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Pediatria24 maio 2026

Cetamina em UTIP: revisão avalia analgosedação em crianças ventiladas

Revisão analisa o uso da cetamina em UTIP em crianças sob ventilação mecânica e discute evidências sobre exposição a opioides.

A cetamina é fármaco antagonista do receptor NMDA e tem sido cada vez mais utilizada para analgesia e sedação em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP). Isso vem acontecendo devido a suas potenciais vantagens, como redução da necessidade de opioides, broncodilatação e mínimo comprometimento respiratório e hemodinâmico. 

As diretrizes atuais recomendam condicionalmente a cetamina como sedativo adjuvante com base em evidências de baixa qualidade. Porém, a eficácia e a segurança comparativas permanecem incertas. 

Com o objetivo de avaliar o uso da cetamina intravenosa (IV) em crianças criticamente enfermas sob ventilação mecânica (VM), pesquisadores do Canadá conduziram uma revisão sistemática com metanálise sobre o tema. O estudo foi publicado na Critical Care Explorations. 

Metodologia 

O protocolo da revisão foi pré-registrado no PROSPERO, e os autores seguiram a metodologia PRISMA. 

Foram utilizadas quatro bases de dados eletrônicas, além de registros de ensaios clínicos e resumos de congressos importantes em terapia intensiva, de 2022 a 2025, até 1º de setembro de 2025. 

Foram incluídos ensaios clínicos randomizados (ECR) e estudos não randomizados envolvendo pacientes pediátricos com idade inferior a 18 anos, em ventilação mecânica invasiva (VMI), internados em qualquer tipo de UTIP. Os estudos compararam infusão IV contínua de cetamina com outros analgésicos e sedativos IV ou placebo. 

Não houve restrições quanto à dose do sedativo de intervenção ou controle, ao uso concomitante de outros analgésicos e sedativos, ao momento de início da infusão de cetamina nem à duração da infusão. 

Os estudos elegíveis relataram pelo menos um desfecho de interesse: 

  • Incidência de delirium, medida por qualquer escala;  
  • Incidência de síndrome de abstinência, medida por qualquer escala;  
  • Duração da VMI;  
  • Tempo de internação na UTIP;  
  • Tempo de internação hospitalar;  
  • Consumo de opioides durante o período do estudo;  
  • Mortalidade;  
  • Eventos adversos, incluindo extubação não planejada, bradicardia clinicamente importante, hipotensão e taquicardia;  
  • Desfechos de longo prazo, mais de 14 dias após a alta da UTIP.  

Os critérios de exclusão foram: 

  • Estudos que avaliaram lactentes internados em UTI neonatais;  
  • Estudos com menos de 80% dos participantes recebendo VMI na inclusão;  
  • Estudos que avaliaram a cetamina para sedação em procedimentos ou dentro de protocolos de rotação de sedação.  

Resultados 

Ao todo, foram incluídos três ECR e cinco estudos não randomizados, com 1.436 participantes. 

Conforme demonstrado por análise agrupada, a cetamina pode reduzir a exposição a opioides, com diferença média de -8,88 µg/kg de equivalentes cumulativos de fentanil (IC 95%, -10,77 a -6,99; baixa certeza). Também pode não ter efeito na duração da VMI, com diferença média de 0,00 dia (IC 95%, 0,03 dia a menos a 0,03 dia a mais; baixa certeza). 

Além disso, o efeito da cetamina permaneceu incerto com relação a delirium, síndrome de abstinência, tempo de internação, hipotensão clinicamente significativa e mortalidade, em comparação com outros analgésicos e sedativos. Desfechos em longo prazo não foram avaliados nos estudos incluídos. 

Conclusão 

Os pesquisadores encontraram evidências limitadas sobre a analgosedação com cetamina em crianças em UTIP submetidas à VMI. A cetamina pode diminuir a exposição a opioides, sem afetar a duração da VMI. 

Todavia, seu impacto ainda é incerto com relação a delirium, síndrome de abstinência, mortalidade e desfechos em longo prazo. Portanto, existe necessidade de ECR robustos para orientar o uso da cetamina em UTIP. 

Mensagem prática 

Em crianças criticamente enfermas sob ventilação mecânica invasiva, a cetamina pode reduzir a exposição a opioides, mas as evidências ainda são limitadas e de baixa certeza. Seu impacto em desfechos como delirium, síndrome de abstinência, mortalidade e segurança em longo prazo permanece incerto. 

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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Referências bibliográficas

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