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Pediatria28 março 2026

Congressos Pediátricos - Nível de dor e sedação na incapacidade intelectual

A palestra abordou a avaliação da dor e sedação em pacientes neurodivergentes na emergência pediátrica: desafios, escalas e manejo clínico.

Realizado em São Paulo, de 26 a 28 de março, o primeiro dia do 1° Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas trouxe a sessão “Desafios em Sedação e Analgesia”, onde a Dra. Joelma Gonçalves Martin (Unifesp Botucatu/SP) apresentou a palestra “Paciente difícil de entender: como avaliar o nível de dor e sedação em um paciente com incapacidade intelectual?”. A seguir, encontram-se os principais pontos abordados nesta aula.

Entendendo a agitação em crianças e adolescentes no Pronto-Socorro em pacientes neurodivergentes

A neurodivergência inclui: transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), deficiência intelectual e do desenvolvimento (DID) e transtorno do desenvolvimento da linguagem. Indivíduos neurodivergentes apresentam diferenças na forma como seus cérebros processam e respondem às informações, o que pode afetar a comunicação, o comportamento e a percepção sensorial.

A agitação e a dor são multifatoriais e indicam sofrimento e disfunção. Raramente, a agitação é premeditada, e existem fatores de risco. Dessa forma, ao nos depararmos com um paciente agitado, o manejo é um grande desafio.

Fatores de risco para o desenvolvimento de agitação e agressividade em jovens

Fatores de risco não modificáveis

A Dra. Joelma citou os seguintes fatores de risco mencionados por Gerson e colaboradores (2018). Esses fatores podem antever a possibilidade de agitação ou indicar maior probabilidade de o paciente desenvolver agitação ao longo da evolução clínica:

  • Fatores de risco não modificáveis: histórico (agressão (particularmente violência nas 24 horas anteriores à consulta); destruição de propriedade; abuso físico ou sexual; violência interpessoal; internação psiquiátrica prévia; medidas disciplinares prévias na escola/outros ambientes), traumatismo cranioencefálico, atraso no desenvolvimento/atraso cognitivo, sexo masculino, baixa renda familiar e antecedentes criminais ou envolvimento com gangues.
  • Fatores de risco modificáveis:

    Fatores psicológicos: impulsividade; baixa tolerância ao sofrimento; discreto senso de consciência; dificuldade em estabelecer confiança em outras pessoas; visão de mundo negativa; falta de empatia e dificuldade com figuras de autoridade.

Fatores psiquiátricos: transtorno de comportamento disruptivo, de conduta, psicótico e TEA; ansiedade grave, irritabilidade e labilidade de humor; delirium; catatonia; uso de substâncias, intoxicação ou abstinência.

Fatores de saúde física: distúrbios do sistema nervoso central (SNC), metabólicos, endócrinos e genéticos; dor aguda ou crônica; dificuldade para dormir e inflamação ou infecção.

A Dra. Joelma também mostrou o acrônimo CRITICAL CARE, que exemplifica causas para avaliação e monitoramento do delirium pediátrico:

CCardiovascular (Cardiovascular)Anemia, choque, vasculite, encefalopatia hipertensiva
RRespiratory (Respiratório)Insuficiência respiratória, falência respiratória, pneumotórax
IInfection (Infecção)Sepse, encefalite, infecção do trato urinário, meningite, febre, pneumonia, traqueíte, celulite/lesão de pele, infecção de sítio cirúrgico
TToxins (Toxinas)Polifarmácia, metais pesados, interações medicamentosas
IInflammatory process

(Processo inflamatório)

Doenças autoimunes e reumatológicas
CCNS disorder (Distúrbios do SNC)Acidente vascular cerebral, convulsão, traumatismo craniano, hemorragia intracraniana, tumor, lesão anóxica
AAbuse/withdrawal

(Abuso/abstinência)

Álcool, benzodiazepínicos, opioides, barbitúricos
LLiver (Fígado)Insuficiência hepática, falência hepática, hiperamonemia
CConstipation (Constipação)
AAlimentation (Alimentação)Distúrbios eletrolíticos, deficiências nutricionais, desidratação
RRenal (Renal)Insuficiência ou falência renal
EEndocrinopathies (Endocrinopatias)Distúrbios glicêmicos, doenças da tireoide, paratireoide e adrenais

Triagem e avaliação de agitação e agressividade pediátrica

Algumas ferramentas são citadas na literatura: Dynamic Appraisal of Situational Aggression (DASA), Brief Rating of Aggression by Children and Adolescents (BRACHA), Modified Overt Aggression Scale (OAS-M) e Children’s Aggression Scale (CAS) – Teacher and Parent Forms.

