A Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics – AAP) e a Sociedade Norte-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (North American Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition – NASPGHAN) publicaram, em 16 de março de 2026, uma nova diretriz para auxiliar na identificação, manejo e tratamento da perda de peso em crianças pequenas.
A publicação mostra que o termo “failure to thrive” (FTT) é descritivo e impreciso, historicamente associado à desaceleração do crescimento e dividido em causas orgânicas e não orgânicas. A diretriz destaca que essa classificação é considerada limitada diante da natureza multifatorial do problema, que envolve interações médicas, nutricionais e sociais. Portanto, com base nesse contexto, a AAP e a NASPGHAN propuseram substituir o termo FTT por “faltering weight” (“perda de peso”) para padronizar a definição e reduzir conotações negativas. Além disso, essa substituição introduz critérios diagnósticos baseados em z-scores para maior objetividade, estabelecendo uma abordagem sistemática de avaliação que vai de exames básicos a investigações especializadas, e fornecendo recomendações práticas de manejo. É importante lembrar que o diagnóstico é apenas o primeiro passo para identificar desnutrição, necessidade de suporte nutricional ou investigação adicional, e que exige uma abordagem multidisciplinar para aumentar a precisão diagnóstica, otimizar o cuidado e evitar exames desnecessários.
A seguir, encontra-se uma breve síntese das orientações clínicas presentes nessa nova diretriz, que fornece oito recomendações e articula quatro declarações de boas práticas para orientação adicional.
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Definição de perda de peso
Segundo a nova diretriz, a definição de perda de peso inclui qualquer um dos seguintes critérios:
- Peso para comprimento ou índice de massa corporal (IMC) para idade <−1,65 escore z (5º percentil); ou
- Velocidade de ganho de peso <−2 escore z para idade (2,3º percentil) em crianças com menos de 2 anos de idade; ou
- Diminuição de peso, peso para comprimento ou IMC ≥ 1 escore z.
Recomendações
O painel sugere não utilizar o nível socioeconômico como fator de risco atribuído no diagnóstico de perda de peso – recomendação condicional, certeza da evidência muito baixa.
O painel sugere a realização de testes diagnósticos ao invés de não realizar nenhum teste em crianças que apresentam certas condições que sugerem uma avaliação focal (isto é, gravidade da desnutrição, tempo desde o diagnóstico, histórico familiar, sinais ou sintomas adicionais) ou que apresentam perda de peso persistente – recomendação condicional, certeza da evidência muito baixa.
- O painel recomenda não realizar testes diagnósticos como parte da avaliação inicial de rotina para perda de peso em crianças sem sinais, sintomas e achados específicos que justifiquem uma avaliação focal – recomendação forte, certeza da evidência muito baixa.
- O painel recomenda não realizar endoscopia como parte da avaliação inicial de rotina – recomendação forte, certeza da evidência muito baixa.
- O painel sugere endoscopia com biópsia ao invés de não realizar o procedimento em crianças com perda persistente de peso ou que apresentem suspeita de condições que não podem ser diagnosticadas sem endoscopia – recomendação condicional, nível de certeza da evidência muito baixo.
- O painel recomenda o aumento da ingestão de calorias/energia ao invés da manutenção desse aumento em crianças com perda de peso instável – recomendação forte, com nível de certeza da evidência muito baixo.
- O painel sugere o uso de suplementação nutricional oral ao invés da ausência de suplementação nutricional oral em crianças com perda de peso insuficiente – recomendação condicional, nível de certeza da evidência muito baixo.
- O painel sugere terapia para transtorno alimentar pediátrico ao invés de nenhuma terapia para transtorno alimentar pediátrico em crianças com perda de peso insuficiente e problemas de alimentação documentados – recomendação condicional, certeza da evidência muito baixa.
Declarações de boas práticas
- O painel enfatiza a importância dos programas de assistência social e outros programas de apoio social para mitigar os impactos nocivos da pobreza e dos fatores sociais que afetam a saúde, incluindo a insegurança alimentar.
- O painel recomenda que todas as crianças sejam submetidas a uma anamnese completa, exame físico e avaliação do desenvolvimento (como habilidades motoras finas e oromotoras); histórico familiar e social; histórico clínico e cirúrgico; e uma avaliação do crescimento, histórico alimentar e outras dificuldades e preocupações (como normas culturais, práticas parentais de alimentação e histórico de amamentação) durante a avaliação inicial de perda de peso ou suspeita de perda de peso.
- É essencial obter medidas antropométricas precisas para monitorar o crescimento infantil e para o diagnóstico de perda de peso. Recomenda-se:
- Crianças <2 anos (do nascimento aos 23 meses): medição do comprimento em decúbito dorsal, utilizando um infantômetro com apoio de cabeça fixo, plataforma horizontal e apoio para os pés ajustável, quando possível (algumas clínicas utilizam outros métodos, de acordo com a necessidade). Peso: obtido, idealmente, utilizando uma balança digital, sem roupa.
- Crianças ≥ 2 anos que consigam ficar em pé sem auxílio: a estatura deve ser obtida utilizando um estadiômetro com plataforma vertical fixa e apoio de cabeça ajustável. Para crianças que não conseguem ficar em pé, recomenda-se que os profissionais de saúde sigam as melhores práticas para crianças com necessidades especiais de saúde. Peso: obtido, idealmente, utilizando uma balança digital, com roupas leves e sem sapatos.
Recomenda-se o encaminhamento a um gastroenterologista pediátrico que possa avaliar criticamente a necessidade de endoscopia e, quando esta for indicada, obter as amostras de biópsia necessárias, além de realizar o exame endográfico, quando o encaminhamento a um gastroenterologista for necessário devido à perda de peso.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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