A insuficiência pancreática exócrina (IPE) em crianças é uma condição frequentemente subdiagnosticada, apesar do impacto direto na digestão de nutrientes, no crescimento e na qualidade de vida. Na prática, o maior desafio não é apenas reconhecer a doença, mas saber quando investigar, como interpretar exames limitados e como tratar de forma adequada ao longo do tempo.
Durante o ESPGHAN 2026, ficou claro que o principal erro não é a falta de exames avançados, mas a ausência de uma abordagem estruturada e integrada.
Quando investigar insuficiência pancreática exócrina em crianças
A investigação deve ser guiada pelo risco clínico. Crianças com fibrose cística, pancreatite crônica, pancreatite necrosante, cirurgia pancreática ou doenças pancreáticas congênitas devem ser avaliadas de forma proativa.
Por outro lado, a IPE também pode se manifestar de forma mais inespecífica, com diarreia crônica, esteatorreia, perda de peso ou sinais de má absorção. Nesses casos, manter baixo limiar de suspeita é fundamental.
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Exames disponíveis e limites da investigação
O diagnóstico não depende de um único exame. Métodos de imagem não confirmam IPE, e testes diretos invasivos não são recomendados na prática pediátrica. A elastase fecal é o teste mais utilizado por ser acessível e não invasivo, mas apresenta limitações, incluindo baixa especificidade. O teste respiratório com 13C pode avaliar digestão de gordura e resposta terapêutica, embora tenha disponibilidade limitada.
Em casos duvidosos, a resposta à terapia enzimática pode ajudar a confirmar o diagnóstico.
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Avaliação nutricional como eixo do acompanhamento
A avaliação nutricional é parte central do diagnóstico e do seguimento. Deve incluir crescimento, IMC, massa muscular e investigação de deficiências de vitaminas lipossolúveis e micronutrientes.
Métodos como recordatório alimentar, frequência alimentar e diário alimentar são úteis, embora imperfeitos. Novas ferramentas digitais e baseadas em inteligência artificial podem melhorar essa avaliação.
As complicações incluem anemia, osteopenia, sarcopenia e alterações neurológicas em casos mais avançados.
PERT pediátrica: como iniciar e ajustar
Uma das mensagens mais diretas da aula foi que toda IPE deve ser tratada. A reposição de enzimas pancreáticas (PERT) é indicada em todos os pacientes diagnosticados, independentemente da causa.
O tratamento melhora a absorção de nutrientes, restaura o estado nutricional e reduz sintomas como esteatorreia e distensão abdominal, com impacto direto na qualidade de vida.
A reposição deve ser realizada junto às refeições e lanches, sincronizada com a ingestão alimentar.
As doses iniciais em crianças geralmente variam entre 500 e 2500 unidades de lipase/kg por refeição, podendo também ser calculadas com base na ingestão de gordura (500–4000 unidades por grama de gordura). Em lactentes, valores em torno de 5000 unidades por mamada ou por 120 mL de fórmula podem ser utilizados, embora com evidência mais limitada.
Como os pacientes estão em crescimento, ajustes frequentes são necessários. A persistência de sintomas ou baixo ganho ponderal deve levar à revisão da dose, da adesão e da alimentação.
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Falta de resposta: como reorganizar a abordagem
A falta de resposta exige abordagem estruturada. Primeiro, deve-se confirmar a adesão correta e o uso adequado durante as refeições. Em seguida, a dose pode ser aumentada progressivamente.
Em alguns casos, a adição de inibidor de bomba de prótons pode melhorar a eficácia. O uso de inibidores de bomba de prótons pode melhorar a eficácia da reposição enzimática porque, na insuficiência pancreática exócrina, há também redução da secreção de bicarbonato, levando a um ambiente duodenal mais ácido. Esse pH mais baixo pode inativar parcialmente a lipase, principal enzima para digestão de gorduras. Ao reduzir a acidez gástrica, o IBP aumenta o pH no intestino, preservando a atividade das enzimas administradas e, consequentemente, melhorando a digestão e a resposta clínica.
Se o quadro persistir, é essencial investigar diagnósticos associados, como doença celíaca, SIBO, intolerância à lactose ou outras causas de má absorção.
O que muda na prática após a discussão no ESPGHAN 2026
A principal mudança trazida pelo ESPGHAN 2026 é a consolidação de uma abordagem integrada. O diagnóstico deixa de ser baseado em um exame isolado e passa a depender da combinação entre sintomas, função pancreática e estado nutricional. O manejo se torna dinâmico, baseado na resposta do paciente, com ajustes contínuos ao longo do tempo.
Confira a cobertura completa do ESPGHAN 2026!
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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