Para verificar se o espaçador com maior liberação de fármaco in vitro proporciona eficácia clínica superior em comparação com um espaçador de menor liberação em pacientes de 6 a 48 meses com broncoespasmo agudo, Csonka e colaboradores realizaram um ensaio clínico randomizado publicado em maio de 2026 no JAMA Pediatrics. Neste artigo, serão descritos o desenho do estudo e suas principais contribuições.
Metodologia
O ensaio clínico randomizado foi realizado em quatro serviços de emergência pediátrica na Finlândia, com recrutamento entre abril de 2019 e 23 de maio de 2025, com pausa entre março de 2020 e julho de 2022. A análise foi conduzida por intenção de tratar.
Critérios de inclusão
Foram incluídas crianças de 6 a 48 meses de idade com sibilos moderados ou graves e desconforto respiratório, com escore ≥6 na Escala de Avaliação do Desconforto Respiratório (RDAI), além de assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido pelos responsáveis legais.
Critérios de exclusão
Os critérios de exclusão foram: necessidade de internação hospitalar imediata, saturação periférica de oxigênio (SpO₂) <85% na admissão, pneumonia bacteriana ou viral, laringite aguda (crupe), suspeita ou confirmação de corpo estranho nas vias aéreas, presença de estertores inspiratórios, diagnóstico prévio de disfunção hepática ou renal, imunocomprometimento ou outra condição crônica considerada excludente pelo médico assistente, displasia broncopulmonar, uso atual de β2-agonista de longa duração, participação prévia no estudo, recusa em receber medicação por meio de terapia de substituição de medicamentos ou participação em outro ensaio clínico nos 30 dias anteriores à inclusão.
Os participantes do estudo foram recrutados de 17 de abril de 2019 a 23 de maio de 2025.
Intervenções
As intervenções consistiram na administração de salbutamol na dose de 600 microgramas por dose, até três a quatro vezes, com intervalos de 20 minutos, por meio de um dos seguintes espaçadores:
Espaçadores avaliados
- Espaçador com alta taxa de administração do fármaco in vitro: Optichamber Diamond;
- Espaçador com baixa taxa de administração do fármaco in vitro: Babyhaler.
Desfechos analisados
Os desfechos primários foram a pontuação RDAI pós-tratamento e a mudança em relação ao valor basal, considerando redução de 2 pontos ou mais.
Os desfechos secundários analisados foram a taxa de internação hospitalar, a proporção de pacientes que precisaram de uma quarta dose de salbutamol e a mudança na frequência respiratória e na saturação de oxigênio.
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Resultados
Ao todo, 80 crianças foram randomizadas e analisadas. A idade média foi de 23,1 meses, sendo 36% do sexo feminino e 64% do sexo masculino.
Os pacientes tratados com salbutamol administrado pelo espaçador com maior liberação de fármaco in vitro, em comparação com o de baixa liberação, apresentaram:
- Pontuações RDAI médias pós-tratamento significativamente menores: 2,7 (DP 2,1) versus 6,8 (DP 3,6), com diferença média de −4,1 (IC 95%, −5,4 a −2,7; P<0,001);
- Maior redução média na pontuação RDAI: diferença média de −5,4 (IC 95%, −6,9 a −3,9; P<0,001);
- Menor taxa de internação: 20% versus 50%, com diferença de 30% (IC 95%, 9% a 49%) e número necessário para tratar de 3,3 (IC 95%, 2,1 a 11; P=0,005);
- Menor risco relativo de necessidade de uma quarta dose de salbutamol: 0,72 (IC 95%, 0,51 a 0,97; P=0,03);
- Após o tratamento, menor frequência respiratória: 42 versus 47 respirações por minuto, com diferença média de −5 (IC 95%, −9,8 a −0,7; P=0,04);
- Maior saturação de oxigênio: 97% versus 94%, com diferença média de 3% (IC 95%, 1,4 a 3,7; P<0,001).
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Mensagem prática
O uso do espaçador com maior liberação de fármaco in vitro proporcionou eficácia clínica superior em comparação com um espaçador de menor liberação em pacientes de 6 a 48 meses com broncoespasmo agudo. Isso reforça que a prescrição do tratamento deve incluir não apenas o medicamento, mas também o tipo de espaçador a ser utilizado.
Autoria

Renata Carneiro da Cruz
Editora médica de Pediatria da Afya ⦁ Mestre em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ ⦁ Residência em Pediatria Geral pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Residência em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
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