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Pediatria9 março 2026

Atividade física na DII pediátrica: já é hora de prescrever?

Uma revisão sistemática trouxe evidências sugerindo que programas estruturados de exercícios, melhoram a QV e a aptidão cardiorrespiratória de pacientes com DII.
Por Jôbert Neves

A doença inflamatória intestinal (DII) na infância e adolescência impõe desafios que transcendem o trato gastrointestinal: fadiga, perda de massa muscular, menor densidade mineral óssea e impacto na qualidade de vida (QV). Na prática pediátrica, o receio de “desencadear uma crise” frequentemente leva famílias e profissionais a superproteger, reduzindo ainda mais a atividade física espontânea.  Nesse contexto, um novo artigo de revisão sistemática com meta‑análise traz evidências úteis para o consultório do pediatra geral e gastroenterologista pediátrico, sugerindo que programas estruturados de exercício melhoram a QV e a aptidão cardiorrespiratória de pacientes com DII, sem sinal de piora da atividade inflamatória. É o momento de integrar a prescrição de movimento ao cuidado rotineiro.  

Evidências principais (21 estudos; n=498, sendo 6 pediátricos), veja os resultados mais relevantes:  

  • Qualidade de vida: melhora moderada e significativa (SMD 0,55), com maior benefício em energia, fadiga, sono e saúde geral. 
  • Atividade da doença: tendência à redução em Crohn e retocolite, sem significância e sem piora durante as intervenções. 
  • Marcadores inflamatórios: quedas não significativas em PCR/VHS; calprotectina heterogênea, sem aumento. 
  • Aptidão cardiorrespiratória: VO₂máx aumentou significativamente. 
  • Força e composição corporal: tendência de ganho de força e de massa magra/DMO. 
  • Segurança: nenhum estudo relatou exacerbação atribuída ao exercício. 
  • Limitações: protocolos variados, poucos estudos pediátricos e intervenções curtas. 

Veja também: ESPGHAN 2025: Desafios e estratégias para manejo de pacientes com TEA e DII

Afinal, como orientar na prática clínica?  

Quando recomendar 

  • Remissão ou atividade leve: iniciar exercício estruturado com progressão gradual. 
  • Atividade moderada/grave: priorizar controle clínico; permitir caminhadas leves, mobilidade e alongamentos. 

O que prescrever (princípios FITT) 

  • Frequência: 3–5 vezes/semana. 
  • Intensidade: aeróbio moderado; resistência leve–moderada (1–3 séries de 8–12 repetições). 
  • Tempo: 30–60 min/sessão (ou 10–20 min para iniciantes). 
  • Tipo: combinado (caminhada/bicicleta + resistência); yoga e exergames aumentam adesão na pediatria. 

Estratégias práticas (SUS e consultório privado) 

  • Baixo custo: caminhada no bairro, escadas, circuitos com peso corporal e elásticos. 
  • Ambiente escolar: carta incentivando participação em educação física. 
  • Fadiga e adesão: metas semanais simples, uso de apps/relógio, envolvimento da família; yoga e exergames como facilitadores. 

Monitorização e segurança 

  • Antes: revisar atividade da doença, anemia, estado nutricional e hidratação. 
  • Pausar se: dor abdominal crescente, sangramento, perda de peso rápida, fadiga incapacitante. 
  • Corticoide crônico: atenção à osteopenia; priorizar impacto leve e resistência com progressão lenta. 

Metas simples para famílias 

  • “Mover-se todos os dias.” Caminhada/bicicleta 30 min em 3–5 dias/semana. 
  • “Força 2–3x/semana.” Agachamentos, prancha, flexões na parede por 10–20 min. 
  • “Yoga 1x/semana.” Para sono e energia. 

Conclusão 

Prescreva atividade física como parte do plano terapêutico da DII pediátrica, especialmente em remissão/atividade leve. O ganho de QV e de capacidade aeróbia é consistente e significativo, e não há sinal de dano. Ainda faltam estudos robustos, mas já há base suficiente para integrar prescrição de movimento ao cuidado rotineiro. Começar é mais importante do que o tipo ideal.

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa  de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).  Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).

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