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Pediatria7 abril 2026

Leite materno fresco intranasal em RN de muito baixo peso com HIV-MG

Leite materno intranasal pode reduzir complicações e favorecer regressão da HIV em prematuros, mas evidência ainda é limitada.

A hemorragia intraventricular da matriz germinativa (HIV-MG) é uma complicação frequente e grave, afetando até 45% dos recém-nascidos (RN) antes de 26 semanas de idade gestacional (IG), com impacto significativo no neurodesenvolvimento e na mortalidade. Como não existe tratamento específico além de cuidados de suporte e intervenção precoce, o interesse nos componentes neuroprotetores do leite materno (LM) tem crescido bastante, incluindo fatores de crescimento, células-tronco mesenquimais, neurotrofinas e exossomos, que demonstraram potencial terapêutico em modelos experimentais.  

Considerando que RN de muito baixo peso ao nascer (RNMBPN) em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) são alimentados por sondas orogástricas e não têm contato nasofaríngeo com o LM, um estudo publicado na Cureus investigou os efeitos neuroprotetores do LM fresco administrado por via intranasal (IN) em RNMBPN com HIV-MG, avaliando os desfechos neuromorfológicos em curto prazo por meio de ultrassonografia (USG) craniana seriada e o neurodesenvolvimento em longo prazo utilizando a escala Bayley-III. 

Metodologia 

O estudo, conduzido na Turquia, avaliou bebês com diagnóstico de HIV-MG na primeira semana de vida, entre setembro de 2019 e maio de 2023.  

Foram incluídos RN classificados como de muito baixo peso ao nascer (MBPN), com peso ao nascer inferior a 1500 gramas. O hospital atua como um centro regional, portanto, algumas mães residiam em outras cidades e só conseguiam fornecer LM extraído uma ou duas vezes por semana, na forma congelada, não podendo fornecer LM fresco. Por outro lado, os RN cujas mães permaneciam no hospital e extraíam LM oito vezes ao dia durante o horário de atendimento, bem como aqueles cujas mães se hospedavam em apart-hotéis próximos e podiam fornecer LM fresco extraído pelo menos quatro vezes ao dia, em até duas horas após a extração, puderam receber LM fresco por via IN. Foram excluídos do estudo os RN com anomalias cromossômicas, anomalias congênitas graves, cardiopatia congênita, RN diagnosticados com hemorragia intraventricular (HIV) que faleceram antes dos 28 dias de vida e aqueles alimentados exclusivamente com fórmula infantil. Dessa forma, os grupos de estudo (GE) e controle (GC) foram formados espontaneamente. 

Foram formados dois grupos de comparação. No GE, foram incluídos os RN cujas mães conseguiram fornecer LM fresco em até duas horas após a extração, receberam LM fresco por via IN (0,1 mL por narina, 4 a 8 vezes ao dia) por pelo menos 28 dias (grupo inFBM+, n=11). Já no GC, foram incluídos os RN sem acesso a leite fresco ou sem consentimento, que receberam o tratamento padrão (grupo inFBM−, n=11).  

USG cranianas seriadas, classificadas segundo Volpe, foram realizadas para monitorar a progressão da hemorragia, a dilatação ventricular, a dilatação ventricular pós-hemorrágica e a hidrocefalia, com os radiologistas desconhecendo o tratamento recebido. A regressão foi avaliada na alta hospitalar.  

Os desfechos do desenvolvimento neurológico em longo prazo foram avaliados em 14 bebês (sete por grupo) entre 18 e 36 meses de vida, utilizando a escala Bayley-III. Além disso, os grupos foram comparados quanto às características perinatais, morbidades clínicas, achados de USG, necessidade de cirurgia e escores de desenvolvimento. 

Resultados 

Comparado ao GC, o GE apresentou: 

  • Menor incidência de dilatação ventricular pós-hemorrágica (DVPH) (p = 0,010); 
  • Maior incidência de regressão do grau nos achados da USG transfontanela na alta hospitalar (p = 0,008); 
  • Menor incidência de retinopatia da prematuridade (retinopathy of prematurity – ROP), embora não tenha sido estatisticamente significativo. 

Não houve diferença estatisticamente significativa nos dados demográficos e clínicos entre os grupos de estudo e controle. 

Um RN do grupo que recebeu LM fresco por via IN faleceu no 30º dia de vida devido a sepse grave. A USG craniana realizada no 1º dia de vida revelou hemorragia intraventricular de grau 2 neste RN, o que levou ao início da administração IN de LM fresco no 2º dia.  

Conclusão 

No presente estudo, a administração IN de LM fresco a RN prematuros de MBPN com HIV-MG resultou na regressão da hemorragia, reduzindo significativamente a progressão para DVPH, em comparação com a não administração. Além disso, a medida também pode reduzir a incidência de ROP. No entanto, os pesquisadores destacam que são necessários mais ensaios clínicos randomizados e controlados em larga escala com desfechos em longo prazo para que essa prática se torne rotineira. 

Comentários 

Considero bem interessante essa estratégia de administração IN de leite materno fresco em RNMBPN com HIV-MG. De fato, é uma estratégia com plausibilidade biológica, de baixo custo e promissora com relação à neuroproteção. No entanto, apesar de terem sido observados desfechos favoráveis no estudo, essas evidências ainda são muito preliminares. O estudo utilizou uma amostra pequena e não randomizada, portanto, devemos ter cautela na interpretação desses resultados.  

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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