A sepse pediátrica é caracterizada por infecção suspeita ou confirmada em menores de 18 anos (excluindo neonatos e bebês com menos de 37 semanas de idade pós-concepcional) com escore de Phoenix maior ou igual a 2 pontos. Apesar da diminuição da incidência e da mortalidade ao longo dos anos, a sepse continua sendo uma causa significativa de morbimortalidade infantil, com efeitos prolongados que evidenciam a vulnerabilidade dos sobreviventes mesmo após a alta hospitalar.
Desenho de Estudo
Nesse contexto, foi realizada uma revisão sistemática e meta-análise, publicada na revista Annals of Medicine em 2026, com o objetivo de estimar a mortalidade a longo prazo associada à sepse pediátrica.
Para isso, bases de dados como o PubMed, Embase, Cochrane Library e Web of Science foram utilizadas, sendo selecionados estudos em inglês do tipo coorte, transversal ou ensaio clínico, publicados até 30 de junho de 2025, que abordassem a mortalidade de crianças no período igual ou superior a 30 dias após o diagnóstico de sepse (com base em critérios internacionais) ou alta hospitalar.
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Resultados e discussão
A meta-análise reuniu seis estudos, totalizando 11.318 crianças com sepse, provenientes de diferentes regiões. Os trabalhos incluíram pesquisas prospectivas e retrospectivas realizadas na Índia, Estados Unidos, Europa, Américas, Uganda e China, com períodos de seguimento variando de 60 dias a 12 meses.
A taxa agrupada de mortalidade a longo prazo entre crianças com sepse foi estimada em 11% (IC 95%: 7–16%), porém com significativa heterogeneidade entre os estudos analisados (I² = 98,2%; p < 0,001).
Devido às diferenças no tempo de acompanhamento, foram feitas análises por subgrupos. A mortalidade foi de 14% (IC 95%: 10–17%) nos estudos com até três meses de seguimento e de 10% (IC 95%: 6–15%) naqueles com acompanhamento entre seis e doze meses. Na análise de sensibilidade, a retirada de um estudo reduziu a heterogeneidade, mas elevou a estimativa de mortalidade para 16%.
Estes achados reforçam a relevância clínica da sepse e seus desfechos pós-alta, muitas vezes subestimados. Readmissões e óbitos tardios são frequentes, especialmente em países de baixa e média renda, com muitos óbitos ocorrendo fora do hospital. A mortalidade pós-alta é influenciada por múltiplos fatores, incluindo condições clínicas persistentes, fragilidades sociais, barreiras ao acompanhamento e limitações estruturais do sistema de saúde. Embora mecanismos imunológicos ligados a mortes tardias já sejam estudados em adultos, pesquisas pediátricas permanecem escassas. Diretrizes internacionais enfatizam o acompanhamento pós-alta em adultos, mas ainda faltam recomendações específicas para crianças, evidenciando a necessidade de fortalecer o monitoramento e cuidado continuado.

Conclusão
A mortalidade a longo prazo após sepse pediátrica foi estimada em 11%, evidenciando que o risco de óbito permanece significativo mesmo após a alta hospitalar. Esse dado ressalta a necessidade de estudos longitudinais robustos que permitam identificar fatores de risco passíveis de intervenção e subsidiar estratégias de seguimento fundamentadas em evidências e cuidado individualizado.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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