Apesar de serem incomuns em ambientes ambulatoriais, emergências pediátricas podem ocorrer em consultórios de atenção primária e de subespecialidades. Por isso, o preparo estruturado da equipe, a disponibilidade de equipamentos, a organização do espaço físico e a definição prévia de protocolos são medidas importantes para reduzir atrasos no atendimento e qualificar a resposta inicial.
A American Academy of Pediatrics (AAP) publicou, em 20 de abril de 2026, uma atualização das diretrizes de 2007 sobre o preparo para emergências em consultórios pediátricos. O documento apresenta 12 recomendações voltadas ao planejamento individualizado, considerando características do serviço, perfil dos pacientes atendidos, distância até serviços de emergência e funções da equipe durante uma situação crítica.
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Metodologia
O texto da AAP é uma declaração de política voltada ao preparo de consultórios pediátricos para emergências. A atualização revisa orientações anteriores e organiza recomendações práticas para que cada consultório avalie seu próprio nível de prontidão.
Escopo das recomendações
As recomendações contemplam:
- avaliação periódica do preparo do consultório;
- criação de protocolos de triagem, tratamento e transporte;
- manutenção de suprimentos, equipamentos e medicamentos essenciais;
- treinamento da equipe;
- simulações regulares;
- comunicação com serviços de emergência e familiares;
- documentação dos eventos;
- revisão estruturada após emergências.

Recomendações
- Avaliação regular do preparo para emergências
Os consultórios devem avaliar regularmente seu nível de preparo para emergências pediátricas, utilizando uma abordagem estruturada.
Essa avaliação deve considerar situações de emergência comuns, a disposição do consultório, a rapidez com que os serviços de emergência podem responder, a distância até o hospital mais próximo, o perfil dos pacientes atendidos e as funções específicas da equipe durante uma emergência.
- Protocolos de triagem, tratamento e transporte
Os consultórios devem elaborar protocolos para triagem, tanto telefônica quanto presencial.
Também devem criar planos de tratamento para emergências comuns e diretrizes para o transporte de pacientes quando forem necessários cuidados de maior complexidade. Esses protocolos podem precisar de ajustes durante períodos de redução da equipe.
Ao utilizar sistemas de autoagendamento, devem existir medidas de segurança para evitar atrasos no atendimento ou locais de atendimento inadequados.
- Suprimentos e medicamentos essenciais
Os consultórios devem manter suprimentos e medicamentos essenciais necessários para o tratamento de emergências comuns e potencialmente fatais.
Esses itens devem estar disponíveis e dentro do prazo de validade. Também devem ser verificados e reabastecidos regularmente, de acordo com rotina programada, incluindo o controle das datas de validade.
- Equipamentos e medicamentos adicionais
Os consultórios podem considerar a possibilidade de manter em estoque equipamentos e medicamentos adicionais.
Essa decisão deve levar em conta o perfil dos pacientes, o ambiente e a localização do consultório, além do nível de familiaridade e treinamento da equipe clínica no uso de materiais específicos.
- Treinamento dos pediatras
Os pediatras devem ser treinados para reconhecer e lidar com emergências comuns no consultório.
No mínimo, isso inclui Suporte Básico de Vida (SBV). Também pode envolver treinamento mais avançado, como Suporte Avançado de Vida em Pediatria (SAVP) ou Avaliação, Reconhecimento e Estabilização de Emergências Pediátricas (PEARS).
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- Simulações regulares e definição de funções
A execução de simulações com periodicidade regular pode ajudar a equipe a manter as habilidades necessárias.
As funções da equipe devem ser definidas com antecedência, mesmo em consultórios pequenos, onde os indivíduos podem assumir múltiplas funções. A familiaridade com a localização e o uso de equipamentos de emergência de tamanho adequado também é importante e pode ser facilitada mantendo os equipamentos organizados e identificados.
Estratégias eficazes de comunicação, como comunicação em circuito fechado, devem ser utilizadas. A equipe deve ser treinada em como acionar o serviço de emergência, como o SAMU. Além disso, os profissionais de saúde devem orientar as famílias sobre prevenção de emergências e recursos dos prontos-socorros próximos.
- Sistemas de notificação e comunicação padronizada
Sistemas de notificação podem ser usados para alertar rapidamente a equipe e acionar o serviço de emergência médica.
A equipe deve usar um modelo de comunicação padronizado para garantir que todas as informações essenciais sejam transmitidas de forma clara e eficiente.
- Comunicação com familiares
A comunicação com a família do paciente e com outras famílias presentes durante uma emergência deve ser clara.
A equipe deve explicar os procedimentos de atendimento esperados e o que está acontecendo durante a situação de emergência.
- Área específica para emergências
Deve haver uma área específica para emergências sempre que possível.
Esse espaço deve ser amplo o suficiente para acomodar o paciente, a equipe e os equipamentos necessários. Também deve contar com boa iluminação e fácil acesso a suprimentos essenciais, oxigênio e relógio visível.
- Documentação estruturada das emergências
Os consultórios devem desenvolver um sistema estruturado para documentar emergências.
Esse sistema pode incluir modelos e treinamento da equipe para registrar informações importantes sobre o paciente, o evento e o desfecho. A documentação também deve apoiar avaliações futuras e ações de melhoria da qualidade.
- Transferência estruturada de informações
Os consultórios podem usar uma ferramenta estruturada de transferência de informações ao se comunicarem com o serviço de emergência.
O objetivo é garantir que informações críticas sejam compartilhadas de forma clara e eficiente durante a transferência do cuidado.
- Reuniões estruturadas após emergências
Reuniões estruturadas de avaliação devem ser feitas logo após as emergências.
Essas reuniões ajudam a identificar áreas de melhoria nos sistemas e na prática clínica, contribuindo para o aprimoramento do preparo do consultório para eventos futuros.
Mensagem prática
Emergências pediátricas no consultório são incomuns, mas exigem preparo antecipado. A principal mensagem da AAP é que cada serviço deve conhecer seus riscos, treinar sua equipe, organizar equipamentos e medicamentos, criar protocolos claros e revisar os eventos após sua ocorrência. No ambulatório, a resposta inicial depende menos de improviso e mais de planejamento, comunicação estruturada e simulações periódicas.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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