Na última década, a ultrassonografia (USG) pulmonar tornou-se amplamente utilizada em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) como uma ferramenta rápida, não invasiva e livre de radiação, à beira-leito. Além disso, o exame tem demonstrado alta precisão diagnóstica para causas comuns de insuficiência respiratória neonatal. Por isso, a European Society of Pediatric and Neonatal Research (ESPNIC) tem recomendado em suas diretrizes para condições como síndrome do desconforto respiratório, taquipneia transitória do recém-nascido (RN), pneumotórax, derrame pleural e edema pulmonar. Destaca-se também seu uso para orientar terapias, incluindo diuréticos, colocação de dreno torácico e administração de surfactante por meio de escores quantitativos de aeração. No entanto, apesar de seu crescente papel clínico, o treinamento estruturado para intensivistas neonatais ainda é limitado, o que motivou a própria ESPNIC a desenvolver um consenso de especialistas para padronizar o treinamento e apoiar a educação e pesquisas futuras nessa área. Sendo assim, dez declarações de consenso foram publicadas, recentemente, no periódico Chest.

Metodologia
Para esse consenso, foram selecionados 15 neonatologistas especialistas em USG pulmonar, com base em critérios de experiência clínica e em pesquisa. Os coordenadores do estudo propuseram dez questões a esse painel, que avaliou sua prioridade por meio de uma escala Likert de 1 a 9. Foram identificados cinco subgrupos de dois a três especialistas para desenvolver as afirmações para cada questão clínica e cada especialista contribuiu com duas afirmações, apresentando sua fundamentação científica.
Como parte do processo Delphi modificado, todos os especialistas (incluindo os coordenadores) votaram em todas as afirmações com um máximo de duas rodadas de votação. Entretanto, o consenso sobre todas as afirmações já foi alcançado após a primeira rodada. As afirmações foram classificadas como discordância (variação de 1 a 3), incerteza (4 a 6) e concordância (7 a 9) quando tanto a pontuação mediana quanto 75% ou mais dos votos se enquadravam na faixa específica.
Veja também: SUS incorpora tecnologia para avaliar prematuridade pela pele do recém-nascido
Resultados
Com uma pontuação mediana de 9 para nove afirmações e de 8,5 para uma afirmação, todas as dez afirmações obtiveram concordância, sendo que o percentual de concordância variou entre 80% e 100%.
Declarações
Em um curso de USG neonatal:
- O conhecimento teórico pode ser transmitido presencialmente, online ou em formatos híbridos, mas os cursos presenciais e híbridos têm o benefício adicional do treinamento prático em tempo real, em comparação com os cursos exclusivamente online;
- Recomenda-se testar o conhecimento dos neonatologistas por meio de um teste de múltipla escolha antes e depois da participação.
Cursos práticos:
- Podem ser úteis para neonatologistas desenvolverem habilidades técnicas em USG pulmonar, aprimorando a precisão diagnóstica e a confiança por meio de treinamento prático e supervisionado.
Treinamento prático supervisionado:
- Pode estar associado à melhoria das habilidades técnicas, da precisão diagnóstica e da confiança na aquisição de imagens. A supervisão direta acelera o desenvolvimento de habilidades e aumenta a competência em comparação com o treinamento teórico ou a prática sem supervisão, conforme evidências da literatura. Portanto, um período estruturado de treinamento prático supervisionado pode ser útil para alcançar proficiência em USG pulmonar neonatal.
Número específico de exames necessários para adquirir proficiência em USG pulmonar no RN:
- Não existem dados disponíveis. No entanto, dados de terapia intensiva em adultos sugerem que 25 a 30 exames garantiriam mais de 80% de proficiência, e não há motivos para acreditar que isso seria muito diferente no RN.
Avaliação da competência diagnóstica:
- A avaliação da capacidade dos neonatologistas em interpretar e integrar os achados da USG pulmonar com o histórico médico, a avaliação clínica e os dados biológicos pode ser incorporada aos programas de treinamento. Dessa forma, métodos objetivos, como provas escritas e revisão de imagens com concordância de especialistas no diagnóstico e nas avaliações de casos clínicos, podem ser utilizados.
Frequência dos exames:
- Neonatologistas que realizam USG pulmonar com menos frequência do que mensalmente podem precisar demonstrar competência contínua por meio de revisão periódica das imagens por especialistas qualificados ou colegas.
Currículo de ensino:
- Pode seguir uma estrutura em níveis, com achados complexos ou com nuances exigindo treinamento mais extenso.
Tipos de sondas (probes):
- No RN, as sondas lineares são adequadas para visualizar a linha pleural e artefatos pulmonares (e, particularmente, as sondas microlineares de alta frequência para prematuros). Elas também devem ser preferidas em relação às não lineares para fins didáticos, especialmente para iniciantes, quando disponíveis. No entanto, atualmente há poucas evidências que favoreçam um tipo de sonda em detrimento de outro para fins de ensino e, caso as sondas lineares não estejam disponíveis, outras podem ser utilizadas para ensinar USG pulmonar.
Cursos de ensino de línguas estrangeiras:
- Quando especificamente dedicados e adaptados a países de baixa e média renda (LMIC), são eficazes para alcançar proficiência suficiente e relevante ao contexto. Evidências comprovam que modelos educacionais localizados ou híbridos, mesmo com recursos limitados, podem levar à aquisição satisfatória de habilidades adaptadas ao contexto, comparáveis ao treinamento padrão oferecido em países de alta renda.
Conclusão
O consenso de especialistas da ESPNIC fornece uma estrutura para padronizar o ensino da USG pulmonar no RN, orientando o desenvolvimento educacional futuro de neonatologistas.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.