Introduzidos recentemente, o Phoenix Sepsis Criteria (PSC) e o Phoenix Sepsis Score (PSS) substituem as definições da International Pediatric Sepsis Consensus Conference (IPSCC) de 2005, oferecendo critérios baseados em dados para sepse pediátrica (SP), fundamentados em disfunção orgânica e não na síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS). Esses novos conceitos integram os sistemas respiratório, cardiovascular, de coagulação e neurológico e definem SP como infecção suspeita ou confirmada com um PSS de, no mínimo, 2. Desenvolvido e validado com base em mais de três milhões de consultas pediátricas, o PSS demonstrou sensibilidade e valor preditivo positivo (VPP) superiores para mortalidade em comparação com a IPSCC. Um PSS expandido com oito itens (Phoenix-8), incluindo sistemas orgânicos adicionais, apresentou desempenho semelhante, mas não foi adotado para uso rotineiro devido a questões práticas.
Infelizmente, apesar desses avanços na definição de SP, ainda existem limitações devido à natureza de dados retrospectivos, à restrição a centros terciários americanos, à falta de coortes europeias e à avaliação restrita às primeiras 24 horas de internação. Para abordar essas questões, um estudo realizado na Itália avaliou o desempenho preditivo e prognóstico do PSC e do PSS em comparação com os critérios da IPSCC e outros escores de disfunção orgânica em crianças com infecção internadas em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP).

Metodologia
Marchetto e colaboradores conduziram um estudo de coorte prospectivo multicêntrico em oito UTIP da Rede Italiana de Estudos em UTIP (Italian Network of PICU Study Group – TIPNet), entre fevereiro de 2022 e abril de 2024. A população do estudo consistiu em crianças e adolescentes com menos de 18 anos admitidos com suspeita de infecção. Foram excluídos recém-nascidos (RN) antes da primeira alta hospitalar, RN com idade pós-concepcional inferior a 37 semanas e ausência de dados disponíveis nas primeiras 24 horas de internação.
A suspeita de infecção foi definida como o início ou escalonamento da terapia antimicrobiana nas primeiras 24 horas após a admissão. Durante os dias 1 e 2 de internação na UTIP. foram coletados sinais vitais, marcadores de disfunção orgânica e necessidades de suporte orgânico. Para a avaliação de sepse, foram usados os critérios do IPSCC e o PSC. Os escores de disfunção orgânica foram calculados utilizando IPSCC Severe Sepsis, PSS, Phoenix-8, Pediatric Logistic Organ Dysfunction-2 (PELOD-2), pediatric Sequential Organ Failure Assessment (pSOFA) e Pediatric Multiple Organ Dysfunction Score (P-MODS). O desempenho preditivo dos critérios de sepse foi avaliado através da sensibilidade e o VPP. O desempenho prognóstico dos escores de disfunção orgânica foi avaliado utilizando a área sob a curva de precisão-recall (area under the precision-recall curve – AUPRC).
O desfecho primário foi a mortalidade na UTIP. Já o desfecho secundário consistiu no surgimento de nova incapacidade, definida pela piora no escore de desempenho global pediátrico (Pediatric Overall Performance Category – PGPC) na alta hospitalar.
Resultados
Um total de 4299 pacientes foram admitidos nas UTIP participantes durante o período do estudo, representando 66,1% (6504 pacientes) de todas as admissões em UTIP do grupo TIPNet. No entanto, foram incluídos 687 pacientes que consentiram com a coleta de dados (16% do total de atendimentos nessas unidades). A mediana de idade foi de 21,9 meses e 299 pacientes (43,6%) eram do sexo feminino. Além disso, 288 (41,9%) apresentavam comorbidades.
O PSC apresentou desempenho preditivo superior aos critérios de sepse do IPSCC, com sensibilidade e VPP aprimorados para mortalidade:
- No 1º dia:
- PSC: sensibilidade 96,4%, intervalo de confiança de 95% (IC 95%) 95,0–97,8%;
- VPP: 7,6%, IC 95% 5,6–9,6%;
- IPSCC: sensibilidade 82,1%; IC 95% 79,3–85,0%;
- VPP: 6,2%; IC 95% 4,4–8,0%.
- No 2º dia:
- PSC: sensibilidade 100,0%, IC 95% 100,0–100,0%;
- VPP: 10,0%; IC 95% 7,6–12,5%;
- IPSCC: sensibilidade 75,0%, IC 95% 71,5–78,5%;
- VPP 9,0% IC 95% 6,7–11,3%.
Além disso, o PELOD-2 apresentou a maior AUPRC para mortalidade:
- Dia 1: 0,45; IC 95%, 0,26–0,63;
- Dia 2: 0,59; IC 95%, 0,38–0,77.
Por fim, o escore de sepse grave do IPSCC teve desempenho inferior a todos os outros escores de disfunção orgânica, incluindo PSS e Phoenix-8. Todos os indicadores prognósticos melhoraram do dia 1 para o dia 2.
Conclusão
O estudo mostrou que os critérios PSC e PSS superaram os critérios IPSCC na identificação de SP, demonstrando maior precisão preditiva e prognóstica para mortalidade. Com relação à previsão de mortalidade, o PELOD-2 apresentou o melhor desempenho geral. Dessa forma, os pesquisadores concluíram que os resultados apoiam a adoção do PSS, ao mesmo tempo que enfatizam a necessidade de validação adicional em diversos contextos e de avaliação de seu impacto clínico além do período inicial de 24 horas.
Comentário
Do ponto de vista prático, este estudo se mostra bastante importante porque demonstra que o PSC e o PSS identificam crianças de alto risco com mais precisão e de forma mais precoce do que as definições tradicionais do IPSCC, especialmente quando os pacientes são reavaliados após 48 horas. Esses resultados podem facilitar a avaliação do paciente, já que uma estrutura mais simples, baseada em disfunção orgânica, pode ser usada, sendo bastante alinhada com a gravidade do paciente. Além disso, pode sinalizar quais poderão falecer até o segundo dia. Essa vantagem permite uma escalada mais precoce do tratamento, monitoramento mais rigoroso e discussões mais informadas com familiares e equipes. Além disso, ao mesmo tempo, o PELOD-2 se mostrou um forte parâmetro para prognóstico de mortalidade.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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