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Pediatria20 janeiro 2026

Protocolos de ventilação mecânica e desfechos em UTI pediátrica

Uma revisão sistemática brasileira avaliou se a implementação de protocolos estruturados de desmame reduz o tempo de ventilação mecânica.

A ventilação mecânica invasiva (VMI) é essencial em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP), mas está associada a complicações significativas, tornando fundamental a sua retirada oportuna e segura. Em pediatria, o desmame é particularmente complexo devido a inúmeros fatores, como diferenças anatômicas e fisiológicas relacionadas à idade, heterogeneidade das doenças e variabilidade na prática clínica, o que, infelizmente, pode aumentar a ocorrência de falhas de extubação, prolongar seu tempo de uso e piorar outros desfechos do paciente. Essa variabilidade é reforçada pela falta de evidências robustas específicas para UTIP e a ausência de consenso sobre as estratégias ideais de desmame.

Diante dessas questões, uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores brasileiros avaliou se a implementação de protocolos estruturados de desmame, em comparação com o atendimento padrão, reduz a duração da VMI, o tempo de internação na UTIP e no hospital, a falha na extubação e a mortalidade em crianças criticamente enfermas.

O estudo foi publicado na edição de novembro de 2025 no jornal Pediatric Pulmonology.

Médica realizando procedimento em criança com ventilação mecânica em UTIP

Protocolos de desmame em UTIP

Para o estudo, foram efetuadas buscas nas seguintes bases de dados: PubMed, EMBASE, CINAHL, Web of Science e Cochrane Central Register of Controlled Trials. A busca excluiu neonatos. Foram critérios de inclusão:

  • População: crianças e adolescentes com idade superior a 28 dias até 18 anos incompletos, internados em UTIP usando VMI (não foram incluídos pacientes traqueostomizados);
  • Intervenção: utilização de protocolo de desmame da VMI;
  • Intervenção de comparação: cuidados usuais de desmame com base no julgamento clínico;
  • Desfecho: qualquer desfecho primário ou secundário;
  • Desenho do estudo: ensaios clínicos randomizados (ECR), incluindo ensaios randomizados por conglomerados.

O desfecho primário foi a duração, em dias, da VMI desde a intubação traqueal até a extubação bem-sucedida. Já os desfechos secundários foram: tempo de internação, em dias, na UTIP e no hospital; falha na extubação (reintubação com retorno à VMI dentro de 48 h após a extubação); e taxas de mortalidade hospitalar.

Resultados

Foram incluídos sete ECR publicados no período de 2007 a 2021, totalizando 11.742 pacientes. Em seis estudos, a mediana de idade variou de 1,4 a 114,6 meses (somente um estudo relatou dados de idade como média, variando de 116 a 119 meses). Em um artigo que incluiu bebês com menos de 29 dias de vida, os pesquisadores entraram em contato com o autor para excluir os dados neonatais.

Os protocolos implementados nos estudos incluídos continham um protocolo de desmame ventilatório, um protocolo de desmame ventilatório automatizado por computador e um protocolo de sedação para desmame ventilatório.

​​O tempo de VMI foi menor com o protocolo de desmame ventilatório automatizado por computador (diferença média [DM] −2,33, intervalo de confiança de 95% [IC 95%] −3,42 a −1,24; 1 ensaio clínico, N = 2199; evidência de certeza moderada) e com o protocolo de desmame ventilatório (DM −1,2, IC 95% −1,27 a −1,13; 1 ensaio clínico, N = 260; evidência de certeza moderada).​

​​Uma redução no tempo de internação no hospital nos pacientes intubados por doença respiratória foi observada com o protocolo de desmame da sedação associado à VM (DM −1,2, IC 95% −1,27 a −1,13; 1 ensaio clínico, N = 260; evidência de certeza moderada). No entanto, os pesquisadores não observaram diferenças significativas entre os protocolos e o tratamento padrão em relação ao tempo de internação na UTIP, falha de extubação ou mortalidade.​

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Conclusão

Os pesquisadores descrevem que as evidências são limitadas devido à heterogeneidade nos protocolos aplicados e nas metodologias empregadas nos estudos. Todavia, assinalam que os protocolos de desmame podem reduzir o tempo de VMI. Além disso, essas poucas evidências apontam para que os protocolos de sedação e desmame possam diminuir o tempo de internação hospitalar em crianças com doenças respiratórias admitidas em UTIP. Infelizmente, ainda permanecem não comprovadas sua segurança e eficácia na redução da falha na extubação ou mortalidade.

Os autores também ressaltam a necessidade de uma maior padronização dos protocolos de desmame em UTIP. Ademais, destacam a necessidade de pesquisas futuras que considerem as diferentes faixas etárias e diagnósticos na pediatria. Essa necessidade também se justifica pelas evidências de baixa certeza.

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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