O tema “Torção testicular e ovariana” foi abordado na mesa redonda “Armadilhas Cirúrgicas”, no 1º Congresso Mundial de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado em São Paulo/SP, de 26 a 28 de março. O palestrante foi o Dr. Guillermo Alfredo Kohn Loncarica (Argentina). São tópicos relevantes por serem emergências cirúrgicas, com impacto na função reprodutiva e risco de processos por negligência médica. Além disso, há o impacto psicológico do paciente em caso de perda do órgão reprodutivo. Quando se fala em torção testicular, trata-se de uma emergência não muito rara, cujo erro no diagnóstico não é cirúrgico, mas clínico: o pediatra define se o órgão pode ser salvo.
Torção testicular
A torção testicular ocorre quando o testículo gira ao longo do cordão espermático, comprometendo o fluxo sanguíneo. A incidência varia de 3,8 a 5,9 casos por 100.000 meninos e representa de 10% a 15% dos casos de escroto agudo em crianças.
Existem dois tipos de torção testicular, dependendo da sua relação anatômica com a túnica vaginal. O tipo mais comum, a torção intravaginal, representa cerca de 90% dos casos. O segundo tipo ocorre fora da túnica vaginal e é chamado de torção extravaginal, sendo observado exclusivamente em bebês com menos de um ano de idade. Portanto, existem duas apresentações: uma em bebês com menos de um ano de idade e outra em adolescentes, a partir dos 13 ou 14 anos.
Outro ponto interessante é que existem relatos de casos familiares de irmãos que desenvolvem torção testicular em um período de dois ou três anos, bem como fatores ambientais, como o frio, que está claramente associado a um reflexo cremastérico hiperativo e, portanto, mais propenso a causar torção testicular.
O Dr. Guillermo destacou a importância da conscientização sobre torção testicular, citando o exemplo do Reino Unido, além de enfatizar que a vergonha dos adolescentes em relatar dor testicular pode atrasar o diagnóstico, motivo pelo qual campanhas educativas são realizadas. Estudos mostram que apenas 15% a 30% das famílias conversam sobre o tema, e o atendimento precoce é essencial.
O palestrante citou um estudo que mostra que pacientes que sofreram atrasos na transferência de um hospital de atendimento secundário ou primário para um hospital de atendimento terciário apresentaram uma taxa mais alta de orquiectomia. Nesse artigo, os autores apoiam a decisão de realizar exames escrotais em crianças quando os pacientes são adequadamente avaliados, quando há um cirurgião disponível e quando o hospital ou instituição tem capacidade para realizar o procedimento. Em outras palavras, não é necessário ir a um hospital de atendimento terciário para realizar um exame.
A torção testicular geralmente se apresenta com dor súbita, muitas vezes durante o sono, associada a edema, eritema, testículo elevado, ausência do reflexo cremastérico e sinal de Prehn negativo, podendo cursar com náuseas, vômitos e dor abdominal, razão pela qual o escroto deve sempre ser examinado nesses casos. Pode ocorrer de forma intermitente, com exames normais entre episódios, o que dificulta o diagnóstico, embora haja risco de torção completa, exigindo alta suspeição clínica. No diagnóstico diferencial, destacam-se epididimite (início insidioso, dor posterior, febre e sinal de Prehn positivo), orquite (geralmente viral), torção do apêndice testicular (dor localizada com “ponto azul”) e hérnia inguinal, além de apresentações atípicas em criptorquidia, podendo simular dor abdominal ou inguinal.
Diagnóstico
A avaliação da torção testicular baseia-se na história clínica, no TWIST score e no ultrassom. O TWIST (0–7 pontos) estima o risco, sendo 0–2 baixo risco e ≥5 alto risco, com alta acurácia nos extremos (sensibilidade de 94% e especificidade de 98%), embora o grupo intermediário exija cautela e não deva ser usado isoladamente para excluir o diagnóstico. O fator mais determinante para a viabilidade testicular é o tempo: a taxa de salvamento ultrapassa 90% nas primeiras 6 horas, cai progressivamente após isso e torna-se muito baixa após 24 horas, reforçando que se trata de uma emergência em que cada hora é decisiva.
TWIST — Testicular Workup for Ischemia and Suspected Torsion
Avaliação testicular para isquemia e suspeita de torção:
Parâmetros TWIST — Pontuação (se presente)
- Inchaço testicular: 2
- Testículo endurecido: 2
- Testículo elevado: 1
- Ausência do reflexo cremastérico: 1
- Náuseas ou vômitos: 1
Classificação:
- TWIST 0–2: baixo risco
- TWIST 5–7: alto risco
Fonte: Barbosa et al. e Sheth et al.
O ultrassom Doppler, quando a torção é completa, mostra ausência de fluxo sanguíneo. No entanto, quando a torção é incompleta, podem ocorrer resultados falso-negativos. O sinal do redemoinho, um padrão espiral do cordão espermático, pode estar presente, sendo praticamente uma característica marcante da torção. Outro sinal é o cordão espermático redundante, em que o cordão é tortuoso, dificultando a detecção de anomalias laterais. Embora o Doppler tenha boa sensibilidade e especificidade, não é infalível. Em estágios iniciais ou em casos de torção intermitente, o fluxo sanguíneo pode estar preservado. Portanto, um ultrassom Doppler normal não deve tranquilizar completamente se a apresentação clínica for altamente sugestiva de torção testicular. Na torção testicular, a decisão de realizar a exploração cirúrgica é, em última análise, clínica, e não necessariamente baseada no ultrassom. Um grande problema é perder muito tempo aguardando transferência para realização do ultrassom ou a disponibilidade do especialista, caso a suspeita clínica seja elevada.
Tratamento
A torção testicular é uma emergência cirúrgica que exige intervenção imediata, idealmente nas primeiras 6 horas, sendo a gravidade dependente do grau de torção e diretamente relacionada à viabilidade testicular, avaliada intraoperatoriamente. Quando viável, realiza-se orquidopexia bilateral; quando não, indica-se orquiectomia para evitar complicações imunológicas. A decisão deve integrar clínica, TWIST score e ultrassom, evitando tanto atrasos quanto cirurgias desnecessárias, que ainda são frequentes. Em locais sem acesso imediato à cirurgia, pode-se tentar distorção manual como medida temporária. Outro ponto relevante é que existem implicações médico-legais na torção testicular, pois atrasos no diagnóstico e tratamento, e a perda testicular, estão entre as causas mais frequentes de processos por negligência médica.
O palestrante destacou que é uma condição muito subdiagnosticada e que o seu diagnóstico deve ser sempre aventado em meninas com vômitos e dor abdominal difusa.

Live Afya
Acompanhe no dia 30/03, às 19h, a live com os destaques do 1º Congresso Mundial, em conjunto com o 5º Congresso Brasileiro e o 5º Congresso Paulista de Urgências e Emergências Pediátricas, realizado entre 25 e 28 de março em São Paulo/SP.
Link para se inscrever na live: https://io.pedpapers.com.br/blog-cong-mundial-ped-2026
Participe!
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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