Abordagem da agitação em um paciente pediátrico neurodivergente

As ações visam mitigar os riscos, reduzir os gatilhos ambientais e fornecer terapia farmacológica quando necessário, em um curto período. A palestrante destacou a importância da modificação do ambiente e a necessidade de um local específico para o atendimento de pacientes pediátricos neurodivergentes, além do envolvimento da família. É importante valorizar as queixas dos familiares.

Devem ser priorizadas estratégias não farmacológicas e cuidados individualizados. Inicialmente, os profissionais devem envolver os pais ou responsáveis para identificar estratégias eficazes para acalmar a criança e transferi-la para um ambiente com baixa estimulação. Medidas não farmacológicas incluem, por exemplo, pet therapy e distração com realidade virtual.

Se a criança já possui um plano de manejo comportamental, este deve ser seguido; caso contrário, medidas gerais de suporte devem ser implementadas, incluindo garantir a segurança, reduzir estímulos sensoriais como luzes fortes e sons altos, manter o conforto e utilizar técnicas verbais de desescalonamento, incorporando também quaisquer estratégias individualizadas identificadas durante a avaliação. Se essas medidas forem eficazes, o cuidado deve continuar de acordo com a documentação das intervenções bem-sucedidas e avaliação da causa subjacente do sofrimento. Quando essas medidas não se mostram eficazes, o uso de medicamentos por via oral pode ser considerado com a orientação de um profissional mais experiente, seguido de reavaliação; se o sofrimento for controlado, a documentação e o manejo adequados devem continuar. Nos casos em que o sofrimento persistir, medicamentos intramusculares podem ser necessários, juntamente com avaliação, documentação e observação contínuas até que a criança esteja estável e segura para receber alta. Estratégias de desescalonamento incluem: respeitar o espaço pessoal; não ser provocativo; estabelecer contato verbal; ser conciso; identificar desejos e sentimentos; ouvir atentamente; estabelecer regras claras e limites definidos; oferecer escolhas e realizar debriefing com o paciente e a equipe.

Segundo o Best Practices for Evaluation and Treatment of Agitated Children and Adolescents (BETA) in the Emergency Department, publicação da Associação Americana de Psiquiatria de Emergência:

→ O paciente apresenta crise comportamental? (ex.: agitação aguda ou agressividade; risco de dano a si próprio ou a outros):

Se sim:

  • Tentar intervenções comportamentais;
  • Avaliar dor, gatilhos ou necessidades físicas;
  • Considerar estratégias de desescalonamento verbal;
  • Utilizar recursos sensoriais;
  • Adicionar suporte verbal quando apropriado;
  • Abordar causas médicas ou psiquiátricas subjacentes.

Permanece gravemente agitado? → necessita de medicação

  • Considerar medicações por via oral (ex.: benzodiazepínicos ou antipsicóticos), se seguro.
  • Se não for eficaz → considerar medicação intramuscular (IM) ou intravenosa (IV).

Manejo farmacológico

Como exemplos de abordagens farmacológicas, a Dra. Joelma mostrou duas tabelas de Berkenbosch e colaboradores (2025) que abordam o tema em pacientes com TEA.

Opções de pré-medicação para uso em pacientes com TEA
FármacoClasseVia/DoseTempo de inícioConsiderações
MidazolamBenzodiazepínicoVO: 0,5–0,7 mg/kg

IN: 0,2–0,4 mg/kg

VO: 15–30 min

IN: 5–10 min

Sedação moderada; agitação paradoxal ocasional; pode não ser ideal para EEG
CetaminaAnestésico dissociativoVO: 3–10 mg/kg

IM: 3–5 mg/kg

VO: 30 min

IM: 5–10 min

Reações de emergência

Teoricamente pró-convulsivante

DexmedetomidinaAlfa-2-agonistaVO: 4–6 mcg/kg  Bucal: 3–4 mcg/kg IN: 2–4 mcg/kgVO: 45–60 min Bucal: 30–45 min

