O último dia do 1º Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado entre 26 e 28 de março, em São Paulo, abordou o tema pneumonias, trazendo atualizações relevantes e aplicáveis à prática clínica diária.

Ultrassonografia pulmonar no diagnóstico
Diagnóstico clínico
O diagnóstico de pneumonia é fundamentalmente clínico, não sendo necessária a realização rotineira de radiografia de tórax. Nos últimos anos, a ultrassonografia (USG) pulmonar tem se destacado como uma ferramenta que supera o modelo binário tradicional (presença vs. ausência de pneumonia), avançando para uma interpretação mais fenotípica e integrada.
A pneumonia não deve ser definida por um único achado ultrassonográfico, mas sim pela combinação de múltiplas variáveis.
Necessidade de padronização
Destaca-se a importância de:
- Definições padronizadas dos achados
- Estabelecimento de limiares reprodutíveis (ex: tamanho das consolidações)
- Estruturação dos laudos
Essas medidas visam garantir maior:
- Consistência
Reprodutibilidade
Aplicabilidade clínica
Impacto clínico
Evidências preliminares sugerem que a USG pulmonar pode:
- Reduzir a incerteza diagnóstica
- Auxiliar na exclusão de pneumonia
- Apoiar a tomada de decisão clínica
- Reduzir o uso desnecessário de antibióticos
Métodos de biologia molecular
Os métodos de biologia molecular revolucionaram o diagnóstico etiológico das infecções respiratórias.
Aplicações clínicas
A identificação do agente etiológico pode contribuir para:
Direcionamento do tratamento
Avaliação prognóstica
Redução da transmissão nosocomial
Limitações e interpretação
Apesar dos avanços, é fundamental considerar:
- O sítio da infecção
- A origem da amostra
- O contexto clínico
Testes com menor tempo de resposta são mais úteis para a tomada de decisão, embora ainda apresentem custo elevado.
Pneumonia necrosante e empiema parapneumônico
Reconhecimento clínico
Essas complicações têm apresentado aumento de incidência, mesmo após a introdução das vacinas pneumocócicas conjugadas.
Sinais de alerta incluem:
- Febre persistente
Falha de resposta aos antibióticos
Desconforto respiratório
Presença de derrame pleural
Investigação microbiológica
Deve incluir:
- Hemoculturas
- Análise de líquido pleural ou lavado broncoalveolar
- Cultura e PCR
Antibioticoterapia inicial
Indica-se início imediato de antibioticoterapia intravenosa com cobertura para:
- Streptococcus pneumoniae
- Staphylococcus aureus (incluindo MRSA, quando indicado)
- Mycoplasma pneumoniae
Destaques terapêuticos
Preferência por clindamicina ou linezolida em pneumonia necrosante por MRSA
Melhor penetração pulmonar e inibição de toxinas (ex: PVL)
Associação de sorotipos:
3: maior risco de necrose
19A: alta resistência à penicilina
Antibioticoterapia no derrame parapneumônico e empiema
Fase inicial (intravenosa)
Não grave (enfermaria):
- Ampicilina-sulbactam ou ceftriaxona
- Considerar metronidazol (aspiração)
- Considerar clindamicina/vancomicina (MRSA)
Grave (UTI/choque):
- Ceftriaxona + clindamicina ± vancomicina
- ou ampicilina-sulbactam + clindamicina/vancomicina
Reavaliação
Após 48–72 horas:
- Avaliação clínica
- Ultrassom
- PCR
- Ajuste conforme culturas
Transição para via oral
Critérios:
- Afebril por 24–48 horas
- Melhora clínica
- PCR em queda
- Retirada do dreno
Opções orais
- Amoxicilina
- Amoxicilina-clavulanato
- ± cefalexina ou clindamicina
Duração do tratamento
- 2–3 semanas
- Até 4 semanas em casos de necrose ou abscesso
Estratégias de manejo do empiema
Antibiótico isolado
Indicado em:
- Derrame pequeno a moderado
- Sem loculações
- Paciente estável
Dreno torácico
Indicado em:
- Derrame volumoso
- Empiema inicial com líquido livre
Dreno + fibrinolíticos
- Empiema loculado ou complicado
- Eficácia semelhante à VATS
- Menor custo
VATS (cirurgia toracoscópica)
Indicada em:
- Casos organizados ou refratários
- Coleções multiloculadas
Apresenta:
- Menor necessidade de reintervenção
- Redução do tempo de internação após o procedimento
Antibioticoterapia na pneumonia necrosante
Baixa suspeita de MRSA
- Ceftriaxona ou cefotaxima IV
- Associar oxacilina se características estafilocócicas
Alta suspeita de MRSA
- Ceftriaxona + vancomicina ou linezolida
- Considerar clindamicina (inibição de toxinas)
Suspeita de Mycoplasma
- Adicionar azitromicina
Duração do tratamento
- Fase IV: 10–14 dias ou até estabilidade clínica
- Fase VO: completar 4–6 semanas
Opções VO:
- Amoxicilina-clavulanato
- Clindamicina
Mensagem prática
A pneumonia pediátrica exige abordagem integrada entre avaliação clínica, exames complementares e contexto epidemiológico.
O uso racional da ultrassonografia pulmonar e dos testes moleculares, aliado a estratégias bem definidas de antibioticoterapia e manejo de complicações, permite:
- Maior precisão diagnóstica
- Tratamento mais direcionado
- Redução de intervenções desnecessárias
- Melhora dos desfechos clínicos
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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