Crianças com comprometimento neurológico (CN) constituem um subconjunto crescente da população pediátrica e representam 5,3% de todas as hospitalizações, 22% das despesas hospitalares e 40% das readmissões nos Estados Unidos. Essas crianças são mais suscetíveis à pneumonia adquiridana comunidade e por aspiração e, quando hospitalizadas, são mais propensas a necessitar de Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) e a readmissões.
Crianças com CN enfrentam alto risco de pneumonia grave recorrente, com estratégias de prevenção de eficácia desconhecida. Pneumonia é a causa de óbito em 39% das crianças com paralisia cerebral, o tipo mais comum de CN em crianças.
Com o objetivo de avaliar a eficácia comparativa das estratégias de prevenção secundária para pneumonia grave em crianças com CN, Lin e colaboradores (2019) conduziram o estudo Pneumonia Prevention Strategies for Children With Neurologic Impairment, publicado na edição de outubro da revista Pediatrics, da Academia Americana de Pediatria.

Pneumonia com CN: estratégias de prevenção
Foi realizado um estudo retrospectivo, comparativo de eficácia em uma coorte de pacientes pediátricos de 0 a 21 anos de idade, matriculados nos Serviços Infantis da Califórnia (California Children’s Services) entre 1º de julho de 2009 e 30 de junho de 2014. Esses pacientes apresentavam CN e histórico de, no mínimo, uma internação por pneumonia.
Os autores avaliaram as associações entre hospitalização por pneumonia subsequente e estratégias de prevenção recomendadas por especialistas. Essas estratégias incluíam:
- Atendimento odontológico;
- Controle de secreção oral;
- Supressão de ácido gástrico;
- Colocação de sonda de gastrostomia (GTT);
- Fisioterapia respiratória;
- Antibióticos ambulatoriais antes da primeira internação;
- Consulta clínica antes ou após a primeira internação.
Lin e colaboradores (2019) utilizaram um modelo correspondente ao escore de propensão de 1: 2 para ajustar as covariáveis, incluindo dados sociodemográficos, complexidade médica e gravidade da hospitalização por índices.
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Resultados
- Entre 3632 crianças com CN e primeira internação por pneumonia, 1362 (37,5%) tiveram subsequente readmissão por pneumonia;
- Somente o atendimento odontológico foi associado à diminuição do risco de hospitalização subsequente por pneumonia [odds ratio ajustada (aOR): 0,64; intervalo de confiança de 95% (IC): 0,49-0,85];
- As exposições associadas ao aumento do risco incluíram:
- Colocação de sonda de GTT (aOR: 2,15; IC95%: 1,63-2,85);
- Fisioterapia respiratória (aOR: 2,03; IC95%: 1,29–3,20);
- Antibióticos ambulatoriais antes da hospitalização (aOR: 1,42; 95% IC: 1,06–1,92);
- Consulta clínica antes (aOR: 1,30; IC95%: 1,11–1,52) e após a primeira internação (aOR: 1,72; IC95%: 1,35–2,20);
- O manejo da secreção oral e a supressão de ácido gástrico foram associadas a um risco aumentado, mas em menor grau.
Conclusões
Lin e colaboradores (2019) concluíram que, das muitas estratégias de prevenção de pneumonia recomendadas pelas orientações de especialistas, apenas o atendimento odontológico parece ter efeitos potencialmente protetores contra pneumonia grave em crianças com CN: esses pacientes apresentaram menores taxas de pneumonia grave recorrente se recebiam atendimento odontológico como medida preventiva.
Notavelmente, a colocação de GTT esteve, neste estudo, associada a um risco aumentado de pneumonia grave, mas os autores destacam que estes resultados devem ser interpretados com cautela. Os autores enfatizam que este estudo apoia a realização de um ensaio clínico com atendimento odontológico para prevenção de pneumonia grave em crianças com CN e não suporta o uso generalizado de GTT com este objetivo.
Portanto, estes resultados sugerem que mais atenção deve ser dada à saúde bucal de crianças com CN. Infelizmente, de acordo inclusive com os próprios pesquisadores, o atendimento odontológico continua sendo a necessidade não atendida mais comum para crianças com necessidades especiais.
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Referências bibliográficas:
- LIN, J. L. et al. Pneumonia Prevention Strategies for Children With Neurologic Impairment. Pediatrics, v.144, n.4, e20190543, 2019
Autoria

Roberta Castro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.
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