A transmissão da sífilis congênita (SC) pode ocorrer em qualquer fase da gestação, com um risco de até 85%, dependendo da duração da exposição fetal e do estágio clínico da doença materna. Em 2020, dados do Ministério da Saúde mostraram que a taxa de detecção de sífilis em gestantes foi de 21,6 por 1.000 nascidos vivos, enquanto a taxa de incidência de SC foi de 7,7 por 1.000 nascidos vivos.
A SC pode comprometer o desenvolvimento neurológico, cognitivo e comportamental da criança, podendo evoluir para neurossífilis em casos mais avançados. Portanto, é essencial o acompanhamento ambulatorial dos bebês expostos até pelo menos 2 anos de vida, estendendo-se até os 5 anos em casos diagnosticados após os 18 meses para monitorar possíveis manifestações tardias. Diante destes conceitos, um interessante estudo brasileiro foi realizado em uma maternidade de referência em Aracaju-SE no ano de 2022, sendo publicado recentemente no periódico Residência Pediátrica, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). O objetivo foi justamente avaliar o desempenho de bebês com sífilis congênita ao longo do acompanhamento.
Metodologia do estudo sobre sífilis congênita
O estudo utilizou o Denver II para avaliar o neurodesenvolvimento de crianças com sífilis congênita, abrangendo os domínios pessoal-social, adaptativo, linguagem e motor. O Denver II é um instrumento de triagem amplamente utilizado no Brasil e também internacionalmente para a triagem de atrasos no desenvolvimento infantil, avaliando comportamentos sociais, pessoais, linguagem e habilidades motoras.
Foram incluídas crianças com idades entre 0 e 6 anos, com diagnóstico de sífilis congênita, tratadas ao nascer que acompanham no ambulatório de sífilis congênita do Hospital e Maternidade Santa Isabel. De rotina, os recém-nascidos (RN) diagnosticados e tratados para SC no local do estudo são direcionados ao ambulatório correspondente. O diagnóstico de SC era feito segundo os critérios de 2019 do Ministério da Saúde. Durante o acompanhamento, a equipe aplicou um questionário e o teste de Denver para a avaliação do neurodesenvolvimento. Quando os pacientes demonstravam atraso no neurodesenvolvimento, eram encaminhados para avaliação de um neuropediatra e também era indicado um acompanhamento contínuo com a equipe de fisioterapia e de fonoaudiologia.
Resultados
A média de idade das mães era de 23,5 anos. A maioria (61,4%) relatou não ter provedor financeiro e 98,2% relataram alguma escolaridade (no entanto, somente 8,8% tinham completado o ensino superior). A análise estatística inferencial mostrou que as crianças apresentavam uma tendência a atraso nos marcos de desenvolvimento em famílias com maior número de filhos (p=0,04).
Com relação à amostra de crianças, 57 com SC foram encaminhadas para avaliação do neurodesenvolvimento, com predomínio do sexo masculino (31/57 = 54,4%). A mediana de idade gestacional foi de 39 semanas. O intervalo interquartil de peso foi de 2.695-3.460 gramas, comprimento 46-49,5 cm e perímetro cefálico foi de 32,8-35 cm. A reanimação neonatal foi efetuada em somente 6 (10,5%) dos pacientes. Trinta e nove (68,4%) eram provenientes de Aracaju.
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Foi observada uma alteração em quatro marcos na avaliação pessoal-social, três marcos no desenvolvimento motor fino adaptativo e um marco na linguagem, entre os itens avaliados pelo teste de Denver II. Não foram observadas quaisquer alterações significativas no motor grosseiro. A prevalência de indivíduos com um teste de risco no Denver II foi de 80,7%, sendo 54,5% do sexo masculino. Em relação ao fator nutricional, 29,8% das crianças seguem a dieta familiar.
Conclusão
Os pesquisadores mostraram, com esse estudo, a relevância da aplicação da escala de Denver II para a triagem diagnóstica de atraso motor/pessoal-social em crianças com SC.
Comentário
Pacientes pediátricos diagnosticados com SC apresentam um risco elevado de atrasos no neurodesenvolvimento, o que torna essencial a sua avaliação sistemática. O teste de Denver II, utilizado para avaliar o desenvolvimento pessoal-social, motor fino, adaptativo e de linguagem, mostrou que, de fato, essas crianças possuem atrasos em múltiplos marcos de desenvolvimento. Portanto, esse monitoramento é crucial para identificar precocemente deficiências e direcionar intervenções apropriadas, destacando a necessidade de acompanhamento contínuo por uma equipe interdisciplinar, incluindo neuropediatras, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e outros profissionais, como terapeutas ocupacionais, pedagogos e psicólogos.
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