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Pediatria1 abril 2026

Congressos Pediátricos - Pneumonia na infância: desafios diagnósticos

Pneumonia pediátrica: desafios no diagnóstico, papel do ultrassom, testes moleculares e manejo de complicações na emergência.
Por Amanda Neves

Na mesa-redonda “Pneumonia na emergência pediátrica”, realizada no 1º Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas, em São Paulo, foram discutidos criticamente os desafios no diagnóstico e manejo da pneumonia na infância, com ênfase na integração entre clínica, métodos de imagem e avanços laboratoriais.

Radiografia vs. ultrassom pulmonar

Limitações da radiografia de tórax

A radiografia de tórax, tradicionalmente utilizada como padrão de referência, foi caracterizada como um método imperfeito. Apresenta:

  • Baixa sensibilidade
  • Concordância interobservador apenas moderada
  • Incapacidade de diferenciar etiologia viral de bacteriana

Dessa forma, não deve ser considerada um critério essencial isolado para o diagnóstico.

Ascensão do ultrassom pulmonar

Em contraste, o ultrassom pulmonar tem ganhado espaço como ferramenta de alta acurácia. No entanto, também possui limitações, como:

  • Risco de sobrediagnóstico
  • Variabilidade na definição dos achados

O Dr. Niccòlo Parri apresentou dados preliminares do estudo LUSCAP Trial, sugerindo que o uso da radiografia de tórax está associado a maior probabilidade de diagnóstico de pneumonia e, consequentemente, maior prescrição de antibióticos, quando comparado ao ultrassom pulmonar.

Interpretação dos achados ultrassonográficos

Achados com maior especificidade

  • Consolidações > 1 cm
  • Broncogramas aéreos dinâmicos
  • Derrame pleural

Achados menos específicos

  • Linhas B isoladas
  • Pequenas consolidações subpleurais

Diante disso, propõe-se uma mudança de paradigma: abandonar a visão binária do ultrassom (“tem ou não tem pneumonia”) e adotar uma abordagem integrada.

Integração com dados clínicos e laboratoriais

Nessa perspectiva, o ultrassom pulmonar deve ser utilizado para caracterizar padrões e auxiliar na tomada de decisão clínica, sempre em conjunto com:

  • Dados clínicos
  • Exames laboratoriais
  • Contexto epidemiológico

Avanços em biologia molecular

O Dr. Luiz Vicente destacou que os métodos de biologia molecular vêm revolucionando a investigação etiológica das infecções respiratórias.

Testes point-of-care

  • Realizados por swab de orofaringe
  • Identificam múltiplos patógenos
  • Resultados em cerca de 1 hora

Esses testes têm potencial para impactar:

  • Manejo clínico
  • Prognóstico
  • Controle de transmissão

No entanto, sua interpretação deve ser criteriosa e sempre contextualizada ao quadro clínico.

Cenário epidemiológico pós-COVID

Observou-se aumento da doença pneumocócica invasiva em crianças menores de 5 anos, especialmente relacionada aos sorotipos:

  • 3: maior associação com formas necrosantes
  • 19A: alta resistência à penicilina

Esse cenário reforça a importância do conhecimento epidemiológico local na escolha da antibioticoterapia.

Complicações da pneumonia

Principais complicações

  • Derrame parapneumônico
  • Pneumonia necrosante

O Dr. Joaquim Carlos destacou maior incidência em crianças pequenas e associação com períodos de maior circulação viral, como influenza.

Papel do ultrassom

O ultrassom de tórax tem papel relevante na:

  • Identificação de septações
  • Avaliação de complicações
  • Orientação de procedimentos

Manejo das complicações

Drenagem pleural

Indicada em casos de:

  • Derrames volumosos
  • Derrames loculados/septados
  • Empiema

Preferencialmente realizada com drenos de pequeno calibre guiados por imagem.

Terapia fibrinolítica vs. VATS

  • Fibrinólise intrapleural (alteplase): primeira linha, eficácia semelhante à VATS, com menor custo
  • VATS: indicada em falha da fibrinólise ou casos refratários

Prognóstico

De modo geral, o prognóstico das pneumonias complicadas é favorável em crianças previamente saudáveis:

  • Mortalidade: 0–5%
  • Recuperação completa na maioria dos casos
  • Normalização clínica e radiológica em até 6 meses

Maior risco está associado a:

  • Lactentes
  • Presença de comorbidades

Mensagem prática

O diagnóstico de pneumonia pediátrica não deve se basear em um único exame ou achado isolado.

O ultrassom pulmonar pode ser incorporado como ferramenta de apoio à decisão, desde que interpretado com base em padrões e no contexto clínico. A integração com testes moleculares rápidos e a atenção ao cenário epidemiológico atual são fundamentais para:

  • Orientar o tratamento
  • Evitar uso inadequado de antibióticos
  • Otimizar o cuidado ao paciente pediátrico

Acompanhe a cobertura do 1º Congresso Mundial, em conjunto com o 5º Congresso Brasileiro e o 5º Congresso Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas

Autoria

Foto de Amanda Neves

Amanda Neves

Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE

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