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Pediatria1 abril 2026

Congressos Pediátricos - Abordagem prática da pneumonia pediátrica aguda

Manejo da pneumonia pediátrica: ultrassom, biologia molecular, antibióticos e tratamento de complicações como empiema.

O último dia do 1º Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado entre 26 e 28 de março, em São Paulo, abordou o tema pneumonias, trazendo atualizações relevantes e aplicáveis à prática clínica diária.

Congresso Emergências Pediátricas

Ultrassonografia pulmonar no diagnóstico

Diagnóstico clínico

O diagnóstico de pneumonia é fundamentalmente clínico, não sendo necessária a realização rotineira de radiografia de tórax. Nos últimos anos, a ultrassonografia (USG) pulmonar tem se destacado como uma ferramenta que supera o modelo binário tradicional (presença vs. ausência de pneumonia), avançando para uma interpretação mais fenotípica e integrada.

A pneumonia não deve ser definida por um único achado ultrassonográfico, mas sim pela combinação de múltiplas variáveis.

Necessidade de padronização

Destaca-se a importância de:

  • Definições padronizadas dos achados
  • Estabelecimento de limiares reprodutíveis (ex: tamanho das consolidações)
  • Estruturação dos laudos

Essas medidas visam garantir maior:

  • Consistência
    Reprodutibilidade
    Aplicabilidade clínica

Impacto clínico

Evidências preliminares sugerem que a USG pulmonar pode:

  • Reduzir a incerteza diagnóstica
  • Auxiliar na exclusão de pneumonia
  • Apoiar a tomada de decisão clínica
  • Reduzir o uso desnecessário de antibióticos

Métodos de biologia molecular

Os métodos de biologia molecular revolucionaram o diagnóstico etiológico das infecções respiratórias.

Aplicações clínicas

A identificação do agente etiológico pode contribuir para:

Direcionamento do tratamento
Avaliação prognóstica
Redução da transmissão nosocomial

Limitações e interpretação

Apesar dos avanços, é fundamental considerar:

  • O sítio da infecção
  • A origem da amostra
  • O contexto clínico

Testes com menor tempo de resposta são mais úteis para a tomada de decisão, embora ainda apresentem custo elevado.

Pneumonia necrosante e empiema parapneumônico

Reconhecimento clínico

Essas complicações têm apresentado aumento de incidência, mesmo após a introdução das vacinas pneumocócicas conjugadas.

Sinais de alerta incluem:

  • Febre persistente
    Falha de resposta aos antibióticos
    Desconforto respiratório
    Presença de derrame pleural

Investigação microbiológica

Deve incluir:

  • Hemoculturas
  • Análise de líquido pleural ou lavado broncoalveolar
  • Cultura e PCR

Antibioticoterapia inicial

Indica-se início imediato de antibioticoterapia intravenosa com cobertura para:

  • Streptococcus pneumoniae
  • Staphylococcus aureus (incluindo MRSA, quando indicado)
  • Mycoplasma pneumoniae

Destaques terapêuticos

Preferência por clindamicina ou linezolida em pneumonia necrosante por MRSA
Melhor penetração pulmonar e inibição de toxinas (ex: PVL)
Associação de sorotipos:

3: maior risco de necrose
19A: alta resistência à penicilina

Antibioticoterapia no derrame parapneumônico e empiema

Fase inicial (intravenosa)

Não grave (enfermaria):

  • Ampicilina-sulbactam ou ceftriaxona
  • Considerar metronidazol (aspiração)
  • Considerar clindamicina/vancomicina (MRSA)

Grave (UTI/choque):

  • Ceftriaxona + clindamicina ± vancomicina
  • ou ampicilina-sulbactam + clindamicina/vancomicina

Reavaliação

Após 48–72 horas:

  • Avaliação clínica
  • Ultrassom
  • PCR
  • Ajuste conforme culturas

Transição para via oral

Critérios:

  • Afebril por 24–48 horas
  • Melhora clínica
  • PCR em queda
  • Retirada do dreno

Opções orais

  • Amoxicilina
  • Amoxicilina-clavulanato
  • ± cefalexina ou clindamicina

Duração do tratamento

  • 2–3 semanas
  • Até 4 semanas em casos de necrose ou abscesso

Estratégias de manejo do empiema

Antibiótico isolado

Indicado em:

  • Derrame pequeno a moderado
  • Sem loculações
  • Paciente estável

Dreno torácico

Indicado em:

  • Derrame volumoso
  • Empiema inicial com líquido livre

Dreno + fibrinolíticos

  • Empiema loculado ou complicado
  • Eficácia semelhante à VATS
  • Menor custo

VATS (cirurgia toracoscópica)

Indicada em:

  • Casos organizados ou refratários
  • Coleções multiloculadas

Apresenta:

  • Menor necessidade de reintervenção
  • Redução do tempo de internação após o procedimento

Antibioticoterapia na pneumonia necrosante

Baixa suspeita de MRSA

  • Ceftriaxona ou cefotaxima IV
  • Associar oxacilina se características estafilocócicas

Alta suspeita de MRSA

  • Ceftriaxona + vancomicina ou linezolida
  • Considerar clindamicina (inibição de toxinas)

Suspeita de Mycoplasma

  • Adicionar azitromicina

Duração do tratamento

  • Fase IV: 10–14 dias ou até estabilidade clínica
  • Fase VO: completar 4–6 semanas

Opções VO:

  • Amoxicilina-clavulanato
  • Clindamicina

Mensagem prática

A pneumonia pediátrica exige abordagem integrada entre avaliação clínica, exames complementares e contexto epidemiológico.

O uso racional da ultrassonografia pulmonar e dos testes moleculares, aliado a estratégias bem definidas de antibioticoterapia e manejo de complicações, permite:

  • Maior precisão diagnóstica
  • Tratamento mais direcionado
  • Redução de intervenções desnecessárias
  • Melhora dos desfechos clínicos

Acompanhe a cobertura do 1º Congresso Mundial, em conjunto com o 5º Congresso Brasileiro e o 5º Congresso Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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