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Pediatria6 junho 2026

Congressos pediátricos 2026: manejo da ingestão cáustica

Por Amanda Neves

Ingestão de substâncias cáusticas: manejo inicial em pediatria

Emergência toxicológica exige estabilização, avaliação endoscópica no tempo adequado e orientação preventiva aos cuidadores.

No dia 4 de junho, no 20º Congresso Brasileiro de Gastroenterologia e Hepatologia Pediátricas, o Dr. Mario Vieira (PR) abordou a ingestão de substâncias cáusticas como uma importante emergência toxicológica. O quadro pode causar lesões graves no trato digestivo, com complicações agudas, como perfurações e hemorragias, e consequências tardias, incluindo estenoses esofágicas, disfagia persistente e aumento do risco de neoplasias.

[inclusão editorial] Saiba mais: ESPGHAN 2023: Ingestão cáustica em pediatria

Ingestão cáustica em crianças ocorre principalmente no ambiente domiciliar

Nesse cenário, sabe-se que os acidentes ocorrem principalmente em crianças menores de cinco anos, geralmente no ambiente domiciliar. Produtos de limpeza, como alvejantes, desentupidores e detergentes, frequentemente são armazenados de forma inadequada, em recipientes reutilizados e sem identificação, favorecendo a ingestão acidental. Entre os agentes mais envolvidos estão o hipoclorito de sódio, presente em alvejantes e desinfetantes, e o hidróxido de sódio (soda cáustica), encontrado em detergentes, baterias e cosméticos.

Segundo o palestrante, a gravidade das lesões depende da concentração do produto, da quantidade ingerida e do tempo de contato com os tecidos. Alvejantes domésticos, por apresentarem baixa concentração de hipoclorito de sódio, raramente provocam lesões.

Como a emergência toxicológica pediátrica deve ser conduzida inicialmente?

Em relação à fisiopatologia, o especialista ressaltou que os álcalis causam necrose por liquefação, permitindo maior penetração tecidual e aumentando o risco de perfuração. Já os ácidos provocam necrose por coagulação, com formação de escara que tende a limitar a profundidade da lesão. Além disso, apresentam trânsito mais rápido pelo esôfago e sabor desagradável, fatores que geralmente restringem o volume ingerido.

No que concerne ao quadro clínico e ao manejo, o palestrante enfatizou que os sintomas mais frequentes incluem náuseas, vômitos, sialorreia, odinofagia e disfagia, e que o tratamento inicial deve priorizar a estabilização clínica, a proteção das vias aéreas e o jejum, associado a medidas de suporte. Também alertou que estão contraindicadas a lavagem gástrica, a indução de vômitos, a tentativa de neutralização do agente e a passagem de sonda antes da avaliação endoscópica, devido ao risco de agravamento das lesões.

[inclusão editorial] Saiba mais: Ingestão de água sanitária por crianças: quando indicar endoscopia?

Endoscopia digestiva alta orienta a avaliação das lesões esofágicas

Quanto aos exames de imagem, o especialista citou que as radiografias de tórax e abdome são recomendadas para investigação de perfuração. Em relação à endoscopia digestiva alta, importante ferramenta diagnóstica, destacou que o exame deve ser preferencialmente realizado entre 12 e 24 horas após a ingestão, podendo ser realizado até 48 horas. Sua realização muito precoce pode subestimar a extensão das lesões, enquanto o período entre 48 horas e 14 dias está associado a maior risco de perfuração.

Quando a classificação de Zargar indica maior risco de estenose esofágica

Ademais, o palestrante pontuou que a classificação endoscópica de Zargar orienta a conduta e o prognóstico. Lesões mais extensas, especialmente as classificadas como graus 2B e 3, apresentam maior probabilidade de complicações, destacando-se o desenvolvimento de estenoses esofágicas.

[inclusão editorial] Saiba mais: Como é a abordagem da disfagia na pediatria?

Prevenção de acidentes domésticos permanece central no manejo pediátrico

Como mensagem final, o especialista reforçou que a prevenção continua sendo a principal estratégia para reduzir a incidência desses acidentes. O armazenamento seguro de produtos cáusticos, em recipientes originais e fora do alcance das crianças, aliado à orientação dos cuidadores, é fundamental. Nos casos de ingestão de substâncias cáusticas, o reconhecimento precoce e o manejo adequado são determinantes para minimizar sequelas e melhorar o prognóstico dos pacientes.

Autoria

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Amanda Neves

Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE

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