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Pediatria17 março 2026

Estudo avalia fatores que interferem na qualidade sanitária do leite humano doado

Estudo brasileiro mostra que a redução do contato com doadoras durante a pandemia impactou a qualidade e aumentou o descarte de leite humano.

O leite humano (LH) é um biofluido equilibrado e harmonioso com propriedades imuno e neuroprotetoras importantes para recém-nascidos (RN) a termo e, principalmente, prematuros. Infelizmente, o aleitamento materno direto não é possível em algumas situações. Dessa forma, uma alternativa para esses bebês é receber LH doado. Manter a qualidade nutricional e higiênica exige um manejo cuidadoso de todas as etapas, desde a coleta em domicílio até a distribuição, tradicionalmente apoiado por contato direto e visitas domiciliares, que foram suspensas durante a pandemia de covid-19. 

Um estudo brasileiro publicado no periódico Nutrición Hospitalaria avaliou o impacto da redução da interação entre doadoras de LH e bancos de leite, da capacidade de armazenamento em mamadeiras e da variação sazonal na qualidade e no volume do LH doado, considerando aspectos higiênico-sanitários. 

Breast pump with bags of breastmilk and a pink heart. Concept of motherhood, breastfeeding, love, and care for the baby. Represents the bond between mother and child, and the importance of nutrition.

Metodologia 

Pesquisadores do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (UFMS/Ebserh) em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, conduziram um estudo descritivo, quantitativo e transversal com análise de dados do Banco de LH no período entre janeiro de 2018 e dezembro de 2022. Foram utilizados registros do Human Milk Bank Management System (BLHweb) de todas as mamadeiras de LH doadas, independentemente do volume.  

Conforme a produção de leite e a capacidade do freezer, mamadeiras de vidro esterilizadas (250 a 600 mL) foram fornecidas às doadoras juntamente com instruções sobre a coleta e armazenamento. Inicialmente, o fornecimento do material e as orientações eram realizadas presencialmente com demonstrações em domicílio. No entanto, passaram a ser feitas remotamente durante as restrições da pandemia a partir de março de 2020, retomando as visitas presenciais em outubro de 2021.  

Os dados sazonais foram categorizados por trimestres do hemisfério sul, e o leite foi descartado caso não atendesse aos padrões legais de qualidade, incluindo armazenamento adequado, acidez ≤8° Dornic (D), ausência de contaminantes e preservação das características sensoriais.  

Resultados 

Entre 2018 e 2022, foram coletados 3.994,5 L de LH em 5.772 mamadeiras (de 20 a 600 mL). 

Foi observado um aumento no volume de doações em comparação com 2019: 

  • 2020: aumento de 21,2%; 
  • 2021: aumento de 7%; 
  • 2022: retorno aos níveis basais. 

As taxas de descarte aumentaram consideravelmente durante a pandemia. A média pré-pandemia era de 13%. Em 2020, o descarte de materiais recicláveis ​​foi de 31,6% e, em 2021, de 34,9%. Em 2022, o descarte foi reduzido para 28,8%. A análise estratificada mostrou taxas de descarte mais altas após a suspensão das orientações domiciliares presenciais, sendo a contaminação (particularmente por cabelo e pele) a principal causa de descarte em 2021, e mamadeiras de maior volume descartadas com mais frequência em 2020.  

Na primavera, o risco de descarte foi o mais alto (1,73 vezes) em comparação com as outras estações. No outono, as perdas foram menores (risco de 0,88). Em relação ao volume das garrafas, quanto maior era o volume, maiores eram as perdas. 

Conclusão 

O estudo concluiu que a ausência de orientação direta e esclarecimento de dúvidas com doadoras domiciliares e de monitoramento tem um impacto negativo na qualidade do LH doado, reduzindo o volume de leite disponível para receptoras hospitalizadas. Os pesquisadores observaram que também há interferência da capacidade volumétrica da mamadeira utilizada para armazenar o leite cru, isto é, quanto maior for a mamadeira, maior é a taxa de perda. Outro ponto demonstrado pelos pesquisadores é que o outono é a estação com o maior volume de leite por mamadeira e a menor taxa de perda, diferentemente da primavera, que apresentou o maior risco de descarte. Isso destaca a necessidade de monitoramento intensivo durante períodos de altas temperaturas e baixa umidade relativa.  

Os resultados deste estudo contribuem para o desenvolvimento de estratégias voltadas à redução das perdas de LH doado, garantindo que o Banco de LH atinja seu objetivo de fornecer uma fonte de nutrientes e imunobiológicos em quantidade e qualidade adequadas para os RN internados na unidade neonatal. 

Comentários 

Esse estudo concluiu o quanto é importante o contato direto presencial entre as equipes de bancos de LH e doadoras. O descarte, principalmente por causas evitáveis, de fato ocorreu mais quando houve a suspensão desse contato. Portanto, o vínculo da doadora com a equipe técnica faz toda a diferença no processo de doação do LH.  

O que mais me chama a atenção nesse estudo é que ele reforça o protagonismo brasileiro na área de bancos de LH. O país é reconhecido internacionalmente como referência em organização em rede, controle de qualidade e políticas públicas robustas para a promoção do aleitamento materno. 

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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