A lesão renal aguda (LRA) é uma condição clínica marcada pela rápida redução da função renal, com consequente comprometimento da taxa de filtração glomerular, acúmulo de escórias nitrogenadas e alterações no equilíbrio hidroeletrolítico e ácido – básico.
A diarreia é uma das suas etiologias e responde como uma das principais causas de morte e hospitalização em crianças, especialmente em menores de dois anos. Ademais, na vigência de síndrome hemolítica urêmica associada à diarreia (D+SHU), a diálise muitas vezes é necessária.
Em ambientes de recursos limitados, a detecção e o tratamento da LRA são frequentemente precários, implicando aumento da morbimortalidade na fase aguda além de sequelas nefrológicas a longo prazo como o risco aumentado de doença renal crônica.

Desenho de Estudo
Nesse contexto, foi conduzida uma revisão sistemática da literatura, publicada pela BMJ Paediatrics Open em 2026, com o objetivo de analisar as evidências globais sobre a lesão renal aguda associada à diarreia em crianças e comparar os dados entre países com diferentes níveis de renda.
Para isso, foram incluídos estudos originais em inglês, publicados a partir de 2000, envolvendo crianças menores de 18 anos, distribuídas em três grupos: hospitalizadas por diarreia que desenvolveram LRA (Diarreia/LRA); internadas por LRA possivelmente atribuível à diarreia (LRA/Diarreia); e pacientes com síndrome hemolítica urêmica associada à diarreia (D+SHU). Foram coletados dados sobre incidência de LRA, mortalidade, necessidade de diálise e ocorrência de doença renal crônica.
Em função da heterogeneidade entre os estudos e à ausência de critérios padronizados de LRA na maioria deles, a análise foi realizada por meio de síntese narrativa e descritiva.
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Resultados e Discussão
Esta revisão sistemática incluiu 92 estudos, predominantemente centrados em D+SHU (76%), seguidos por LRA/Diarreia (15%) e Diarreia/LRA (9%). A maioria dos estudos foi retrospectiva, realizada em países de alta renda (54%), com menor representação de países de renda média alta (20%) e baixa/média-baixa renda (26%). Estudos sobre D+SHU concentraram-se principalmente em países de maior renda, enquanto LRA não associada à síndrome hemolítica urêmica foi mais frequente em contextos de menor renda. Apenas 42% dos estudos apresentaram qualidade alta ou média, e 84% não aplicaram critérios padronizados para LRA, como KDIGO, AKIN ou RIFLE, impedindo meta-análises.
A incidência de LRA em crianças hospitalizadas com diarreia aumentou à medida que a renda do país diminuía, chegando a 43,2% em países de baixa/média-baixa renda, comparado a 10,1% em países de alta renda. Entre crianças com D+SHU , cerca de 60% necessitaram de diálise, predominantemente peritoneal. A mortalidade durante a fase aguda foi significativamente maior em países de baixa/média-baixa renda (28,5%) em comparação com países de alta renda (3,7%). No seguimento, 16–21% desenvolveram doença renal crônica, principalmente estágio 2, embora uma pequena proporção tenha evoluído para estágio 5 ou precisado de transplante renal. Fatores prognósticos adversos incluíram desidratação, oligúria, níveis elevados de creatinina e ureia, hiponatremia e leucocitose.
Os dados indicam que crianças em países de menor renda enfrentam maior risco de LRA e desfechos piores, o que pode estar atrelado a dificuldades no acesso à assistência de saúde qualificada. Apesar de intervenções preventivas conhecidas para diarreia, como vacinas, suplementação de vitamina A, amamentação, reidratação oral e zinco, sua cobertura ainda é baixa, perpetuando morbidade e mortalidade.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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