Durante o segundo dia do Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado em São Paulo/SP, entre os dias 25 a 28 de março, o Dr. David Schnadower conduziu uma conferência internacional sobre as atualizações no manejo da diarreia aguda na infância.
Inicialmente, ao abordar a investigação etiológica, destacou métodos como o multiplex PCR e a cultura de fezes, ressaltando que não devem ser solicitados rotineiramente devido ao alto custo e à possibilidade de resultados positivos sem correlação clínica. A investigação laboratorial deve ser reservada para situações específicas, como diarreia com sangue, quadros graves ou persistentes, pacientes imunocomprometidos, lactentes menores de três meses, suspeita de sepse ou em contextos de surtos.
Estratificação da gravidade e abordagem clínica
Em relação à abordagem clínica, enfatizou a importância da estratificação da gravidade, destacando a avaliação da perda ponderal como ferramenta útil para classificar os quadros em leve, moderado e grave, correspondendo a perdas de peso de 3% a 5%, 6% a 9% e maior ou igual a 10%, respectivamente. Reforçou a hidratação oral como pilar do tratamento e destacou o papel da ondansetrona como antiemético eficaz, contribuindo para o controle dos vômitos e facilitando a reidratação oral.
Terapias farmacológicas e uso de antibióticos
Na sequência, ao discutir terapias farmacológicas, ressaltou que o uso de antibióticos deve ser criterioso e restrito a indicações específicas, sendo contraindicado em casos suspeitos de infecção por E. coli produtora de toxina Shiga, devido ao risco de desencadear ou agravar a síndrome hemolítico-urêmica.
Suplementação de zinco e evidências recentes
Em relação à suplementação de zinco, pontuou que não deve ser utilizada de forma universal, apresentando maior benefício em crianças com desnutrição. Ademais, citou o estudo “Lower-Dose Zinc for Childhood Diarrhea – A Randomized, Multicenter Trial” (Dhingra et al., 2020), que avaliou a eficácia e segurança de doses mais baixas de zinco no tratamento da diarreia aguda em crianças entre 6 e 59 meses, comparando-as ao esquema padrão recomendado.
Os autores demonstraram que doses reduzidas (5 mg ou 10 mg/dia) foram não inferiores à dose padrão (20 mg/dia) na duração da diarreia e na prevenção de desfechos adversos, além de apresentarem menor incidência de vômitos. Os resultados sugerem que esquemas com menor dose de zinco podem ser igualmente eficazes e melhor tolerados, o que tem implicações relevantes para adesão ao tratamento e revisão de recomendações terapêuticas em contextos pediátricos. Cabe ressaltar que o zinco por via oral pode induzir vômitos, efeito atribuído ao seu sabor metálico e à irritação gástrica, fenômenos que tendem a ser dependentes da dose administrada.
Medidas preventivas
Além das estratégias terapêuticas, foram reforçadas medidas preventivas fundamentais, como vacinação, saneamento básico e condições adequadas de higiene, essenciais para reduzir a incidência e a mortalidade associadas às doenças diarreicas.
Probióticos: evidências e controvérsias
Por fim, o palestrante dedicou atenção especial ao uso de probióticos, tema frequentemente controverso na prática clínica. Nesse cenário, apresentou o seu estudo intitulado “Association Between Diarrhea Duration and Severity and Probiotic Efficacy in Children With Acute Gastroenteritis”, publicado em 2021.
Para explorar a possível influência da duração e da gravidade dos sintomas na eficácia dos probióticos, foi realizada uma análise secundária de dois ensaios clínicos randomizados, envolvendo crianças de 3 a 48 meses atendidas em serviços de emergência na América do Norte. Foram avaliados esquemas com Lactobacillus rhamnosus GG, isolado ou combinado com L. helveticus, com estratificação dos pacientes conforme duração e frequência da diarreia antes do tratamento.
Os resultados, que incluíram 1.770 crianças, não demonstraram diferença entre probiótico e placebo quanto à ocorrência de gastroenterite moderada a grave, nem impacto nos desfechos secundários, como duração e frequência da diarreia ou hospitalização. Concluiu-se que a ausência de benefício dos probióticos não está relacionada à gravidade ou à duração dos sintomas antes do início do tratamento. Além disso, o palestrante destacou limitações metodológicas em estudos prévios que sugerem benefícios, reforçando a necessidade de interpretação crítica da literatura disponível.
Mensagem prática para a emergência pediátrica
Dessa forma, a mensagem prática central é que o manejo da diarreia aguda na pediatria deve priorizar intervenções comprovadamente eficazes, como a reidratação oral e a abordagem conforme a estratificação da gravidade. O uso de exames complementares, antibióticos, zinco e probióticos deve ser individualizado, evitando intervenções desnecessárias, especialmente o uso rotineiro de probióticos, que não apresenta benefício consistente.
Live Afya
Acompanhe no dia 30/03, às 19h, a live com os destaques do 1º Congresso Mundial, em conjunto com o 5º Congresso Brasileiro e o 5º Congresso Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado entre 25 e 28 de março em São Paulo/SP.
Link para se inscrever na live: https://io.pedpapers.com.br/blog-cong-mundial-ped-2026
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Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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