O leite materno (LM) é reconhecido globalmente por seus efeitos protetores de doenças agudas em crianças por atuar na regulação negativa da inflamação e do estresse oxidativo. No entanto, pouco se sabe sobre o impacto da exposição precoce ao LM em pacientes pediátricos críticos em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP). Diante desta questão, pesquisadores dos Estados Unidos analisaram a relação entre a alimentação precoce com LM e a gravidade da doença e sua recuperação em crianças graves submetidas à ventilação mecânica invasiva (VMI) para manejo de insuficiência respiratória aguda (IRA). A hipótese dos pesquisadores é de que pacientes de 1 a 36 meses em UTIP que receberam alimentação exclusiva com LM durante o primeiro mês de vida (em período pós-parto precoce) teriam uma menor gravidade de doença, menos probabilidade de apresentar síndrome do desconforto respiratório agudo pediátrico (SDRAp) moderada/grave nas primeiras 24 a 48 horas de VMI, se recuperariam da IRA de forma mais rápida e teriam melhores desfechos seis meses após a alta, quando comparadas a pacientes que não receberam alimentação exclusiva com LM durante o primeiro mês de vida.
Os resultados dessa pesquisa foram publicados no periódico Nursing in Critical Care.
Saiba mais: AAP 2024: Aleitamento materno – pontos essenciais para todo o pediatra
Metodologia
Foi conduzido um estudo de coorte prospectivo que incluiu mães de crianças com idades entre 1 e 36 meses que participaram das fases aguda e de acompanhamento do ensaio clínico RESTORE (Randomized Evaluation of Sedation Titration for Respiratory Failure). As mães participantes deveriam falar inglês e responder a perguntas sobre o histórico de alimentação dos seus bebês, descrevendo a quantidade de LM administrada durante o primeiro mês de vida.
As crianças foram divididas em dois grupos:
- LM exclusivo: Crianças que receberam LM em 90-100% do total de refeições. Em consoante com as normas americanas, os pacientes foram considerados alimentados exclusivamente com LM enquanto também recebiam pequenas quantidades de água, vitaminas ou alimentação cultural;
- LM não exclusivo: Crianças que receberam HBM para 0-89% do total de refeições.
Resultados
Foram incluídos 138 pacientes, sendo que 70 (51%) receberam LM exclusivo e 68 (49%) não.
Os pesquisadores não encontraram diferenças entre ambos os grupos na gravidade da doença na admissão na UTIP ou na gravidade da SDRAp nas primeiras 24–48 horas de VMI (mediana da pontuação Pediatric Risk of Mortality [PRISM] III-12: 5 versus 5, p = 0,88; PARDS moderada/grave: 53% versus 54%, p = 0,63).
Embora o tempo médio para recuperação da IRA tenha sido reduzido em um dia em pacientes que receberam LM exclusivo, a diferença entre os grupos não foi estatisticamente significativa (mediana 1,5 versus 2,6 dias, razão de risco 1,40 [intervalo de confiança de 95%, 0,99–1,97], p = 0,06).
Conclusão
O estudo concluiu que a gravidade da doença nos bebês com IRA não foi diferente em crianças alimentadas com LM exclusivo no primeiro mês de vida em comparação com aqueles que não foram amamentados exclusivamente com LM. Apesar do potencial de ser clinicamente significativo, o tempo médio para recuperação da IRA reduzido em um dia nos bebês que receberam LM exclusivamente não teve significância estatística. Portanto, há necessidade de mais estudos sobre a alimentação com LM em UTIP.
Comentário
Como descrito no artigo, o estudo não foi isento de limitações. Essas incluíram a exclusão de pacientes não sobreviventes, diferenças socioeconômicas entre os grupos e um número pequeno de amostra. Ademais, as autoras ressaltam que, apesar de confiável, a lembrança das mães para preenchimento do survey pode ter influenciado nos resultados e fatores de extrema importância como peso ao nascer e exposição ao fumo não foram analisados (o que pode ter restringido a análise de confusões).
Destaco os méritos do RESTORE e que as pesquisadoras Lauren Sorce, Lisa Asaro e Martha Curley são de grande renome na terapia intensiva pediátrica mundial, reforçando a seriedade e o rigor metodológico do estudo.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.