Durante palestra realizada em 5 de junho, no 20º Congresso Brasileiro de Gastroenterologia e Hepatologia Pediátrica, o 6º Congresso Brasileiro de Nutrologia Pediátrica e o 1º Congresso Brasileiro de Suporte Nutricional, o Dr. Mauro Fisberg destacou que a recusa alimentar está entre as queixas mais frequentes na pediatria, mas nem sempre indica doença. O desafio é identificar sinais de alerta que justifiquem investigação especializada e diferenciar quadros transitórios de condições mais complexas.

Recusa alimentar nem sempre indica doença
A avaliação deve incluir anamnese detalhada, exame físico e análise do crescimento da criança. Sinais como perda de peso, falha de crescimento, disfagia, engasgos frequentes, vômitos recorrentes ou sofrimento visível durante as refeições podem indicar doenças subjacentes e demandar exames complementares. Na ausência desses sinais, fatores sensoriais, comportamentais e ambientais costumam ter papel predominante.
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Picky eating e dificuldades alimentares mais complexas
Um ponto importante é diferenciar o comportamento alimentar seletivo típico da infância, conhecido como picky eating (“comer exigente”), de quadros que exigem maior atenção clínica. Mais frequente entre os 2 e 6 anos de idade, o picky eating tende a melhorar com o tempo. Caracteriza-se por repertório alimentar restrito, mas habitualmente suficiente para manter crescimento e estado nutricional adequados, além de recusas relacionadas à textura, cor, sabor ou aparência dos alimentos. Em contraste, alterações sensoriais mais intensas, transtornos do neurodesenvolvimento, fatores emocionais ou doenças orgânicas podem estar associados a dificuldades alimentares mais complexas.
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Avaliação clínica deve considerar rotina familiar e exames direcionados
Além disso, o especialista ressaltou que exames laboratoriais devem ser solicitados com base em hipóteses clínicas, já que nenhuma investigação substitui uma avaliação cuidadosa da história alimentar, da rotina familiar e das interações durante as refeições. A investigação de possíveis deficiências de micronutrientes, a chamada “fome oculta”, também faz parte da avaliação, permitindo suplementação direcionada quando indicada.
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Manejo envolve equipe, cuidadores e qualidade de vida
O especialista acrescentou que muitos casos envolvem múltiplos fatores simultaneamente, condição que frequentemente exige atuação integrada de pediatras, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos e outros profissionais. Nesse contexto, o acolhimento da ansiedade dos cuidadores é parte fundamental do tratamento, já que a preocupação excessiva com a alimentação pode aumentar a pressão sobre a criança, gerar conflitos durante as refeições e contribuir para a manutenção do problema.
Além disso, dados apresentados durante a palestra mostraram que a percepção de gravidade nem sempre corresponde à realidade clínica. Segundo a experiência dos serviços especializados, menos de 20% das crianças com dificuldade alimentar apresentam causas orgânicas diretamente relacionadas ao quadro e menos de 10% têm baixo peso importante, sendo a desnutrição grave relativamente incomum. Em contrapartida, mais de 30% apresentam sobrepeso, muitas vezes associado ao uso inadequado de fórmulas, suplementos e estratégias empregadas na tentativa de aumentar a ingestão alimentar.
Por fim, o especialista ressaltou que o manejo deve ser orientado pela gravidade dos sintomas e pelo comprometimento funcional da criança, com foco não apenas no consumo alimentar, mas também na qualidade de vida. Entre os objetivos terapêuticos, destacou-se o resgate do prazer de comer, por meio de experiências alimentares positivas, acolhimento familiar e respeito ao desenvolvimento infantil.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
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