Durante o debate “Suplementação de vitamina D: para quem e por quanto tempo?”, realizado em 6 de junho no 20º Congresso Brasileiro de Gastroenterologia e Hepatologia Pediátrica, o 6º Congresso Brasileiro de Nutrologia Pediátrica e o 1º Congresso Brasileiro de Suporte Nutricional, as médicas Mônica Lisboa e Fernanda Ceragioli discutiram as recomendações atuais para a suplementação de vitamina D e os desafios encontrados na prática clínica.
Debate discutiu suplementação de vitamina D em crianças
Embora o papel da vitamina D na prevenção do raquitismo e na manutenção da saúde óssea esteja bem estabelecido, as especialistas destacaram que a suplementação universal após os primeiros anos de vida tem sido cada vez mais questionada. Segundo elas, há consenso quanto à necessidade de suplementação até os 2 anos de idade. No entanto, a manutenção da suplementação de forma indiscriminada até os 18 anos carece de evidências robustas, especialmente em crianças e adolescentes saudáveis.
Após os 2 anos, indicação universal foi questionada
Nesse contexto, as palestrantes defenderam uma abordagem mais individualizada a partir dos 2 anos de idade. Em vez da suplementação universal, recomendaram identificar pacientes com maior risco de deficiência e direcionar a investigação e a reposição para esses grupos.
Grupos de risco orientam avaliação individualizada
Entre os principais grupos de risco citados estão crianças e adolescentes com obesidade, doenças inflamatórias crônicas graves, síndromes disabsortivas, uso prolongado de corticosteroides e pacientes com epilepsia em tratamento com anticonvulsivantes, medicamentos que podem interferir no metabolismo da vitamina D. As especialistas também lembraram que, embora a exposição solar seja uma importante fonte da vitamina, ela nem sempre é suficiente ou viável.
Dosagem de 25-hidroxivitamina D pode apoiar a decisão clínica
Outro ponto enfatizado durante o debate foi a importância da avaliação laboratorial. Segundo as palestrantes, após os 2 anos de idade, a dosagem sérica de 25-hidroxivitamina D pode auxiliar na tomada de decisão clínica, especialmente nos pacientes pertencentes a grupos de risco. A estratégia proposta consiste em identificar deficiências e corrigi-las quando necessário, evitando tanto a deficiência quanto o uso desnecessário de suplementos. Em relação aos níveis séricos, foi destacado que valores acima de 20 ng/mL são considerados adequados para a população pediátrica geral.
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Uso indiscriminado pode exigir cautela
As especialistas também chamaram atenção para os potenciais riscos da suplementação indiscriminada. Por ser uma vitamina lipossolúvel, a vitamina D pode se acumular no organismo e causar toxicidade quando utilizada em doses excessivas. Casos de intoxicação têm sido relatados com maior frequência, muitas vezes associados a erros de dosagem ou ao uso de formulações manipuladas, motivo pelo qual seu emprego exige cautela.
Durante a apresentação, foi ressaltado que níveis séricos acima de 150 ng/mL estão associados à intoxicação por vitamina D, condição que pode provocar hipercalcemia grave. Entre as possíveis complicações estão náuseas, vômitos, poliúria, desidratação, alterações neurológicas, nefrocalcinose e lesão renal, podendo evoluir, em situações extremas, para insuficiência renal com necessidade de diálise.
Dados internacionais exigem interpretação cautelosa
Outro ponto destacado pelas especialistas foi a necessidade de cautela ao extrapolar dados internacionais para a população brasileira. Diferenças relacionadas à exposição solar, aos hábitos de vida, à alimentação e às condições climáticas podem influenciar significativamente os níveis séricos de vitamina D e o risco de deficiência.
Dessa forma, a tendência atual é caminhar para uma abordagem mais individualizada, baseada em fatores de risco e monitorização laboratorial, evitando tanto a deficiência quanto os potenciais danos decorrentes da suplementação excessiva.
Mensagens práticas para a pediatria
- A suplementação universal de vitamina D após os 2 anos de idade vem sendo cada vez mais questionada.
- A avaliação individualizada e a identificação de grupos de risco devem nortear a decisão terapêutica.
- Crianças com obesidade, doenças inflamatórias crônicas, síndromes disabsortivas, uso de anticonvulsivantes ou corticosteroides merecem atenção especial.
- Níveis séricos acima de 20ng/mL são considerados adequados para a maioria das crianças.
- A vitamina D é lipossolúvel e pode causar intoxicação quando utilizada em excesso.
- Formulações manipuladas exigem cautela devido ao risco de erros de dosagem.
- A monitorização laboratorial periódica pode ser mais adequada do que a suplementação indiscriminada em crianças maiores.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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