Logotipo Afya
Anúncio
Pediatria26 junho 2026

ESPGHAN 2026: doenças eosinofílicas além do esôfago

Discussão abordou doenças eosinofílicas gastrointestinais, suspeição clínica e desafios diagnósticos além da esofagite eosinofílica.

Durante a reunião anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), realizada em junho de 2026 em Lille, França, foi reforçada uma evolução importante no entendimento das doenças gastrointestinais eosinofílicas.

O espectro dessas doenças vai além da esofagite eosinofílica e passa a incluir acometimentos específicos de diferentes segmentos do trato gastrointestinal, como gastrite, duodenite, enterite e colite eosinofílica. Essa padronização melhora a correlação entre fisiopatologia, diagnóstico e tratamento, substituindo termos mais amplos e menos precisos.

Saiba mais: ESPGHAN 2024: Eosinofilia assintomática do trato gastrointestinal

ESPGHAN 2026

Doenças raras, mas possivelmente subdiagnosticadas

As formas não esofágicas ainda apresentam baixa prevalência estimada, entre 1 e 30 casos por 100 mil habitantes, mas há forte evidência de subdiagnóstico.

A sobreposição com doenças atópicas, presente em aproximadamente 30% a 80% dos casos, e a apresentação clínica inespecífica contribuem para atraso diagnóstico. Além disso, há tendência de aumento na incidência, acompanhando outras doenças imunomediadas.

Atraso diagnóstico ainda é comum

Dados apresentados mostram que o tempo até o diagnóstico permanece elevado. Em coortes com mais de 4.000 pacientes com gastrite ou duodenite eosinofílica, o tempo médio até a confirmação diagnóstica é de aproximadamente 3 a 4 anos, inclusive em crianças.

Na prática, isso indica que muitos pacientes permanecem longos períodos com sintomas recorrentes sem etiologia definida, reforçando a necessidade de maior suspeição clínica.

Como os sintomas variam conforme a camada acometida?

Um dos conceitos mais úteis para o dia a dia é que a apresentação clínica depende da profundidade do acometimento na parede gastrointestinal.

Na forma mucosa, mais comum, predominam dor abdominal, náuseas, vômitos, distensão, saciedade precoce e perda de peso, podendo haver diarreia.

Quando há acometimento da camada muscular, os sintomas passam a ter padrão mais obstrutivo, com dor mais intensa e distensão progressiva.

Nas formas serosas, mais raras, o quadro pode incluir ascite eosinofílica e distensão abdominal importante.

Esse entendimento ajuda a organizar o raciocínio clínico frente a apresentações heterogêneas.

Saiba mais: Caso clínico: gastrenterite eosinofílica com ascite em um menino de 15 anos

Diagnóstico exige correlação clínica, endoscópica e histológica

O diagnóstico das formas não esofágicas permanece desafiador e requer integração de múltiplos elementos.

A endoscopia com biópsias é frequentemente o ponto de partida, mas exames normais não excluem a doença. Em casos selecionados, pode ser necessária avaliação por imagem ou investigação de camadas mais profundas. Em apresentações com ascite, a análise do líquido pode contribuir para o diagnóstico.

A principal mensagem é que não existe um único exame definidor, sendo necessário correlacionar clínica, endoscopia e histologia.

Saiba mais: ESPGHAN 2026: EoE pediátrica: quando indicar endoscopia no seguimento?

Histologia mais estruturada pode apoiar a avaliação de gravidade

A avaliação histológica vem se tornando mais padronizada, incluindo não apenas a contagem de eosinófilos, mas também alterações estruturais como fibrose, hiperplasia muscular e lesões epiteliais.

Esse detalhamento amplia a capacidade de avaliar gravidade e entender a evolução da doença, embora ainda não esteja universalmente incorporado na prática.

Evolução clínica pode ser persistente ou recorrente

Dados de seguimento mostram que cerca de 25% dos pacientes evoluem com doença persistente ou recorrente, e aproximadamente 18% desenvolvem complicações.

A maior gravidade inicial parece associar-se a pior evolução, reforçando o valor do diagnóstico e do acompanhamento precoces.

Novas ferramentas podem ampliar o diagnóstico integrado

Novas ferramentas diagnósticas começam a emergir. Perfis transcriptômicos, biomarcadores sanguíneos e análise de fluido gástrico mostram potencial para complementar a histologia e reduzir a necessidade de procedimentos invasivos.

A tendência é caminhar para um modelo de diagnóstico mais integrado e mais preciso.

O que muda na prática clínica?

A principal mudança é ampliar a suspeição clínica.

Em pacientes com sintomas gastrointestinais persistentes, especialmente associados à atopia e sem diagnóstico claro, as doenças eosinofílicas além do esôfago devem ser consideradas.

Reconhecer padrões clínicos e entender a variabilidade de apresentação pode reduzir o atraso diagnóstico.

Aplicabilidade no Brasil

No Brasil, essas doenças ainda são pouco reconhecidas na prática clínica. O maior desafio continua sendo a padronização diagnóstica e o acesso à avaliação histológica adequada.

Ainda assim, aumentar a suspeição clínica já representa um passo importante para melhorar o diagnóstico.

Mensagem final

As doenças eosinofílicas gastrointestinais não se limitam ao esôfago e provavelmente estão subdiagnosticadas. Incorporar esse conceito na prática clínica é fundamental para reduzir o atraso diagnóstico e melhorar o cuidado desses pacientes.

Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Pediatria