Uma palestra muito interessante no 1° Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas abordou analgesia multimodal para urgências pediátricas. A palestrante foi a Dra. Laura Galvin, da Fundación Valle del Lili, Colômbia. Ela trouxe também sua experiência no The Hospital for Sick Children, em Toronto, Canadá.
A Dra. Laura mostrou sua experiência com o atual conceito e analgesia multimodal, que consiste no uso de diversas modalidades para analgesia. Essa prática tem mostrado alcançar melhor controle da dor com menos efeitos adversos do que uma única modalidade. Para a analgesia multimodal, são utilizados, em geral:
- Analgésicos simples e anti-inflamatórios não esteroidais, como acetaminofeno, ibuprofeno e cetorolaco;
- Opioides: apesar de seus efeitos adversos, ainda são considerados o padrão-ouro para a abordagem farmacológica da dor;
- Medicamentos adjuvantes, como cetamina, dexmedetomidina, gabapentinoides e antidepressivos;
- Anestesia regional;
- Terapias integrativas, incluindo distração, técnicas de respiração e massagem

Estratégias e avanços na prática clínica
A Dra. Laura mencionou o uso de analgesia intranasal para pacientes sem acesso venoso. No entanto, mostrou que o uso correto implica na administração do medicamento por meio de um dispositivo que transforma o medicamento em aerossol, para melhor absorção. Ela também mostrou o crescimento do uso da anestesia regional guiada por ultrassom. As técnicas de anestesia regional, consagradas e estudadas no ambiente anestésico, estão sendo cada vez mais adotadas também no cenário do pronto-socorro e podem ser aplicadas para redução de fraturas e luxações, sem lacerações e queimaduras extensas, por exemplo. No entanto, não estão indicadas para uso em pacientes em risco de síndrome compartimental. A vantagem dessa técnica é que proporciona alívio contínuo da dor, menos distração e permite uma analgesia poupadora de opioides. No entanto, embora sejam necessários treinamento especializado e desenvolvimento de habilidades, a ampla disseminação do ultrassom à beira do leito (Point of Care Ultrasound – POCUS) tem facilitado a aquisição de competência em bloqueios nervosos guiados por ultrassom.
Iniciativa Global Comfort Promise
Outro ponto importante trazido pela Dra. Laura foi a iniciativa “The Global Comfort Promise”. Trata-se de uma iniciativa global para diminuir a dor relacionada às agulhas no mundo todo. Por meio do slogan “Transforming Tears to Smiles” (“Transformando Lágrimas em Sorrisos”), a campanha traz uma promessa global de conforto com a adoção das seguintes medidas:
- Anestésicos tópicos;
- Posicionamento com conforto – essa medida conta com o auxílio dos pais ou cuidadores para melhor posicionamento da criança, permitindo a realização dos procedimentos;
- Distração apropriada para a idade – a Dra. Laura mostrou um vídeo em que uma criança submetida à coleta de sangue está sendo distraída por uma profissional que a incentiva a soprar bolhas de sabão;
- Amamentação ou sacarose;
- Comunicação, elogio e reconhecimento – falar com a criança calmamente, explicando os procedimentos e trazendo reforço positivo.
Take-home messages
A palestrante finalizou sua apresentação trazendo as seguintes mensagens:
- A dor pediátrica deve ser reconhecida e tratada como uma URGÊNCIA;
- O manejo inadequado da dor em crianças não é apenas antiético, pois causa danos em longo prazo;
- A analgesia multimodal é uma excelente estratégia para manejar a dor de forma eficaz, minimizando os efeitos adversos relacionados aos medicamentos;
- A analgesia intranasal oferece uma opção rápida, eficaz e não invasiva para o controle da dor em crianças;
- A dor associada a procedimentos com agulhas é MUITO comum na prática pediátrica e também PREVENÍVEL;
- Como pediatras, devemos liderar o manejo adequado da dor: o sofrimento e o desconforto evitáveis devem se tornar coisa do passado.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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