Atualmente, sabemos que os recém-nascidos (RN) são altamente vulneráveis à dor decorrente de procedimentos. Isso acontece devido à imaturidade de suas vias inibitórias da dor. No entanto, a dor não tratada pode acarretar consequências no neurodesenvolvimento desses pacientes a longo prazo.
A punção lombar (PL) é um procedimento muito frequente na neonatologia. Infelizmente, está associada à dor de intensidade moderada a grave, e estratégias analgésicas baseadas em evidências ainda são bastante limitadas. Apesar de a literatura mostrar que o uso de sacarose via oral (VO) está bem estabelecido para procedimentos de menor porte, como a punção de calcanhar e a venopunção, sua eficácia em procedimentos mais invasivos, como a PL, permanece incerta. Inclusive, revisões sistemáticas recentes da Cochrane destacam a necessidade de estudos com poder estatístico adequado.
Uma pesquisa recente avaliou se a administração de sacarose 25% VO reduz os escores de dor durante a PL e atenua o estresse fisiológico relacionado ao procedimento em RN a termo. O estudo, publicado no BMJ Paediatrics Open, abordou uma importante lacuna nas evidências sobre o manejo da dor em neonatologia.
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Como o estudo avaliou sacarose oral antes da punção lombar?
Conduzido no Irã, o estudo consistiu em um ensaio clínico randomizado (ECR) duplo-cego. Foram incluídos RN a termo, isto é, com idade gestacional (IG) ≥37 semanas e idade pós-natal inferior a 28 dias, agendados para PL diagnóstica para descartar meningite ou sepse.
Os critérios de exclusão foram:
- Prematuridade;
- Instabilidade clínica;
- Anomalias congênitas graves;
- Distúrbios metabólicos conhecidos;
- Administração de analgésicos nas 24 horas prévias ao procedimento;
- Alimentação VO nos 30 minutos que antecederam a PL.
Aleatoriamente, os pacientes receberam 2,0 mL de solução de sacarose oral 25% ou água estéril 2 minutos antes do procedimento. O desfecho primário foi a alteração na pontuação de dor em relação ao basal, avaliada pela Neonatal Infant Pain Scale (NIPS). Os desfechos secundários incluíram alterações na frequência cardíaca (FC), frequência respiratória (FR) e saturação de oxigênio (SpO₂). Além disso, as medições foram realizadas na linha de base e aos 1 e 3 minutos após a PL.
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O que foi observado nos escores de dor e parâmetros fisiológicos?
Sessenta pacientes foram incluídos no estudo, sendo que 30 foram alocados no grupo controle (GC) e 30 no grupo intervenção (GI). A maioria dos pacientes (76,7% no GC e 73,3% no GI) foi submetida à PL para investigação de sepse de início tardio, iniciada em período igual ou superior a 72 horas de vida. Os demais foram avaliados quanto à sepse de início precoce, isto é, com menos de 72 horas de vida.
As condições basais comuns incluíram:
- Investigação para descartar meningite em RN com manifestações clínicas inespecíficas (n=22);
- Suspeita de pneumonia (n=12);
- Hiperbilirrubinemia com necessidade de fototerapia (n=18);
- Corioamnionite materna (n=8).
Nenhum dos RN apresentava instabilidade crítica no momento do procedimento. Também não foram observados eventos adversos, como engasgo ou aspiração, em nenhum dos dois grupos.
O GI, que recebeu sacarose, apresentou:
- Alterações significativamente menores nas pontuações da escala NIPS com 1 min (1,0 vs. 5,0; p < 0,001) e 3 min (0,0 vs. 4,0; p < 0,001);
- Aumentos menores na FC (p = 0,012);
- Reduções menores na SpO₂ (p = 0,023) 1 minuto após a PL.
Os pesquisadores observaram também taquicardia clinicamente significativa (FC > 160 bpm) em 40% do GC versus 13,3% no GI (p = 0,045). Além disso, houve dessaturação relevante (SpO₂ < 90%) em 26,7% do GC versus 6,7% do GI (p = 0,038).
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Qual foi a interpretação dos autores sobre os achados?
Jashni Motlagh e colaboradores concluíram que a administração de 2 mL de sacarose 25% VO é uma intervenção não farmacológica segura, simples e clinicamente eficaz para reduzir a dor e o sofrimento fisiológico associados à PL em RN a termo durante o período de recuperação imediata.
Os pesquisadores descrevem que seus achados são robustos e recomendam que a sacarose 25% seja integrada a um protocolo de analgesia multimodal para PL na neonatologia. No entanto, ressaltam a necessidade de pesquisas multicêntricas para investigar as estratégias ideais de dosagem, a eficácia e a segurança em RN prematuros, assim como a associação com outras medidas não farmacológicas, como sucção não nutritiva, posicionamento e contenção facilitada.
Mensagem prática para a neonatologia
Na prática, observo uma utilização muito maior da glicose 25% do que da sacarose, e os estudos mostram que a sacarose tem um poder analgésico maior que a glicose. De todo modo, o uso de uma solução adocicada é adotado rotineiramente em muitas unidades, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, onde trabalho, para analgesia nos procedimentos dolorosos em neonatologia. A grande questão é disseminar o uso da estratégia multimodal, como mencionado pelos próprios autores do estudo.
Autoria

Roberta Castro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.
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