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Pediatria1 abril 2026

Associação entre VSR e otite média aguda em crianças

VSR está presente em cerca de 17% dos casos de otite média aguda em crianças, frequentemente com coinfecção bacteriana, impactando manejo e prevenção.
Por Amanda Neves

Mais da metade dos afetados por otite média aguda (OMA), são crianças com idade inferior a  5 anos, sendo o quadro caracterizado geralmente por otalgia, febre e irritabilidade, com potencial risco de perda auditiva, principalmente, diante de episódios recorrentes.  

O manejo tradicionalmente inclui a prescrição de antibióticos. Contudo, infecções virais do trato respiratório superior também desempenham papel importante na fisiopatologia da OMA, embora sua participação seja menos bem quantificada na prática clínica rotineira. 

Papel das infecções virais na fisiopatologia da OMA 

Entre esses agentes, o vírus sincicial respiratório (VSR) apresenta alta prevalência em crianças pequenas. A literatura aponta que infecções pelo VSR podem alterar a função da tuba auditiva e predispor à OMA, seja isoladamente ou em coinfecção com bactérias, gerando desafios diagnósticos e terapêuticos. Sabe-se que o mesmo aumenta a colonização e adesão bacteriana ao epitélio respiratório, o que contribui para o aumento da gravidade do quadro. 

Metodologia da revisão sistemática e meta-análise 

Nesse sentido, o estudo de Kenmoe et al., publicado em  fevereiro de 2026 na revista Influenza and Other Respiratory Viruses, revisou sistematicamente a literatura disponível para estimar a proporção de VSR em crianças menores de 5 anos com OMA e investigar padrões de co-detecção bacteriana em diferentes contextos clínicos. 

Trata-se de uma revisão sistemática com meta-análise, incluindo estudos publicados entre 1996 a maio de 2025, proveniente de  oito bases de dados, sem restrição de idioma. Foram selecionados estudos observacionais (coorte, transversal, caso-controle) que relataram detecção laboratorial de VSR em crianças com idade inferior a 5 anos com OMA confirmada clinicamente. A OMA foi diagnosticada por critérios clínicos convencionais associados a exames como otoscopia e a detecção de VSR incluiu PCR, cultura viral ou teste rápido em amostras respiratórias ou de fluido de orelha média.  

Foram coletadas informações abrangendo resultados de exames de imagem, uso de antibióticos, histórico vacinal (incluindo vacina pneumocócica e contra Haemophilus influenzae tipo b), número de dias de afastamento das atividades em função da otite média aguda, e registros de possíveis complicações.

Os desfechos extraídos foram a proporção de casos de OMA com VSR positivo e a co-detecção bacteriana nesses casos. A análise de dados utilizou modelo de efeitos aleatórios para estimar proporções com intervalos de confiança de 95%. 

Principais resultados da meta-análise 

De 17170 artigos identificados inicialmente, 27 estudos totalizando 8342 crianças com OMA foram incluídos na meta-análise.  

A maioria dos estudos incluídos era de coorte, com coleta prospectiva de dados, conduzidos principalmente em áreas urbanas e em países de alta renda,  sendo a maioria dos participantes com idade inferior a 2 anos. Nenhum deles especificou os achados radiológicos e o absenteísmo infantil. Em relação às sequelas, apenas um estudo mencionou complicações como recorrência precoce. 

O uso de antibióticos antes da coleta foi excluído em cerca de um terço dos estudos, e a amoxicilina foi o fármaco mais utilizado quando houve tratamento. O status vacinal frequentemente não foi informado. 

A estimativa combinada mostrou que 16,9% (IC 95% 11–23,8) das crianças com OMA tinham VSR detectado. A heterogeneidade foi alta (I² 94,9%). Estudos em ambiente hospitalar (26,4%; IC 95%, 10,2–46,7), durante a temporada de sazonalidade  (50,7%; IC 95%, 31,5–69,8) e em lactentes menores de 12 meses (30,9%; IC 95%, 23,8–38,5) apresentaram proporções maiores. 

Em análises adicionais, 67,4% (IC 95%, 15,4–100) dos casos de OMA com VSR positivo também apresentaram pelo menos uma bactéria concomitante, sendo S. pneumoniae (28,5%), H. influenzae (24,9%) e M. catarrhalis (18,9%), as coinfeccções bacterianas mais comuns. Este padrão sugere a interação vírus-bactéria em muitas apresentações clínicas. 

Discussão: implicações clínicas do VSR na OMA 

A revisão demonstra que o vírus sincicial respiratório tem participação relevante na otite média aguda em crianças, estando presente em cerca de um a cada seis casos. Além de sua atuação nas infecções respiratórias inferiores, o VSR contribui para a OMA tanto ao facilitar infecções bacterianas quanto, em alguns casos, como agente isolado, devido à inflamação e à disfunção da tuba auditiva que provoca. 

Observou-se maior frequência de VSR em casos hospitalares, possivelmente relacionados a quadros mais graves e maior investigação diagnóstica, enquanto dados exclusivamente ambulatoriais podem subestimar essa associação. Com a disponibilidade de vacinas maternas e anticorpos monoclonais contra o VSR, espera-se impacto não apenas na redução de hospitalizações por infecções respiratórias, mas também na diminuição de episódios de OMA e do uso de antibióticos, reforçando a importância de estratégias preventivas integradas. 

Limitações dos estudos analisados 

A heterogeneidade alta entre os estudos e métodos diagnósticos variados limita comparações diretas entre populações e contextos. Além disso, muitos estudos não documentaram detalhes como uso prévio de antibióticos, status vacinal ou achados radiológicos específicos, fatores que podem influenciar a interpretação dos resultados. 

Mensagem prática para o clínico 

O vírus sincicial respiratório é um agente frequente na OMA em crianças menores de cinco anos, muitas vezes associado à coinfecção bacteriana. Estratégias preventivas recentes, como imunização materna e anticorpos monoclonais, podem reduzir a ocorrência da doença e suas complicações. Na prática clínica, deve-se considerar a etiologia viral, especialmente em lactentes e em períodos sazonais, ampliando a investigação quando indicado e priorizando o uso racional de antimicrobianos. 

Autoria

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Amanda Neves

Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE

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