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Pediatria18 abril 2026

Otite média aguda: qual a duração ideal da antibioticoterapia?

Otite média aguda: revisão avalia duração ideal da antibioticoterapia e compara cursos curtos vs. longos em crianças.

A otite média aguda (OMA) é a principal causa de prescrição de antibioticoterapia em Pediatria. Para verificar qual é a melhor duração do tratamento antibiótico na otite média aguda, comparando cursos curtos versus longos, Rieg e colaboradores realizaram uma revisão sistemática com meta-análise, publicada em fevereiro de 2026 no European Journal of Pediatrics. Neste artigo, destacaremos como a revisão foi conduzida e quais foram suas principais contribuições.

Metodologia

Foram incluídos estudos controlados randomizados (ECR) que comparavam diferentes durações de antibioticoterapia oral com o mesmo antimicrobiano, pela mesma via de administração e na mesma dosagem, em pacientes ambulatoriais.

As bases de dados utilizadas para a pesquisa foram MEDLINE, CENTRAL e Embase, com busca realizada em 6 de fevereiro de 2024. Também foram feitas pesquisas em quatro bases de registros de estudos: ClinicalTrials.gov, International Clinical Trials Registry Platform, EU Clinical Trials Register e Clinical Trials Information System.

Os dados coletados incluíram características dos estudos e das populações, além dos seguintes desfechos: sucesso do tratamento, recorrência da infecção, mortalidade, eventos adversos como hospitalizações, qualidade de vida, adesão ao tratamento, resistência antimicrobiana e erradicação bacteriana.

Quando possível, os resultados foram resumidos por meio de risco relativo (RR), com intervalo de confiança de 95%. Uma diferença de 10% foi considerada aceitável como margem de não inferioridade, conforme a European Medicines Agency.

Veja também: Qual é a duração ideal da antibioticoterapia na otite média de lactentes?

Resultados

De 3.874 resultados encontrados na busca, foram incluídos 12 estudos, totalizando 3.409 crianças. Os antimicrobianos avaliados foram penicilina V oral, amoxicilina, amoxicilina + clavulanato, cefaclor, cefuroxima, cefixima e cefpodoxima.

As durações de tratamento comparadas foram 2 versus 7 dias, 3 versus 7 dias, 3 versus 10 dias, 5 versus 10 dias e 10 versus 20 dias. Os estudos foram conduzidos na Europa e na América do Norte. A maioria foi realizada antes do ano 2000 e apresentou alto risco de viés.

Sucesso do tratamento

Nove estudos relataram esse desfecho. Apenas um apresentava baixo risco de viés; os outros oito tinham alto risco de viés para esse desfecho.

Nenhuma das comparações examinadas conseguiu demonstrar não inferioridade, pois o intervalo de confiança de 95% do RR, agrupado ou de estudos individuais, cruzou a margem de não inferioridade de 0,9, sugerindo resultados piores para as durações mais curtas de antibioticoterapia.

Entre os exemplos citados, destacam-se:

  • amoxicilina-clavulanato por 5 versus 10 dias: RR [IC 95%] 0,79 [0,71; 0,88];
  • cefaclor por 5 versus 10 dias;
  • cefalosporinas de terceira geração por 5 versus 10 dias.

Recorrência

A recorrência foi relatada em dez estudos. Não houve diferença significativa entre os grupos, embora os estudos também apresentassem aparente alto risco de viés.

Mortalidade

Nenhum estudo relatou mortalidade diretamente como desfecho. No entanto, os relatos de estudos com alto risco de viés, comparando amoxicilina por 3 versus 10 dias e cefaclor por 3 versus 7 dias, sugerem que não ocorreram mortes como evento adverso.

Qualidade de vida e adesão

Nenhum estudo forneceu informações sobre qualidade de vida.

Nos grupos que compararam placebo com antibioticoterapia, não houve diferença na adesão. Entretanto, houve maior adesão no grupo de 5 dias no estudo que comparou amoxicilina-clavulanato por 5 versus 10 dias.

Desfechos microbiológicos e custo-efetividade

Dos quatro estudos que avaliaram desfechos microbiológicos, apenas um mostrou pequena diferença entre os grupos de tratamento, mantendo detecção de bactéria e de bactéria resistente ao final do tratamento.

Um estudo de modelagem econômica em saúde sobre OMA comparou tratamento por 5 dias com tratamento por 7 a 10 dias e encontrou custos mais altos para a duração mais curta. Isso ocorreu porque os custos relacionados à ausência dos pais no trabalho e a consultas médicas superaram a economia imediata com o medicamento, já que os cursos mais curtos implicaram menor eficácia.

Dessa forma, cursos de tratamento de 7 a 10 dias foram considerados a opção mais eficiente. A estratégia de “prescrição tardia”, isto é, prescrever antibióticos apenas se os sintomas persistirem após 48 a 72 horas, foi identificada como a estratégia mais custo-efetiva.

A OMA pode evoluir com comprometimento da audição, mas esse aspecto não foi abordado nos estudos incluídos.

Limitações

A maioria dos estudos analisados foi realizada antes do ano 2000 e apresentou alto risco de viés, especialmente em relação ao desfecho de sucesso do tratamento.

Mensagem prática

Embora essa revisão sistemática sugira que cursos de antibioticoterapia de 7 a 10 dias tendem a apresentar maior sucesso terapêutico e melhor custo-efetividade, ainda são necessários novos estudos controlados randomizados de alta qualidade para embasar melhor a duração ideal do tratamento, bem como seus impactos sobre efetividade, qualidade de vida e mortalidade. Isso é especialmente importante porque a maior parte dos estudos incluídos apresentou alto risco de viés em relação ao desfecho de sucesso terapêutico.

Autoria

Foto de Renata Carneiro da Cruz

Renata Carneiro da Cruz

Editora médica de Pediatria da Afya ⦁ Mestre em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ ⦁ Residência em Pediatria Geral pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Residência em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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