O acompanhamento do crescimento infantil é um dos fundamentos da prática pediátrica. Ainda assim, por décadas, crianças com ganho de peso abaixo do esperado foram classificadas pelo termo failure to thrive (FTT), uma expressão amplamente utilizada, porém marcada por indefinição conceitual, variabilidade de critérios e potencial estigmatizante.
Em 2026, a American Academy of Pediatrics (AAP), em conjunto com a North American Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (NASPGHAN), publicou uma nova Clinical Practice Guideline que propõe uma mudança substancial de paradigma: a substituição do termo FTT por ganho ponderal insuficiente (faltering weight).
Mais do que uma atualização semântica, a diretriz redefine a forma como o pediatra identifica, avalia e maneja desvios no crescimento ponderal, trazendo implicações práticas relevantes para a atenção primária e especializada.
Por que abandonar o termo failure to thrive?
O termo failure to thrive nunca teve uma definição operacional única, sendo aplicado a diferentes cenários clínicos, desde variações benignas do crescimento até quadros de desnutrição significativa.
Além disso, a expressão carrega uma conotação implícita de “falha”, que pode ser interpretada como responsabilidade da criança, da família ou do cuidador, afetando negativamente a relação terapêutica.
A diretriz reconhece essas limitações e propõe o termo ganho ponderal insuficiente, que desloca o foco da ideia de fracasso para a identificação de um desvio mensurável na trajetória de peso, entendido como sinal clínico de alerta, e não como diagnóstico etiológico fechado.
Trata-se de um conceito mais neutro, funcional e alinhado à prática baseada em evidências.
Ganho ponderal insuficiente: conceito e relevância clínica
O ganho ponderal insuficiente é um motivo frequente de consultas pediátricas e internações hospitalares, afetando cerca de 5% a 10% das crianças em contextos de atenção primária e até 5% em serviços de referência.
Sua elevada prevalência torna essencial a existência de critérios claros, que evitem tanto intervenções excessivas quanto atrasos no reconhecimento de situações clinicamente relevantes.
A diretriz enfatiza que o crescimento infantil é um processo dinâmico, influenciado por fatores nutricionais, biológicos, psicossociais e ambientais.
Assim, o ganho ponderal insuficiente deve ser compreendido dentro de uma abordagem integral da criança, que inclua o contexto familiar, a segurança alimentar, o vínculo cuidador-criança e o acesso a recursos adequados.
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Novos critérios diagnósticos: foco no peso e nos escores-z
Um dos avanços centrais da diretriz é a padronização dos critérios diagnósticos para ganho ponderal insuficiente.
O documento recomenda que a avaliação se concentre prioritariamente no peso, uma vez que a estatura é um marcador tardio de comprometimento nutricional.
Sempre que possível, devem ser utilizados escores-z antropométricos, considerados o padrão global para avaliação nutricional, por permitirem maior precisão e melhor acompanhamento longitudinal do crescimento.
Critérios diagnósticos
O diagnóstico de ganho ponderal insuficiente pode ser estabelecido quando a criança apresenta qualquer um dos seguintes critérios:
- Peso-para-comprimento ou IMC-para-idade < –1,65 escore-z, aproximadamente percentil 5;
- Em crianças menores de 2 anos, velocidade de ganho de peso < –2,0 escore-z para a idade;
- Queda sustentada de ≥ 1,0 escore-z no peso, peso-para-comprimento ou IMC ao longo do tempo.
A diretriz reconhece que, especialmente nos primeiros dois anos de vida, a variabilidade do crescimento torna impossível criar critérios que incluam todos os casos verdadeiros e excluam todos os benignos.
Por isso, a interpretação clínica continua sendo central.
Avaliação clínica: menos exames, mais critério
Outro ponto de destaque é a orientação explícita contra a realização rotineira de exames laboratoriais extensos na avaliação inicial do ganho ponderal insuficiente.
A literatura demonstra que exames indiscriminados raramente identificam a causa subjacente e podem resultar em altos custos, ansiedade familiar e iniquidades no cuidado.
Quando solicitar exames complementares?
A diretriz recomenda que exames complementares e investigações específicas sejam reservados para situações bem definidas, como:
- Malnutrição moderada ou grave;
- Persistência do ganho ponderal insuficiente apesar de intervenções iniciais;
- Presença de sinais clínicos adicionais, sintomas sistêmicos ou história familiar relevante.
De forma consistente com essa lógica, o documento desencoraja fortemente a realização de endoscopia como parte da abordagem inicial, devido ao baixo benefício esperado e ao potencial de danos, salvo em cenários clínicos específicos.
Manejo nutricional: prioridade ao alimento
No tratamento do ganho ponderal insuficiente, a diretriz estabelece uma recomendação forte para o aumento da oferta calórica por meio de alimentos, considerada uma intervenção de alto potencial benefício e baixo risco.
O uso de fórmulas mais calóricas, fortificação do leite materno ou suplementos nutricionais orais recebe recomendação condicional.
Essas estratégias podem ser úteis em determinados contextos, mas também apresentam limitações relacionadas a custo, acesso, adesão e risco de substituição inadequada das refeições.
O manejo deve ser individualizado, proporcional à gravidade do quadro e sensível ao contexto sociocultural da família, evitando práticas como alimentação forçada ou medicalização excessiva do crescimento.
Considerações finais
A transição do conceito de failure to thrive para ganho ponderal insuficiente representa uma evolução significativa na pediatria contemporânea.
A nova diretriz da AAP e da NASPGHAN oferece uma estrutura mais clara, ética e baseada em evidências para identificar crianças em risco, orientar a avaliação clínica e direcionar intervenções eficazes e equitativas.
Para o pediatra, o ganho ponderal insuficiente deve ser entendido como um sinal clínico dinâmico, que exige boa mensuração, interpretação criteriosa das curvas de crescimento e uma abordagem centrada na criança e na família.
Mais do que rotular, o objetivo passa a ser detectar precocemente, compreender o contexto e intervir de forma adequada, promovendo crescimento e desenvolvimento saudáveis.
Autoria

Jôbert Neves
Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).
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