As infecções TORCH durante a gravidez são frequentemente assintomáticas ou inespecíficas. Embora o rastreio pré-natal de rotina não seja implementado de forma consistente, ele é essencial para a detecção precoce dessas condições.
Na Polônia, as diretrizes padronizadas de cuidados perinatais definem o momento das investigações, mas não distinguem entre testes recomendados e obrigatórios. Ainda assim, o rastreio pré-natal tem papel fundamental na identificação de infecções previamente não diagnosticadas.
O diagnóstico das infecções TORCH é baseado, principalmente, em testes sorológicos e na identificação de soroconversão. No entanto, a interpretação pode ser complexa devido às alterações imunológicas da gestação, que podem prejudicar a eliminação do patógeno e levar a resultados falso-positivos.
Nesta primeira parte, são abordadas a toxoplasmose congênita e a sífilis congênita.
Metodologia
O conteúdo sintetiza uma revisão recente da literatura sobre atualizações em TORCH, com foco em aspectos clínicos, diagnóstico, rastreamento e manejo das infecções congênitas.
Toxoplasmose congênita
Em casos de infecção materna ativa durante a gestação, pode ocorrer transmissão transplacentária. Nesse cenário, trofozoítos de Toxoplasma gondii atravessam a placenta e infectam o feto, caracterizando a transmissão vertical.
A infecção materna ocorrida pelo menos seis meses antes da concepção não representa risco para o feto.
No mundo todo, estima-se a ocorrência de aproximadamente 1,5 caso a cada 1.000 nascidos vivos. A probabilidade de transmissão vertical aumenta com o avanço da gestação. Embora a infecção materna precoce esteja associada a menor chance de transmissão, ela também se relaciona a desfechos fetais e neonatais mais graves.
Embora 75% a 85% dos recém-nascidos a termo infectados sejam assintomáticos ao nascimento, muitos desenvolvem complicações meses ou anos depois, como toxoplasmose ocular.
Sífilis congênita
A sífilis congênita é causada pelo Treponema pallidum e permanece como um problema global, devido ao ressurgimento recente em várias regiões. Mesmo após a introdução da penicilina e do rastreamento pré-natal de rotina, a doença segue relevante.
A sífilis congênita resulta de infecção materna que pode ocorrer antes da concepção ou durante a gestação, levando a formas precoces ou tardias da doença no bebê.
O risco de infecção fetal depende do grau de bacteremia materna e da idade gestacional no momento da infecção. A transmissão é maior nas fases iniciais da sífilis materna, como primária, secundária e latente recente, e diminui em fases mais tardias.
A sífilis materna não tratada também está associada a maior risco de desfechos adversos, como natimortalidade, óbito neonatal, prematuridade e sífilis congênita clínica.
Toxoplasmose congênita: manifestações e diagnóstico
Infecções graves no primeiro trimestre podem cursar com quadro semelhante à sepse neonatal e prognóstico desfavorável.
A tríade clássica de Sabin-Pinkerton inclui:
Tríade clássica de Sabin-Pinkerton
- Coriorretinite;
- Hidrocefalia ou microcefalia;
- Calcificações intracranianas.
Essa tríade raramente é observada em sua totalidade atualmente. Ainda assim, a presença de qualquer um desses achados deve motivar investigação diagnóstica.
Exemplos de manifestações clínicas
Entre as manifestações descritas estão:
- Baixo peso ao nascer;
- Atraso no desenvolvimento psicomotor;
- Convulsões;
- Deficiência auditiva;
- Desconforto respiratório;
- Diarreia;
- Diátese hemorrágica;
- Dificuldade de deglutição;
- Hepatoesplenomegalia;
- Icterícia neonatal prolongada;
- Lesões dermatológicas;
- Linfadenopatia;
- Miocardite;
- Paralisia de membros;
- Pneumonia;
- Prematuridade;
- Restrição de crescimento intrauterino;
- Trombocitopenia.
Exemplos de manifestações oculares
Também podem ocorrer:
- Alterações na forma e no tamanho da córnea;
- Atrofia do nervo óptico;
- Comprometimento dos músculos extraoculares;
- Déficit visual;
- Estrabismo;
- Glaucoma;
- Membrana pupilar persistente;
- Microftalmia ou hipodesenvolvimento do globo ocular;
- Nistagmo.
Quando investigar toxoplasmose congênita?
A investigação diagnóstica é fundamental em casos de infecção sistêmica inexplicada ou doença neonatal grave. O teste deve ser realizado em situações como:
- Recém-nascidos de mães com infecção primária durante a gestação;
- Recém-nascidos com sinais generalizados de infecção após exclusão de outras causas;
- Febre baixa persistente sem causa aparente;
- Lactentes e crianças com sintomas neurológicos e atraso do desenvolvimento psicomotor;
- Linfadenopatia ou hepatoesplenomegalia sem etiologia definida;
- Alterações oculares congênitas, estrabismo, nistagmo ou coriorretinite;
- Múltiplas calcificações intracranianas.
Até o momento, não há consenso universal sobre a realização de rastreamento rotineiro para Toxoplasma gondii em gestantes.
