Na conferência “Cetoacidose diabética: estado da arte”, realizada durante 1º Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado em São Paulo/SP, de 26 a 28 de março., o Dr. Nathan Kuppermann abordou os principais aspectos do manejo da cetoacidose diabética (CAD) e discutiu controvérsias sobre os mecanismos fisiopatológicos do edema cerebral associado à doença.
Ele ressaltou que estudos da década de 1980 reforçaram o “medo da administração de volume” na CAD, ao relacionarem a infusão rápida de fluidos intravenosos à ocorrência de edema cerebral, com base na hipótese de que reduções abruptas de glicose e/ou sódio provocariam alterações osmóticas e, consequentemente, edema.
Evidências sobre fatores de risco para edema cerebral
Nesse cenário, e para contestar tal percepção, o palestrante trouxe para debate o artigo “Risk Factors for Cerebral Edema in Children with Diabetic Ketoacidosis”, de Nicole Glaser et al. (2001), que investigou os fatores de risco para edema cerebral em crianças com CAD. Trata-se de um estudo multicêntrico do tipo caso-controle, no qual os autores compararam pacientes que desenvolveram edema cerebral com aqueles que não apresentaram essa complicação.
Os resultados mostraram que o principal fator associado ao edema cerebral foi a maior gravidade da CAD no momento da admissão, evidenciada por acidose mais intensa e níveis elevados de ureia, indicando desidratação importante. Além disso, o uso de bicarbonato intravenoso durante o tratamento foi relacionado a maior risco de desenvolvimento de edema cerebral.
Em contrapartida, o volume e a velocidade de administração de fluidos, quando realizados dentro de padrões adequados, não apresentaram associação significativa com essa complicação. Da mesma forma, nem a glicemia inicial nem a velocidade de sua redução durante o tratamento se associaram ao desfecho, após ajuste para outras variáveis.
Fisiopatologia do edema cerebral na CAD
Do ponto de vista fisiopatológico, embora alterações osmóticas possam contribuir, os achados reforçam que o edema cerebral na cetoacidose diabética pediátrica está fortemente ligado à hipoperfusão e à isquemia cerebral.
A hipocapnia, ao induzir vasoconstrição, e a desidratação intensa reduzem o fluxo sanguíneo cerebral, favorecendo lesão isquêmica. Além disso, o uso de bicarbonato pode agravar a hipóxia do sistema nervoso central. A presença de hiperglicemia associada à isquemia intensifica o dano neuronal, compromete a barreira hematoencefálica e facilita a formação de edema.
Hidratação na CAD: o que dizem os estudos recentes?
O Dr. Kuppermann trouxe ainda evidências mais recentes que enfatizam a importância da hidratação adequada. Ele apresentou seu estudo, “Clinical Trial of Fluid Infusion Rates for Pediatric Diabetic Ketoacidosis” (2018), no qual pacientes pediátricos com cetoacidose diabética foram randomizados para administração de diferentes velocidades e concentrações de fluidos intravenosos e acompanhados quanto ao desenvolvimento de edema cerebral e alterações cognitivas.
Os resultados mostraram que nem a velocidade de infusão nem a composição dos fluidos aumentaram o risco de edema cerebral, confirmando que a gravidade do quadro inicial, e não a estratégia de reposição volêmica, é o principal determinante de complicações neurológicas.
Mensagem prática
O edema cerebral está mais relacionado à gravidade inicial da CAD e às alterações metabólicas e hemodinâmicas do que às intervenções terapêuticas. Portanto, a hidratação insuficiente deve ser evitada, já que a depleção volêmica aumenta o risco de lesão renal aguda e compromete a perfusão tecidual.
Em casos de hipoperfusão, bolus de fluidos devem ser administrados conforme necessário, e o manejo deve ser sempre individualizado, equilibrando a correção adequada da desidratação com monitorização rigorosa para prevenir complicações neurológicas e sistêmicas.
Live Afya
Acompanhe no dia 30/03, às 19h, a live com os destaques do 1º Congresso Mundial, em conjunto com o 5º Congresso Brasileiro e o 5º Congresso Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado entre 25 e 28 de março em São Paulo/SP.
Link para se inscrever na live: https://io.pedpapers.com.br/blog-cong-mundial-ped-2026
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Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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