O aumento da obesidade em adolescentes já não é uma tendência futura, mas uma realidade consolidada na prática clínica. Nesse contexto, a alimentação assume papel central, e os alimentos ultraprocessados emergem como um dos principais fatores modificáveis. O ponto crítico hoje não é mais discutir se existe associação, mas qual é a magnitude desse impacto.
A melhor síntese disponível mostra que adolescentes com maior consumo de ultraprocessados apresentam 63% maior chance de sobrepeso ou obesidade quando comparados àqueles com menor ingestão.
Trata-se de um efeito consistente, observado em diferentes populações e contextos. Apesar da variabilidade entre estudos, a direção da associação permanece estável.
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O impacto vai além da densidade calórica
O impacto dos ultraprocessados não se explica apenas pela densidade calórica. Esses alimentos compartilham características relevantes:
- Alta densidade energética;
- baixa qualidade nutricional;
- elevado teor de açúcares, gorduras e sal.
Além disso, há mecanismos fisiológicos plausíveis que reforçam essa associação:
- Picos glicêmicos e hiperinsulinemia;
- aumento da fome compensatória;
- possível disfunção metabólica e inflamatória.
Por que a adolescência exige atenção na avaliação alimentar?
A adolescência representa um período de alta vulnerabilidade. Maior autonomia alimentar, forte influência de marketing, acesso facilitado a alimentos industrializados e comportamento sedentário contribuem para maior consumo de ultraprocessados. Além disso, padrões alimentares estabelecidos nessa fase tendem a persistir ao longo da vida.
Como levar essa evidência para a prática pediátrica?
Na prática clínica, essa evidência aponta para alguns direcionadores claros:
- Consumo de ultraprocessados deve ser considerado fator de risco relevante;
- abordagem deve focar no padrão alimentar, não apenas em nutrientes isolados;
- intervenção precoce é mais eficaz que abordagem tardia.
Mais do que restringir alimentos específicos, o desafio é modificar o comportamento alimentar.
Saiba mais: Intervenções comportamentais no controle de peso em adolescentes
A associação entre ultraprocessados e excesso de peso em adolescentes atingiu um nível de evidência suficiente para impactar a prática e políticas públicas. O desafio atual não é mais demonstrar o risco, mas atuar sobre ele.
Papel do pediatra na orientação alimentar
Afinal, como o pediatra pode atuar nesse contexto?
- Reconhecer ultraprocessados como fator de risco na rotina;
- incluir perguntas simples sobre padrão alimentar;
- orientar redução de ultraprocessados de forma direta;
- sugerir substituições viáveis por alimentos minimamente processados;
- adaptar a orientação ao contexto familiar e socioeconômico;
- reforçar a mensagem de forma contínua em consultas de rotina;
- focar em mudanças graduais e sustentáveis;
- alinhar expectativas com a família, evitando restrições rígidas.
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Autoria

Jôbert Neves
Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).
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