática: entusiasmo científico com responsabilidade clínica. 

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa  de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).  Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Pediatria