O leite humano (LH) é um biofluido equilibrado e harmonioso com propriedades imuno e neuroprotetoras importantes para recém-nascidos (RN) a termo e, principalmente, prematuros. Infelizmente, o aleitamento materno direto não é possível em algumas situações. Dessa forma, uma alternativa para esses bebês é receber LH doado. Manter a qualidade nutricional e higiênica exige um manejo cuidadoso de todas as etapas, desde a coleta em domicílio até a distribuição, tradicionalmente apoiado por contato direto e visitas domiciliares, que foram suspensas durante a pandemia de covid-19.
Um estudo brasileiro publicado no periódico Nutrición Hospitalaria avaliou o impacto da redução da interação entre doadoras de LH e bancos de leite, da capacidade de armazenamento em mamadeiras e da variação sazonal na qualidade e no volume do LH doado, considerando aspectos higiênico-sanitários.

Metodologia
Pesquisadores do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (UFMS/Ebserh) em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, conduziram um estudo descritivo, quantitativo e transversal com análise de dados do Banco de LH no período entre janeiro de 2018 e dezembro de 2022. Foram utilizados registros do Human Milk Bank Management System (BLHweb) de todas as mamadeiras de LH doadas, independentemente do volume.
Conforme a produção de leite e a capacidade do freezer, mamadeiras de vidro esterilizadas (250 a 600 mL) foram fornecidas às doadoras juntamente com instruções sobre a coleta e armazenamento. Inicialmente, o fornecimento do material e as orientações eram realizadas presencialmente com demonstrações em domicílio. No entanto, passaram a ser feitas remotamente durante as restrições da pandemia a partir de março de 2020, retomando as visitas presenciais em outubro de 2021.
Os dados sazonais foram categorizados por trimestres do hemisfério sul, e o leite foi descartado caso não atendesse aos padrões legais de qualidade, incluindo armazenamento adequado, acidez ≤8° Dornic (D), ausência de contaminantes e preservação das características sensoriais.
Resultados
Entre 2018 e 2022, foram coletados 3.994,5 L de LH em 5.772 mamadeiras (de 20 a 600 mL).
Foi observado um aumento no volume de doações em comparação com 2019:
- 2020: aumento de 21,2%;
- 2021: aumento de 7%;
- 2022: retorno aos níveis basais.
As taxas de descarte aumentaram consideravelmente durante a pandemia. A média pré-pandemia era de 13%. Em 2020, o descarte de materiais recicláveis foi de 31,6% e, em 2021, de 34,9%. Em 2022, o descarte foi reduzido para 28,8%. A análise estratificada mostrou taxas de descarte mais altas após a suspensão das orientações domiciliares presenciais, sendo a contaminação (particularmente por cabelo e pele) a principal causa de descarte em 2021, e mamadeiras de maior volume descartadas com mais frequência em 2020.
Na primavera, o risco de descarte foi o mais alto (1,73 vezes) em comparação com as outras estações. No outono, as perdas foram menores (risco de 0,88). Em relação ao volume das garrafas, quanto maior era o volume, maiores eram as perdas.
Conclusão
O estudo concluiu que a ausência de orientação direta e esclarecimento de dúvidas com doadoras domiciliares e de monitoramento tem um impacto negativo na qualidade do LH doado, reduzindo o volume de leite disponível para receptoras hospitalizadas. Os pesquisadores observaram que também há interferência da capacidade volumétrica da mamadeira utilizada para armazenar o leite cru, isto é, quanto maior for a mamadeira, maior é a taxa de perda. Outro ponto demonstrado pelos pesquisadores é que o outono é a estação com o maior volume de leite por mamadeira e a menor taxa de perda, diferentemente da primavera, que apresentou o maior risco de descarte. Isso destaca a necessidade de monitoramento intensivo durante períodos de altas temperaturas e baixa umidade relativa.
Os resultados deste estudo contribuem para o desenvolvimento de estratégias voltadas à redução das perdas de LH doado, garantindo que o Banco de LH atinja seu objetivo de fornecer uma fonte de nutrientes e imunobiológicos em quantidade e qualidade adequadas para os RN internados na unidade neonatal.
Comentários
Esse estudo concluiu o quanto é importante o contato direto presencial entre as equipes de bancos de LH e doadoras. O descarte, principalmente por causas evitáveis, de fato ocorreu mais quando houve a suspensão desse contato. Portanto, o vínculo da doadora com a equipe técnica faz toda a diferença no processo de doação do LH.
O que mais me chama a atenção nesse estudo é que ele reforça o protagonismo brasileiro na área de bancos de LH. O país é reconhecido internacionalmente como referência em organização em rede, controle de qualidade e políticas públicas robustas para a promoção do aleitamento materno.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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