Entre os dias 3 e 6 de junho, Salvador sedia o 20º Congresso Brasileiro de Gastroenterologia e Hepatologia Pediátrica, o 6º Congresso Brasileiro de Nutrologia Pediátrica e o 1º Congresso Brasileiro de Suporte Nutricional. O evento reúne especialistas nacionais e internacionais para discutir avanços científicos, compartilhar experiências e promover a atualização profissional.
Durante a conferência “Modificações dietéticas para cólicas do lactente: fatos e mitos”, realizada em 4 de junho e ministrada pela Dra. Mara Alves (PE), foram discutidos conceitos fundamentais e dúvidas frequentes da prática pediátrica relacionadas à cólica do lactente.
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Síndrome da angústia do lactente amplia a leitura do choro excessivo
Um dos destaques da palestra foi a atualização da nomenclatura proposta pelos critérios de Roma V, que substituem o termo “cólica do lactente” por síndrome da angústia do lactente para descrever os episódios de choro, irritabilidade e desconforto observados nos primeiros meses de vida.
A mudança não é apenas semântica. O termo “cólica” sugere uma origem colônica para os sintomas, hipótese que nunca foi comprovada de forma consistente. Dessa forma, a nova nomenclatura busca refletir melhor a complexidade e a natureza multifatorial do quadro.
Outro ponto destacado foi a evolução dos critérios diagnósticos. Tradicionalmente, a chamada “regra dos três” — choro por pelo menos três horas ao dia, em três ou mais dias por semana — ficou amplamente conhecida como marcador da cólica do lactente. Entretanto, a palestrante ressaltou que essa definição nem sempre reflete a realidade observada nos consultórios.
Atualmente, o diagnóstico da síndrome da angústia do lactente requer a presença de três elementos: início dos sintomas antes dos 5 meses de idade; episódios recorrentes e prolongados de choro ou irritabilidade sem causa aparente e que não podem ser adequadamente consolados pelos cuidadores; e ausência de outra condição médica que justifique completamente o quadro após avaliação adequada.
Já para fins de pesquisa clínica, além desses critérios, considera-se a presença de choro excessivo — superior a três horas diárias em lactentes com até seis semanas de vida ou superior a duas horas e meia por dia em crianças mais velhas, por pelo menos três dias na semana — e/ou repercussão importante na qualidade de vida e no bem-estar de um dos cuidadores.
Quando a dieta materna deve ser revista na amamentação?
A palestrante enfatizou que não é possível tirar conclusões robustas sobre as modificações na dieta de mães que amamentam e o impacto na redução da cólica do lactente. Isso porque a maioria dos estudos é heterogênea, apresenta viés de publicação e conta com patrocínio da indústria farmacêutica. Crenças populares, como não comer repolho, cebola, alho, brócolis, pimenta e cafeína, por exemplo, não têm benefício comprovado.
Ademais, foram ressaltados os riscos de desnutrição materna ao restringir alimentos sem atentar para as devidas suplementações, como cálcio e vitaminas.
Suspeita de APLV orienta o uso de dieta hipoalergênica
A dieta hipoalergênica pode ser considerada diante de suspeita de alergia à proteína do leite de vaca (APLV). Alguns elementos que aumentam essa suspeita incluem história familiar de atopia, início dos sintomas após o primeiro mês de vida, associação com vômitos, refluxo ou diarreia, persistência dos sintomas além dos cinco a seis meses de idade e escore CoMiSS positivo.
A palestrante alertou, entretanto, para o risco de sobrediagnóstico, uma vez que APLV e a síndrome da angústia do lactente compartilham manifestações como dor e flatulência associada ao desconforto.
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Fórmulas infantis exigem indicação criteriosa em lactentes com sintomas
Outro ponto enfatizado foi que a interrupção do aleitamento materno e sua substituição por fórmula infantil não aliviam os sintomas de cólica, além de impactarem negativamente o microbioma.
Da mesma forma, não há indicação rotineira para fórmulas sem lactose ou suplementação de lactase em lactentes com choro excessivo, exceto em situações específicas de má absorção secundária, como pode ocorrer em casos de APLV associada à enteropatia.
Nos lactentes já alimentados com fórmula, não há evidências robustas que sustentem o uso de fórmulas denominadas “anticólica”, parcialmente hidrolisadas ou à base de soja. As fórmulas extensamente hidrolisadas permanecem reservadas para situações em que exista suspeita de APLV.
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Antiespasmódicos e antifiséticos permanecem sem eficácia comprovada
Também foi reforçado que a eficácia de antiespasmódicos e antifiséticos não foi comprovada para o tratamento da síndrome da angústia do lactente.
Mensagem prática para a abordagem do aleitamento materno
A presença de choro excessivo no lactente não deve levar automaticamente à restrição da dieta materna ou à troca de fórmulas. A abordagem da cólica do lactente deve priorizar a exclusão de sinais de alarme, o suporte aos cuidadores e a utilização criteriosa de intervenções respaldadas por evidências.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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