Durante a miniconferência “Desnutrição infantil grave no Brasil: da atenção primária à hospitalar – o que ainda falta avançar?”, realizada em 5 de junho, no 20º Congresso Brasileiro de Gastroenterologia e Hepatologia Pediátrica, o 6º Congresso Brasileiro de Nutrologia Pediátrica e o 1º Congresso Brasileiro de Suporte Nutricional, a Dra. Silvana Gomes destacou que a desnutrição infantil continua sendo um importante problema de saúde pública no Brasil, embora seu perfil tenha se transformado nas últimas décadas.
Atualmente, o país enfrenta a chamada dupla carga da má nutrição, caracterizada pela coexistência de déficits nutricionais, insegurança alimentar e aumento do excesso de peso na infância. Segundo a especialista, a desnutrição permanece fortemente associada à pobreza, às desigualdades sociais e às condições de vulnerabilidade.
Desnutrição hospitalar pediátrica ainda pode ser subdiagnosticada
Outro ponto de destaque foi a desnutrição hospitalar pediátrica, frequentemente subdiagnosticada. Estima-se que entre 20% e 30% das crianças já sejam admitidas nos hospitais com algum grau de comprometimento nutricional, situação que pode se agravar durante a internação em decorrência de jejuns prolongados, aumento das demandas metabólicas, infecções e suporte nutricional inadequado.
As consequências incluem aumento de duas a três vezes no tempo de internação, maior risco de infecções, recuperação mais lenta e aumento da mortalidade, tornando a triagem nutricional precoce uma medida essencial nos serviços de saúde.
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Atenção primária pode favorecer o diagnóstico precoce
Segundo a palestrante, grande parte dos casos graves poderia ser evitada por meio de vigilância nutricional efetiva na atenção primária. O acompanhamento sistemático das curvas de crescimento, o uso adequado da Caderneta da Criança e das ferramentas do SISVAN permitem identificar precocemente sinais como perda de peso, desaceleração do crescimento, redução do apetite e infecções recorrentes.
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Diante disso, o diagnóstico exige anamnese detalhada, avaliação alimentar, exame físico e investigação das condições socioeconômicas.
Insegurança alimentar deve entrar na rotina assistencial
Nesse contexto, a triagem da insegurança alimentar deve fazer parte da rotina assistencial. Perguntas simples, como se os alimentos acabaram antes que a família tivesse recursos para adquirir mais ou se foi necessário restringir a alimentação por falta de dinheiro, ajudam a identificar famílias em situação de risco. Respostas afirmativas indicam necessidade de acompanhamento mais próximo e articulação com a rede de proteção social.
Antropometria permanece central na avaliação nutricional
Além disso, a antropometria permanece como uma das principais ferramentas para o diagnóstico precoce. O perímetro braquial, por exemplo, permite identificar rapidamente crianças em risco nutricional ou com desnutrição aguda grave. Valores acima de 12,5 cm são considerados adequados; entre 11,5 e 12,5 cm indicam risco nutricional ou desnutrição aguda moderada; e abaixo de 11,5 cm caracterizam desnutrição aguda grave, exigindo intervenção imediata.
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Mensagem prática
A Dra. Silvana Gomes reforçou que a desnutrição infantil continua sendo um desafio relevante para a saúde pública brasileira. Apesar das mudanças em seu perfil epidemiológico, a prevenção dos casos graves ainda depende da identificação precoce dos riscos nutricionais, da vigilância do crescimento e da atuação sobre os determinantes sociais da saúde.
Nesse cenário, a Atenção Primária à Saúde ocupa papel central na detecção precoce da desnutrição, na promoção da alimentação adequada e na prevenção das complicações associadas à doença. Mais do que tratar a desnutrição instalada, o desafio atual é interromper precocemente o ciclo que leva crianças vulneráveis da insegurança alimentar ao adoecimento e à hospitalização.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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