A rinossinusite é uma das condições inflamatórias mais comuns na prática clínica, tanto em crianças quanto em adultos. Embora o tratamento tradicional inclua lavagens nasais, corticosteroides tópicos, antibióticos em situações específicas e cirurgia nos casos refratários, muitos pacientes continuam apresentando sintomas persistentes ou recorrentes. Nesse contexto, cresce o interesse sobre fatores modificáveis, incluindo a alimentação.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 avaliou a associação entre dieta, padrões alimentares e desfechos relacionados à rinossinusite, reunindo as evidências disponíveis em crianças e adultos.
Os autores realizaram uma revisão sistemática de acordo com as recomendações PRISMA, incluindo estudos observacionais e intervencionais que avaliaram exposições dietéticas ou modificações alimentares em pacientes com rinossinusite. Foram identificados 10 estudos elegíveis, com populações pediátricas e adultas, avaliando desde dieta mediterrânea até consumo de ultraprocessados e bebidas açucaradas.
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Padrões anti-inflamatórios concentram os achados mais consistentes
O achado mais consistente foi a associação entre padrões alimentares anti-inflamatórios e melhores desfechos sinonasais.
Em crianças com episódios inflamatórios recorrentes, a adesão a uma dieta mediterrânea tradicional durante um ano reduziu significativamente o número de episódios, com mais da metade dos participantes permanecendo sem recorrência ao final do seguimento.
Outro estudo pediátrico mostrou que a redução do consumo de bebidas açucaradas por apenas duas semanas melhorou os escores de infecção sinusal e reduziu as concentrações séricas de TNF-α, sugerindo um possível mecanismo anti-inflamatório.
O que os estudos mostram em adultos com rinossinusite crônica?
Nos estudos envolvendo rinossinusite crônica, diferentes estratégias nutricionais demonstraram benefícios clínicos.
Dietas de exclusão orientadas por potencial sensibilidade alimentar melhoraram sintomas e achados endoscópicos em pacientes com rinossinusite crônica refratária.
Além disso, uma dieta com baixo teor de ácido araquidônico, presente em proteínas de origem animal, como carnes vermelhas, baixa carga de salicilatos e maior teor de fibras esteve associada à melhora significativa dos escores SNOT-22, dos sintomas globais e dos achados endoscópicos em pacientes com pólipos nasais.
Embora esses estudos sejam pequenos e metodologicamente limitados, os resultados apontam para um possível papel da dieta como terapia adjuvante.
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Quais padrões alimentares foram associados a maior risco?
A revisão também identificou diversos padrões alimentares associados a maior prevalência ou pior evolução da doença.
Entre eles, destacam-se:
- maior consumo de gorduras;
- maior ingestão calórica total;
- dietas com maior potencial inflamatório (Dietary Inflammatory Index elevado);
- refeições frequentes fora de casa;
- elevado consumo de alimentos ultraprocessados.
Em uma grande análise populacional, indivíduos no quartil mais alto de consumo de ultraprocessados apresentaram maior risco de sinusite quando comparados aos de menor consumo.
O que foi observado na população pediátrica?
Os dados pediátricos foram particularmente interessantes.
Baixa ingestão de frutas foi associada a maior prevalência de rinossinusite, enquanto o consumo frequente de salgadinhos industrializados também se mostrou um fator de risco independente. O consumo de bebidas açucaradas foi mais frequente entre crianças com rinossinusite, embora a associação tenha perdido força após ajustes estatísticos.
Esses achados reforçam a importância dos hábitos alimentares globais e não apenas de nutrientes isolados.
O fenótipo da rinossinusite pode influenciar a resposta à dieta?
Um aspecto interessante da revisão foi a possibilidade de respostas diferentes conforme o fenótipo da doença.
Pacientes com rinossinusite crônica com pólipos nasais apresentaram maior frequência de sensibilidade alimentar relacionada a salicilatos, além de maior relato de exacerbação dos sintomas após a ingestão de determinados alimentos, especialmente de vinho. Embora esses achados ainda sejam exploratórios, eles sugerem um possível papel futuro de estratégias mais individualizadas de intervenção nutricional.
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Como interpretar a evidência disponível?
É importante destacar que a maior parte da evidência disponível é observacional e, portanto, incapaz de estabelecer causalidade.
Pacientes com doença mais grave podem ter hábitos alimentares diferentes em consequência da própria doença, e fatores como nível socioeconômico, atividade física e comportamentos de saúde podem atuar como confundidores. Os próprios autores classificam a evidência atual como geradora de hipóteses, e não definitiva.
Ainda assim, a consistência dos resultados em diferentes populações e contextos sugere que a alimentação pode representar um componente relevante na fisiopatologia da rinossinusite.
Qual é a mensagem prática sobre alimentação e rinossinusite?
Embora não existam evidências suficientes para recomendar uma dieta específica como tratamento padrão da rinossinusite, os dados atuais apoiam a orientação de hábitos alimentares globalmente saudáveis, especialmente em pacientes com doença crônica ou recorrente.
Na prática, incentivar maior consumo de frutas, vegetais e alimentos minimamente processados, ao mesmo tempo em que se reduz a ingestão de bebidas açucaradas, alimentos ultraprocessados e padrões alimentares pró-inflamatórios, parece ser uma recomendação biologicamente plausível e potencialmente benéfica.
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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