IN: 30–45 min

Alteração mínima no EEG; efeito analgésico adjuvante mínimo
ClonidinaAlfa-2-agonistaVO: 3–6 mcg/kgVO: 45–60 minAlteração mínima no EEG; mais hipotensão que dexmedetomidina
Legenda: EEG – eletroencefalograma; IM – intramuscular; IN – intranasal; TEA – transtorno do espectro autista; VO – via oral.
Fonte: Adaptado de Berkenbosch et al., 2025.
Opções de sedação intraoperatória para crianças com TEA
FármacoClasseVia/DoseTempo de inícioConsiderações
MidazolamBenzodiazepínicoVO: 0,5–0,7 mg/kg  IN: 0,2–0,4 mg/kg

IV: 0,05–0,1 mg/kg

VO: 45–60 min IN: 30–45 min

IV: 30–45 min

Sedação moderada; geralmente inadequado isoladamente para exames radiológicos; sem propriedades analgésicas
CetaminaAnestésico dissociativoIM: 3–5 mg/kg

IV: 1–2 mg/kg inicial, depois 0,5–1 mg/kg

IM: 30–45 min  IV: 10–15 minReações de emergência; potente analgesia e sedação; amnésia anterógrada; IM pode ser adequado para procedimentos curtos se não houver IV
DexmedetomidinaAlfa-2-agonistaIM: 2–4 mcg/kg

IV: 1–2 mcg/kg bolus, infusão 1–3 mcg/kg/h

IM: 60–120 min IV: 45–60 minAgente preferido para sedação em EEG
PropofolAnestésico agonista GABAIV: 1–3 mg/kg bolus, infusão 3–9 mg/kg/h10–15 minInício e término rápidos; dor à injeção; suprime focos convulsivos no EEG
Óxido nitrosoSedativo inalatório40–70% com oxigênio2–5 minProcedimentos curtos (IV, cateter urinário); procedimentos odontológicos; possível aversão sensorial à máscara
Legenda: EEG – eletroencefalograma; IM – intramuscular; IV – intravenoso; TEA – transtorno do espectro autista; VO – via oral.
Fonte: Adaptado de Berkenbosch et al., 2025.

Avaliação de dor

A dor é uma relevante causa de agitação nos pacientes neurodivergentes. Com relação à avaliação, a escala Non-Communicating Children’s Pain ChecklistPostoperative Version (NCCPC-PV) é excelente e específica para neurodivergentes, contendo 27 itens, o que limita seu uso na Emergência. Além disso, sua aplicação foi restrita a pacientes com dor muito intensa. Dessa forma, não se sabe exatamente sua aplicabilidade na dor moderada.

A palestrante mencionou o uso das escalas FLACC e R-FLACC nesses pacientes, havendo uma tendência atual a se usar a R-FLACC (que é uma escala boa, mas tem suas deficiências). É importante considerar o relato da família com relação ao comportamento do paciente.

Conclusão

Essa palestra enfatizou que a sedação segura de crianças e adolescentes neurodivergentes exige atenção a múltiplos fatores clínicos e contextuais, incluindo a presença de necessidades de saúde médicas e psicológicas específicas, maior ocorrência de comportamentos acidentais e autolesivos e acesso frequentemente limitado a cuidados primários consistentes e eficazes. Além disso, esses pacientes apresentam risco aumentado de acidentes e lesões. Dessa forma, o manejo nesses pacientes impõe desafios particulares, sobretudo diante de sua maior vulnerabilidade fisiológica e da elevada carga de comorbidades.

Acompanhe a cobertura do 1º Congresso Mundial, em conjunto com o 5º Congresso Brasileiro e o 5º Congresso Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas

Live Afya

Acompanhe no dia 30/03, às 19h, a live com os destaques do 1º Congresso Mundial, em conjunto com o 5º Congresso Brasileiro e o 5º Congresso Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado entre 25 e 28 de março em São Paulo/SP.

Link para se inscrever na live: https://io.pedpapers.com.br/blog-cong-mundial-ped-2026 
Participe!

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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Referências bibliográficas

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