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Pediatria26 janeiro 2026

Como melhorar a adesão e a qualidade da preparação intestinal em crianças com TEA?

Um ensaio clínico avaliou se o uso de bebidas esportivas, como solvente do PEG, poderia melhorar a adesão, a limpeza colônica e a tolerabilidade em crianças com TEA.
Por Jôbert Neves

Crianças com transtorno do espectro autista (TEA) apresentam hipersensibilidades sensoriais e aversão ao paladar/volume que dificultam a ingestão de soluções de polietilenoglicol (PEG) tradicionalmente diluídas em água para preparo de colonoscopia ou transplante de microbiota fecal. Preparo inadequado reduz acurácia diagnóstica, aumenta necessidade de enemas e eleva o estresse do paciente/família.  

Um ensaio clínico randomizado recente avaliou se usar bebidas esportivas com sabor e eletrólitos, como solvente do PEG, poderia melhorar a adesão, a limpeza colônica e a tolerabilidade em crianças com TEA. Sendo conduzido entre fevereiro/2023 e fevereiro/2025 em hospital pediátrico universitário na China, com cerca de sessenta crianças com TEA (4–12 anos) alocadas (30/30) para receber PEG 3350 100 g em 1000 mL de: 

  • Bebida esportiva (grupo experimental; sabores pêssego ou lima-limão, com Na ~230 mg/L, K ≥170 mg/L e Cl ≥100 mg/L), ingerida em ~1,5 h na véspera e  água, como grupo controle, no mesmo esquema. 

Todos seguiram dieta pobre em resíduos por 1 dia e ficaram em jejum após 19h; se preparo considerado incompleto pela equipe, realizava-se enema retal adicional na manhã do procedimento. Desfechos principais: aderência (consumo completo sem resistência), limpeza colônica pela Boston Bowel Preparation Scale (BBPS) (adequado: total ≥6 e cada segmento ≥2), e necessidade de enema adicional. Desfechos secundários: segurança e tolerabilidade. Avaliação endoscópica cega para a intervenção. Apresentando os seguintes resultados:  

População: 60 crianças com TEA; grupos balanceados em idade, sexo e gravidade clínica.  

Aderência: maior no grupo bebida esportiva 83,3% vs. 60,0%; RR 1,39 (IC95% 1,00–1,94); p=0,045 — ganho limítrofe, porém clinicamente relevante.  

Limpeza colônica (BBPS): 

  • Adequação global: 96,7% vs. 66,7%; RR 1,45 (IC95% 1,12–1,88); p=0,003. 
  • Pontuações por segmento superiores no grupo experimental, com maior diferença no cólon direito (93,3% vs. 73,3% atingindo ≥2).  

Necessidade de enema adicional: 6,7% vs. 26,7%; RR 0,25 (IC95% 0,06–1,08); p=0,038.  

Eventos adversos (náusea, vômito, dor abdominal): 10,0% vs. 33,3%; RR 0,30 (IC95% 0,09–0,98); p=0,028.  

Segurança laboratorial: glicemia e eletrólitos (Na, K) mantiveram-se dentro da normalidade e sem diferenças relevantes pré/pós entre grupos.  

Tolerabilidade (cuidadores): mediana 8 no grupo bebida esportiva vs. 6 no controle; p<0,001.  

Revisão analisa as abordagens terapêuticas para o TEA – Parte 1

Conclusão e mensagem prática  

No TEA, o preparo oral com PEG pode fracassar por sensorialidade e volume. Este RCT mostra que diluir PEG em bebida esportiva pode ser uma estratégia simples para aumentar adesão, melhorar limpeza e reduzir enemas e sintomas gastrointestinais, potencialmente diminuindo estresse da criança e da família, sendo esses pontos cruciais na realidade ambulatorial e hospitalar brasileiros.  

Sugestão de como operacionalizar na prática: 

  • Escolha da bebida: priorize bebidas esportivas isotônicas com perfil semelhante (Na ~20–25 mEq/L; K ~4–5 mEq/L; osmolaridade moderada), evitando sucos muito açucarados ou refrigerantes. Verifique rótulos; opte por sabores que a criança aceite (limão, laranja etc.). 
  • Dose e volume de referência: para crianças de 4–12 anos, considerar protocolo aproximado do estudo (PEG 3350 100 g em 1000 mL de bebida esportiva), fracionando em copos pequenos, com intervalos curtos, completando em ~90 minutos na véspera. Ajustes de dose/volume devem seguir protocolos locais e peso/idade; envolva gastroenterologia pediátrica e endoscopia do serviço.  
  • Dieta e jejum: 1 dia de dieta pobre em resíduos, líquidos claros, e jejum após 19h (adequar às rotinas do serviço e às normas anestésicas).  
  • Plano sensorial: permita à família escolher sabor, usar canudos, copos preferidos, e reforços visuais. Ambientes tranquilos e previsíveis reduzem ansiedade.  
  • Monitorização: em crianças com comorbidades metabólicas (ex.: DM, doença renal) ou restrições dietéticas, monitorar glicemia e eletrólitos; no estudo, não houve alterações clinicamente relevantes, mas personalização é essencial.  
  • Plano B: se fezes turvas/solidas na manhã do exame, considerar enema adicional, explicando previamente à família para evitar frustração; a estratégia com bebida esportiva reduziu a necessidade, mas não a eliminou.  
  • Documentação e qualidade: utilize BBPS para registrar qualidade do preparo e retroalimentar o protocolo do serviço.  

Sendo assim, como base neste artigo, para crianças com TEA, usar bebidas esportivas como solvente do PEG pode ser uma alternativa viável, segura e centrada na criança, que pode elevar a taxa de preparo adequado e diminuir desconfortos. Adaptar protocolos locais com essa opção, envolvendo equipe multidisciplinar e família, tende a melhorar a experiência e otimizar a colonoscopia no cenário brasileiro.  

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa  de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).  Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).

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