Enxaqueca é uma cefaleia primária que acomete 10% de crianças e adolescentes de 8-18 anos de idade. Hassan e colaboradores publicaram, na revista Cephalalgia, em 2026, uma revisão sistemática das diretrizes práticas atuais de diagnóstico e tratamento de enxaqueca em crianças e adolescentes para identificar pontos consensuais e discordantes assim como pontos ainda a serem esclarecidos.

Metodologia
Foi feita revisão sistemática nas bases de dadis Medline PubMed, Scopus e Web of Science de consensos pediátricos de enxaqueca, de 2015 a setembro de 2025, em inglês.
Resultados
Dos 201 artigos, 14 foram selecionados e finalmente oito consensos foram incluídos por serem os mais atualizados.
Sobre o diagnóstico, todos os consensos adotaram a Classificação Internacional de Cefaleias 3ª edição (ICHD-3) na forma original ou modificada.
Conforme ICHD-3, enxaqueca sem aura tem os seguintes critérios diagnósticos:
A. ≥5 crises com os critérios B–D;
B. Crises de cefaleia com duração de 4 a 72 horas (sem tratamento ou com falha no tratamento) à algumas diretrizes destacam que pode durar menos;
C. A cefaleia apresenta pelo menos duas das quatro características a seguir:
- localização unilateral à algumas diretrizes destacam que pode ser bilateral;
- qualidade pulsátil;
- intensidade da dor moderada ou grave;
- agravamento ou impedimento da prática de atividades físicas rotineiras (por exemplo, caminhar ou subir escadas);
D. Durante a cefaleia, ≥1 dos seguintes sintomas:
- náuseas e/ou vômitos;
- fotofobia e fonofobia;
E. Não é melhor explicada por outro diagnóstico da ICHD-3.
Conforme ICHD-3, enxaqueca com aura tem os seguintes critérios diagnósticos:
- No mínimo2 episódios que atendam aos critérios B e C;
- Pelo menos um dos seguintes sintomas de aura totalmente reversíveis:
- visual
- sensorial
- fala e/ou linguagem
- motor
- tronco encefálico
- retinal
- No mínimo três das seis características a seguir:
- pelo menos um sintoma de aura se espalha gradualmente ao longo de 5 minutos;
- dois ou mais sintomas de aura ocorrem em sucessão;
- cada sintoma de aura individual dura de 5 a 60minutos;
- pelo menos um sintoma de aura é unilateral;
- pelo menos um sintoma de aura é positivo;
- a aura é acompanhada, ou seguida em até60 minutos, por cefaleia;
- Não é melhor explicada por outro diagnóstico da ICHD-3.
Como tratar a crise de enxaqueca (agudamente)?
O tratamento da crise de enxaqueca na maioria das diretrizes é feito com ibuprofeno 10mg/kg/dose (dose máxima diária 30mg/kg/dia) via oral (VO). A Academia Americana Neurologia recomenda associar ibuprofeno com triptano caso não haja resposta com ibuprofeno isoladamente e a diretriz dinamarquesa orienta associar ibuprofeno com domperidona, a qual seria na dose de 10mg por dose a partir de 12 anos ou peso corporal de 35kg.
O paracetamol também é recomendado pela maioria das diretrizes isoladamente na dose de 15mg/kg/dose (dose máxima diária 60mg/kg/dia) via oral (VO) ou, associado com domperidona ou triptano.
Quantos aos triptanos, são recomendados com mais de 12 anos de idade:
- Sumatriptano:
- nasal na dose de 10mg spray nasal/0,1mL fazer 1 dose em uma das narinas, podendo repetir 1 dose 2horas após a 1ª dose na crise (1ª linha),
- a associação oral com naproxeno oral ou
- isolado na forma subcutânea (SC) na dose de 3-6mg/dose (3ª linha na forma SC, indicado em casos graves);
- Zolmitriptano
- nasal (1ª linha) à não disponível no Brasil;
- oral 2,5 mg comprimido: tomar 1 comprimido e, se necessário, repetir a dose em 2 horas. Se o paciente não responder a dose inicial de 2,5mg, tratara crises subsequentes com doses de 5mg;
- Rizatriptano 10 mg comprimido: tomar MEIO a 1 comprimido VO, podendo repetir a dose pelo menos 2 horas após a dose inicial;
- Almotriptanoà não disponível no Brasil.
Medicações endovenosas como cetorolaco, valproato, ergotamina (esta a partir de 16 anos de idade) e magnésio são reservadas para casos refratários de enxaqueca.
Como fazer tratamento profilático de enxaqueca em Pediatria?
O tratamento profilático medicamentoso de enxaqueca em Pediatria ainda é alvo de grande discussão por carecer de evidência científica robusta.
Quanto aos medicamentos profiláticos de enxaqueca, foram discutidos:
- Topiramato: a Academia Americana de Neurologia (AAN) refere que há alguma evidência, mas devem ser discutidos os possíveis efeitos colaterais com o paciente e a família, as diretrizes inglesas recomendam seu uso off-label e as diretrizes internacionais de cefaleia recomendam seu uso como 2ª linha;
- Propranolol: apenas as diretrizes alemãs são mais permissivas com seus usos de 0,25-05mg/kg/dia de 6/6 horas ou de 8/8horas VO. As diretrizes inglesas não recomendam seu uso em pacientes com depressão como comorbidades e as AAN refere sua possível eficácia, mas ponderar com a família os possíveis efeitos colaterais. As demais diretrizes relatam a falta de evidência em seu uso;
- Amitriptilina: só é embasada pela AAN em associação com terapia cognitivo-comportamental, e pela sociedade internacional de cefaleia (IHS) é recomendada como 2ª linha de tratamento;
- Flunarizina é recomendada pelas diretrizes dinamarquesa e internacional;
- Valproato é recomendado pela diretriz dinamarquesa
- Frovatriptan e zolmitriptan é recomendado pelas diretrizes inglesas (NICE) para adolescentes com enxaqueca menstrual para ser tomado no período pré-menstrual.
Quais medidas não farmacológicas ajudam no controle da enxaqueca?
As medidas de melhora no estilo de vida baixo ajudam no controle da enxaqueca como:
- Ingestão adequada de líquidos;
- Refeições regulares;
- Rotina de sono bem regulamentada habitualmente além de repouso e sono durante a crise;
- Evitar tempo excessivo na TV/telas;
- Identificar possíveis comorbidades (como ansiedade e distúrbios de humor);
- Atividade física;
- Evitar uso excessivo de medicamentos;
- O gerenciamento do estresse incluindo técnicas de relaxamento.
A terapia cognitivo comportamental for recomendada pela maioria das diretrizes. Acupuntura pode ser usada para enxaqueca para pacientes a partir de 12 anos de idade. Também pode ser usado o resfriamento local. O uso de diários da cefaleia ajuda a identificar a evolução da cefaleia assim como seus gatilhos.
Conclusão
A enxaqueca é altamente prevalente em Pediatria e pode impactar a qualidade de vida além do rendimento escolar. O tratamento envolve mudanças no estilo de vida, o tratamento das crises e ainda carecemos de evidências científicas robustas para embasar qual é o melhor tratamento profilático medicamentoso. São necessários estudos clínicos randomizados controlados envolvendo grande número de pacientes para que possamos ter mais evidência de qual é a melhor profilaxia medicamentosa.
Autoria

Renata Carneiro da Cruz
Editora médica de Pediatria da Afya ⦁ Mestre em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ ⦁ Residência em Pediatria Geral pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Residência em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) ⦁ Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
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