A gastroenterite aguda continua sendo uma das condições mais frequentes no atendimento pediátrico, responsável por grande volume de consultas em pronto atendimento. Apesar de, na maioria dos casos, ser autolimitada, a variabilidade na abordagem clínica ainda é significativa, especialmente no uso de medicações e na avaliação de gravidade.
Durante o encontro anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), as diretrizes conjuntas ESPGHAN/ESPID foram discutidas como uma atualização importante, com foco na padronização da avaliação clínica e no uso mais racional das terapias farmacológicas.

Avaliação clínica segue como eixo do manejo
O manejo da gastroenterite aguda segue sendo essencialmente clínico. A avaliação do estado de hidratação continua sendo o principal determinante de conduta, guiando decisões sobre reidratação oral, necessidade de via intravenosa e eventual internação.
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Medicações devem ter indicação mais precisa
Apesar da grande quantidade de terapias disponíveis, a principal mensagem das diretrizes não é ampliar o uso de medicamentos, mas definir melhor suas indicações. A abordagem se torna mais precisa, diferenciando intervenções úteis em cenários específicos daquelas que não agregam benefício clínico.
Ondansetrona em dose única ganha destaque
A ondansetrona é uma das medicações com indicação mais bem estabelecida na atualização.
A recomendação atual sugere dose única em crianças a partir de seis meses com vômitos e risco de falha da reidratação oral, especialmente em ambientes de pronto atendimento.
Os benefícios são consistentes, incluindo redução de falha terapêutica, necessidade de hidratação intravenosa e hospitalização.
Por outro lado, o uso rotineiro em crianças sem risco de desidratação não é recomendado.
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Doses repetidas não mostraram benefício adicional
Um dos pontos novos foi a análise do uso de ondansetrona em doses repetidas após a alta do pronto atendimento.
Apesar do racional clínico, os dados mais recentes não demonstraram benefício relevante em desfechos clínicos importantes, como redução da gravidade da doença ao longo do tempo.
Assim, o uso deve permanecer restrito à dose única em contexto agudo, não sendo recomendada a prescrição de múltiplas doses.
Racecadotrila e diosmectita permanecem como adjuvantes
Racecadotrila e diosmectita permanecem como opções adjuvantes. A racecadotrila pode reduzir o volume fecal e, possivelmente, a duração da diarreia, enquanto a diosmectita apresenta efeito modesto na redução da duração dos sintomas.
No entanto, a evidência é limitada e o impacto clínico é pequeno, sem influência relevante em desfechos mais importantes. Seu uso deve ser individualizado.
Intervenções sem benefício devem ser evitadas
Um dos pontos mais relevantes da atualização é reforçar o que não deve ser utilizado.
A combinação de diosmectita com probióticos não traz benefício adicional. Medicações como loperamida continuam contraindicadas em crianças, assim como o uso de compostos com bismuto.
Outros adsorventes, como caolin-pectina e carvão ativado, também não têm recomendação para uso rotineiro.
Esses achados são particularmente importantes porque essas intervenções ainda são amplamente utilizadas na prática. A gelatin tannate foi novamente avaliada e permanece sem indicação para uso rotineiro.
Gengibre ainda tem evidência insuficiente para uso rotineiro
Entre as intervenções mais novas avaliadas está o uso de gengibre como antiemético.
Um ensaio clínico randomizado sugere redução na frequência e duração dos episódios de vômito em crianças com gastroenterite. No entanto, os dados se baseiam em um único estudo, com ausência de evidência consistente para desfechos mais relevantes, como falha terapêutica ou necessidade de internação.
Dessa forma, não há evidência suficiente para recomendar seu uso rotineiro.
Medicina complementar permanece sem recomendação
Outras intervenções de medicina complementar e alternativa também foram avaliadas, incluindo diferentes preparações à base de ervas e homeopatia.
De forma consistente, os dados disponíveis são limitados, baseados em estudos isolados, frequentemente com baixo poder estatístico e dificuldades de reprodutibilidade.
Reidratação oral continua sendo a base do tratamento
Apesar das discussões sobre múltiplas intervenções, o núcleo do manejo permanece inalterado.
A reidratação oral continua sendo a medida mais eficaz e com maior impacto nos desfechos clínicos. A alimentação precoce também deve ser mantida. As medicações devem ser encaradas como suporte, e não como tratamento principal.
Saiba mais: Como é o manejo da gastroenterite aguda em crianças?
Aplicabilidade no cenário brasileiro
No cenário brasileiro, essas recomendações são extremamente relevantes.
A gastroenterite aguda ainda é frequentemente tratada com múltiplos medicamentos, muitas vezes sem indicação clara. A atualização reforça a necessidade de simplificação e racionalização.
A ondansetrona pode ter papel importante em serviços de urgência, enquanto o uso de antidiarreicos, adsorventes e terapias alternativas deve ser desencorajado.
Mensagem prática
As diretrizes ESPGHAN/ESPID 2026 consolidam uma mudança importante no manejo da gastroenterite aguda pediátrica.
O foco deixa de ser a multiplicidade de intervenções e passa a ser a precisão.
Na prática, isso significa reconhecer que o tratamento eficaz continua sendo simples: avaliação clínica adequada, reidratação e uso criterioso e limitado de medicações.
Mais do que tratar mais, o desafio passa a ser tratar melhor, com menos intervenções e mais evidência.
Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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