Na mesa-redonda “Pneumonia na emergência pediátrica”, realizada no 1º Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas, em São Paulo, foram discutidos criticamente os desafios no diagnóstico e manejo da pneumonia na infância, com ênfase na integração entre clínica, métodos de imagem e avanços laboratoriais.
Radiografia vs. ultrassom pulmonar
Limitações da radiografia de tórax
A radiografia de tórax, tradicionalmente utilizada como padrão de referência, foi caracterizada como um método imperfeito. Apresenta:
- Baixa sensibilidade
- Concordância interobservador apenas moderada
- Incapacidade de diferenciar etiologia viral de bacteriana
Dessa forma, não deve ser considerada um critério essencial isolado para o diagnóstico.
Ascensão do ultrassom pulmonar
Em contraste, o ultrassom pulmonar tem ganhado espaço como ferramenta de alta acurácia. No entanto, também possui limitações, como:
- Risco de sobrediagnóstico
- Variabilidade na definição dos achados
O Dr. Niccòlo Parri apresentou dados preliminares do estudo LUSCAP Trial, sugerindo que o uso da radiografia de tórax está associado a maior probabilidade de diagnóstico de pneumonia e, consequentemente, maior prescrição de antibióticos, quando comparado ao ultrassom pulmonar.
Interpretação dos achados ultrassonográficos
Achados com maior especificidade
- Consolidações > 1 cm
- Broncogramas aéreos dinâmicos
- Derrame pleural
Achados menos específicos
- Linhas B isoladas
- Pequenas consolidações subpleurais
Diante disso, propõe-se uma mudança de paradigma: abandonar a visão binária do ultrassom (“tem ou não tem pneumonia”) e adotar uma abordagem integrada.
Integração com dados clínicos e laboratoriais
Nessa perspectiva, o ultrassom pulmonar deve ser utilizado para caracterizar padrões e auxiliar na tomada de decisão clínica, sempre em conjunto com:
- Dados clínicos
- Exames laboratoriais
- Contexto epidemiológico
Avanços em biologia molecular
O Dr. Luiz Vicente destacou que os métodos de biologia molecular vêm revolucionando a investigação etiológica das infecções respiratórias.
Testes point-of-care
- Realizados por swab de orofaringe
- Identificam múltiplos patógenos
- Resultados em cerca de 1 hora
Esses testes têm potencial para impactar:
- Manejo clínico
- Prognóstico
- Controle de transmissão
No entanto, sua interpretação deve ser criteriosa e sempre contextualizada ao quadro clínico.
Cenário epidemiológico pós-COVID
Observou-se aumento da doença pneumocócica invasiva em crianças menores de 5 anos, especialmente relacionada aos sorotipos:
- 3: maior associação com formas necrosantes
- 19A: alta resistência à penicilina
Esse cenário reforça a importância do conhecimento epidemiológico local na escolha da antibioticoterapia.
Complicações da pneumonia
Principais complicações
- Derrame parapneumônico
- Pneumonia necrosante
O Dr. Joaquim Carlos destacou maior incidência em crianças pequenas e associação com períodos de maior circulação viral, como influenza.
Papel do ultrassom
O ultrassom de tórax tem papel relevante na:
- Identificação de septações
- Avaliação de complicações
- Orientação de procedimentos
Manejo das complicações
Drenagem pleural
Indicada em casos de:
- Derrames volumosos
- Derrames loculados/septados
- Empiema
Preferencialmente realizada com drenos de pequeno calibre guiados por imagem.
Terapia fibrinolítica vs. VATS
- Fibrinólise intrapleural (alteplase): primeira linha, eficácia semelhante à VATS, com menor custo
- VATS: indicada em falha da fibrinólise ou casos refratários
Prognóstico
De modo geral, o prognóstico das pneumonias complicadas é favorável em crianças previamente saudáveis:
- Mortalidade: 0–5%
- Recuperação completa na maioria dos casos
- Normalização clínica e radiológica em até 6 meses
Maior risco está associado a:
- Lactentes
- Presença de comorbidades
Mensagem prática
O diagnóstico de pneumonia pediátrica não deve se basear em um único exame ou achado isolado.
O ultrassom pulmonar pode ser incorporado como ferramenta de apoio à decisão, desde que interpretado com base em padrões e no contexto clínico. A integração com testes moleculares rápidos e a atenção ao cenário epidemiológico atual são fundamentais para:
- Orientar o tratamento
- Evitar uso inadequado de antibióticos
- Otimizar o cuidado ao paciente pediátrico
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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