Logotipo Afya
Anúncio
Pediatria20 julho 2026

Suplemento nutricional oral em crianças com desnutrição: estudo MARVEL

Ensaio avaliou crescimento, composição corporal e massa magra em crianças com desnutrição após intervenção com suplemento nutricional oral
Por Roberta Castro

Em crianças pequenas, a desnutrição ainda é um importante problema de saúde pública. Ela está associada a prejuízos no crescimento, maior risco de infecções, consequências para o desenvolvimento e um considerável ônus social e econômico. Um estudo conduzido na Tailândia investigou o efeito do suplemento nutricional oral (SNO) no crescimento e na composição corporal de crianças desnutridas, incluindo a massa corporal magra. Os resultados foram publicados no European Journal of Nutrition.

Leia também: Novo guideline substitui “failure to thrive” por ganho ponderal insuficiente

Suplemento nutricional oral em crianças com desnutrição: estudo MARVEL

Imagem de magnific

Como o estudo MARVEL foi conduzido

Trata-se de um ensaio clínico randomizado (ECR), controlado e multicêntrico, que fez parte do projeto MARVEL (Malnutrition At Risk intervention for Visible and Effective Long-term growth).

Foram incluídos pacientes pediátricos de 1 a 6 anos, porque a formulação do suplemento nutricional oral (SNO) foi desenvolvida especificamente para crianças com um ano de idade ou mais. Eram elegíveis os participantes com escore z de peso para comprimento/altura (PCA) entre -1 e -3 desvios-padrão (DP), segundo os Padrões de Crescimento Infantil da Organização Mundial da Saúde (OMS), nascidos a termo e com peso ao nascer (PN) entre 2,5 e 4,5 kg.

Os critérios de exclusão foram:

  • Idade > 6 anos, para minimizar potenciais efeitos de confusão relacionados à puberdade e focar nos mais novos, nos quais a intervenção nutricional precoce é mais crítica;
  • PCA < -3 DP, porque a desnutrição grave geralmente requer intervenções mais intensivas, como alimentação terapêutica, suplementação de micronutrientes ou acompanhamento médico, do que apenas o aconselhamento dietético;
  • Diagnóstico de condições que afetam o crescimento;
  • Uso de medicamentos que interferem no apetite, na absorção de nutrientes ou no crescimento;
  • Diagnóstico de alergia à proteína do leite de vaca (APLV).

Dessa forma, as crianças com escores z de PCA entre −1 DP e −3 DP foram randomizadas (1:1) para, durante um período de três meses:

  • Receber apenas aconselhamento nutricional (grupo controle — GC); ou
  • Receber aconselhamento nutricional associado a 420 mL/dia de um SNO à base de leite de vaca (1 kcal/mL; distribuição energética: 10% de proteínas, 49% de carboidratos e 41% de gorduras; fortificado com cálcio, vitamina D, ferro e zinco) (grupo SNO — GSNO).

O peso e a estatura foram medidos no início do estudo e após um e três meses, sendo comparados com os padrões da OMS. Nos mesmos períodos, a composição corporal foi avaliada por meio de análise de bioimpedância elétrica em crianças com idade igual ou superior a três anos.

Saiba mais: Quais são as suplementações recomendadas pelo Ministério da Saúde para lactentes?

Crescimento e composição corporal após três meses

O estudo incluiu 159 crianças, sendo 78 no GC e 81 no GSNO, com idades médias e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC 95%) de 3,5 (3,15–3,90) e 3,49 (3,10–3,90) anos. Cerca de 60% dos participantes eram do sexo masculino. Foi descrito também que mais de 60% das crianças eram cuidadas principalmente pelas mães e provinham de estratos socioeconômicos de classe média-alta. Ademais, um terço dos participantes não apresentava dificuldades alimentares. No entanto, 37% do GC e 40% do GSNO foram classificados como apresentando dificuldades alimentares graves.

Após três meses, o GSNO apresentou, em comparação com o GC (diferença média e IC 95%):

  • Maior ganho de peso: 0,16 (0,04–0,28) kg;
  • Maior ganho de estatura: 0,42 (0,05–0,79) cm;
  • Maior ganho de escore z de peso para a idade (P/I): 0,10 (0,01–0,18);
  • Maior ganho de PCA: 0,13 (−0,02 a 0,27).

Além disso, os ganhos de massa livre de gordura foram maiores com o GSNO, tanto em um quanto em três meses [diferença média (IC 95%): 0,26 (0,01–0,50) e 0,36 (0,10–0,63) kg]. Por fim, aos três meses, o ganho de massa magra também foi significativamente maior no GSNO [0,39 (0,11–0,68) kg].

Entenda: Novas recomendações da OMS sobre alimentação complementar de bebês de 6 a 23 meses

O que os achados sugerem para a prática pediátrica

O estudo concluiu que, combinados com aconselhamento nutricional, os SNO foram eficazes na melhoria do crescimento e da massa corporal magra em crianças desnutridas ou em risco de desnutrição.

Os pesquisadores ressaltaram o valor clínico da inclusão de suplemento nutricional oral (SNO) em estratégias de manejo nutricional para aumentar a massa livre de gordura. Essa estratégia pode estar associada a uma melhor saúde metabólica e função física. No entanto, embora os benefícios em curto prazo sejam evidentes, são necessárias pesquisas adicionais com acompanhamento mais longo e investigação dos mecanismos subjacentes.

Considerando a prática diária pediátrica, esse estudo corrobora uma abordagem nutricional mais proativa, sugerindo que o SNO, combinado com aconselhamento nutricional estruturado, pode ser benéfico para crianças em risco de desnutrição ou já desnutridas.

Autoria

Foto de Roberta Castro

Roberta Castro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Pediatria