Interpretação inicial da sorologia no primeiro trimestre
- IgG positivo e IgM negativo: gestante considerada imune, sem necessidade de investigação adicional;
- IgM positivo ou IgG e IgM positivos: necessidade de investigação complementar, como teste de avidez de IgG, ultrassonografia ou PCR no líquido amniótico;
- Soroconversão: permanece como o indicador mais confiável de infecção materna, definida pela mudança de IgG negativo para positivo em dois exames consecutivos.
Tratamento da toxoplasmose congênita
O tratamento descrito no estudo corresponde ao recomendado na Polônia, local da publicação.
Durante a gestação, o manejo depende da idade gestacional e da confirmação da transmissão fetal.
A primeira linha é a espiramicina, que não atravessa a barreira placentária, mas aumenta a atividade fagocítica e a resposta imune.
Na soroconversão materna ou na alta suspeita de infecção fetal, utiliza-se espiramicina em dose de 6 a 9 milhões de UI/dia, dividida em duas ou três tomadas, em ciclos de três semanas com intervalos de duas semanas, até o parto ou confirmação diagnóstica.
Na infecção congênita, após 14 semanas de gestação, a associação de pirimetamina, sulfadiazina e ácido folínico é considerada padrão-ouro. A combinação de espiramicina com cotrimoxazol atravessa a placenta e elimina parasitas nos tecidos fetais, sendo potencialmente mais eficaz que a monoterapia.
Recém-nascidos e lactentes com infecção congênita, sintomáticos ou não, devem receber tratamento prolongado com pirimetamina, sulfadiazina e ácido folínico, com duração individualizada, mas por no mínimo um ano. Esquemas mais curtos estão associados a maior risco de recidiva e doença ocular.
O manejo deve ser multidisciplinar.
Sífilis congênita: manifestações clínicas
As manifestações podem ser precoces ou tardias.
Manifestações precoces
Ocorrem até os 2 anos de vida e incluem:
- Alterações hematológicas;
- Hepatoesplenomegalia;
- Lesões mucocutâneas, como vesículas e condiloma lata;
- Osteocondrite;
- Rinite, também descrita como “snuffles”.
Manifestações tardias
Aparecem após os 2 anos de vida, quando a infecção não tratada se torna evidente. Incluem:
- Tríade de Hutchinson, formada por perda auditiva neurossensorial, ceratite intersticial e incisivos centrais superiores espaçados;
- Acometimento do sistema nervoso central, com atraso do desenvolvimento psicomotor, hidrocefalia, convulsões e paralisias de nervos cranianos;
- Deformidade em sela do nariz;
- Arqueamento anterior da tíbia;
- Sequelas permanentes.
Diagnóstico da sífilis congênita
O diagnóstico é baseado na detecção da espiroqueta no feto ou no recém-nascido.
Entre os métodos descritos estão:
- Microscopia de campo escuro;
- Testes sorológicos não treponêmicos, como RPR e VDRL;
- Testes treponêmicos, como FTA-ABS e TPHA.
Segundo a prática europeia e global atual, a abordagem diagnóstica deve incluir testes não treponêmicos e treponêmicos. Em recém-nascidos, recomenda-se avaliar os títulos séricos de anticorpos e, quando possível, realizar PCR para Treponema pallidum a partir de lesões cutâneas ou outros materiais apropriados.
Tratamento da sífilis congênita
O tratamento descrito corresponde ao recomendado na Polônia.
Em gestantes, o tratamento idealmente deve ocorrer antes do terceiro trimestre. A penicilina benzatina G é indicada conforme o estágio da doença:
- Sífilis primária, secundária ou latente precoce: dose única intramuscular de 2,4 milhões de unidades;
- Sífilis latente tardia ou de duração desconhecida: 2,4 milhões de unidades IM uma vez por semana durante três semanas.
Em caso de alergia à penicilina, recomenda-se dessensibilização, seguida da administração de penicilina.
Testes não treponêmicos devem ser realizados mensalmente até o parto para avaliar a eficácia do tratamento e determinar a necessidade de retratamento.
Em recém-nascidos e lactentes com sífilis congênita confirmada ou provável, o tratamento indicado inclui penicilina G cristalina ou, como alternativa, penicilina procaína. O tratamento hospitalar é necessário para todos os casos confirmados ou suspeitos de sífilis congênita.
Somente a penicilina é considerada eficaz para o tratamento. Ceftriaxona e outros antibióticos não são confiáveis nesse contexto.
Mensagem prática
As infecções TORCH podem ser assintomáticas ou apresentar sinais inespecíficos durante a gestação. Por isso, o rastreio pré-natal, a interpretação adequada da sorologia e a identificação de soroconversão são pontos centrais para reduzir o risco de desfechos fetais e neonatais graves.
Na toxoplasmose congênita, a idade gestacional no momento da infecção influencia o risco de transmissão e a gravidade dos desfechos. Na sífilis congênita, o tratamento materno adequado e oportuno com penicilina permanece essencial para prevenir complicações.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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