Durante a reunião anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition, realizada em junho de 2026 em Lille, França, foi reforçada uma evolução importante no entendimento das doenças gastrointestinais eosinofílicas.
O espectro dessas doenças vai além da esofagite eosinofílica e passa a incluir acometimentos específicos de diferentes segmentos do trato gastrointestinal, como gastrite, duodenite, enterite e colite eosinofílica. Essa padronização melhora a correlação entre fisiopatologia, diagnóstico e tratamento, substituindo termos mais amplos e menos precisos.
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Doenças raras, mas possivelmente subdiagnosticadas
As formas não esofágicas ainda apresentam baixa prevalência estimada, entre 1 e 30 casos por 100 mil habitantes, mas há forte evidência de subdiagnóstico.
A sobreposição com doenças atópicas, presente em aproximadamente 30% a 80% dos casos, e a apresentação clínica inespecífica contribuem para atraso diagnóstico. Além disso, há tendência de aumento na incidência, acompanhando outras doenças imunomediadas.
Atraso diagnóstico ainda é comum
Dados apresentados mostram que o tempo até o diagnóstico permanece elevado. Em coortes com mais de 4.000 pacientes com gastrite ou duodenite eosinofílica, o tempo médio até a confirmação diagnóstica é de aproximadamente 3 a 4 anos, inclusive em crianças.
Na prática, isso indica que muitos pacientes permanecem longos períodos com sintomas recorrentes sem etiologia definida, reforçando a necessidade de maior suspeição clínica.
Como os sintomas variam conforme a camada acometida?
Um dos conceitos mais úteis para o dia a dia é que a apresentação clínica depende da profundidade do acometimento na parede gastrointestinal.
Na forma mucosa, mais comum, predominam dor abdominal, náuseas, vômitos, distensão, saciedade precoce e perda de peso, podendo haver diarreia.
Quando há acometimento da camada muscular, os sintomas passam a ter padrão mais obstrutivo, com dor mais intensa e distensão progressiva.
Nas formas serosas, mais raras, o quadro pode incluir ascite eosinofílica e distensão abdominal importante.
Esse entendimento ajuda a organizar o raciocínio clínico frente a apresentações heterogêneas.
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Diagnóstico exige correlação clínica, endoscópica e histológica
O diagnóstico das formas não esofágicas permanece desafiador e requer integração de múltiplos elementos.
A endoscopia com biópsias é frequentemente o ponto de partida, mas exames normais não excluem a doença. Em casos selecionados, pode ser necessária avaliação por imagem ou investigação de camadas mais profundas. Em apresentações com ascite, a análise do líquido pode contribuir para o diagnóstico.
A principal mensagem é que não existe um único exame definidor, sendo necessário correlacionar clínica, endoscopia e histologia.
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Histologia mais estruturada pode apoiar a avaliação de gravidade
A avaliação histológica vem se tornando mais padronizada, incluindo não apenas a contagem de eosinófilos, mas também alterações estruturais como fibrose, hiperplasia muscular e lesões epiteliais.
Esse detalhamento amplia a capacidade de avaliar gravidade e entender a evolução da doença, embora ainda não esteja universalmente incorporado na prática.
Evolução clínica pode ser persistente ou recorrente
Dados de seguimento mostram que cerca de 25% dos pacientes evoluem com doença persistente ou recorrente, e aproximadamente 18% desenvolvem complicações.
A maior gravidade inicial parece associar-se a pior evolução, reforçando o valor do diagnóstico e do acompanhamento precoces.
Novas ferramentas podem ampliar o diagnóstico integrado
Novas ferramentas diagnósticas começam a emergir. Perfis transcriptômicos, biomarcadores sanguíneos e análise de fluido gástrico mostram potencial para complementar a histologia e reduzir a necessidade de procedimentos invasivos.
A tendência é caminhar para um modelo de diagnóstico mais integrado e mais preciso.
O que muda na prática clínica?
A principal mudança é ampliar a suspeição clínica.
Em pacientes com sintomas gastrointestinais persistentes, especialmente associados à atopia e sem diagnóstico claro, as doenças eosinofílicas além do esôfago devem ser consideradas.
Reconhecer padrões clínicos e entender a variabilidade de apresentação pode reduzir o atraso diagnóstico.
Aplicabilidade no Brasil
No Brasil, essas doenças ainda são pouco reconhecidas na prática clínica. O maior desafio continua sendo a padronização diagnóstica e o acesso à avaliação histológica adequada.
Ainda assim, aumentar a suspeição clínica já representa um passo importante para melhorar o diagnóstico.
Mensagem final
As doenças eosinofílicas gastrointestinais não se limitam ao esôfago e provavelmente estão subdiagnosticadas. Incorporar esse conceito na prática clínica é fundamental para reduzir o atraso diagnóstico e melhorar o cuidado desses pacientes.
Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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