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Pediatria19 maio 2026

Alimentos ultraprocessados e saúde mental infantojuvenil

Revisão avalia relação entre ultraprocessados e sintomas emocionais em crianças e adolescentes.
Por Jôbert Neves

A saúde mental de crianças e adolescentes tornou-se uma prioridade global de saúde pública. Estima-se que cerca de um em cada sete adolescentes apresente algum transtorno mental, sendo ansiedade, depressão e distúrbios comportamentais os quadros mais prevalentes nessa faixa etária. Paralelamente, observa-se aumento expressivo do consumo de alimentos ultraprocessados (AUP) desde a infância, levantando questionamentos sobre o impacto desses produtos não apenas na saúde metabólica, mas também no desenvolvimento neuroemocional. 

Nesse contexto, a revisão sistemática publicada por Georgiou, Chrysostomou e Kantilafti em 2026, na revista Nutrients, oferece uma síntese atualizada e relevante sobre a associação entre consumo de AUP e desfechos em saúde mental em crianças e adolescentes, reunindo evidências epidemiológicas publicadas nos últimos anos.  

Alimentos ultraprocessados: definição e relevância pediátrica 

Os AUP são definidos, segundo a classificação NOVA, como formulações industriais compostas majoritariamente por ingredientes processados, aditivos e substâncias de uso exclusivo da indústria, com baixo ou nenhum conteúdo de alimentos in natura. Bebidas açucaradas, snacks salgados, fast food, produtos prontos para consumo e alimentos altamente palatáveis pertencem a essa categoria. 

Dados populacionais indicam que AUP representam mais da metade da ingestão calórica diária em crianças e adolescentes em diversos países, incluindo nações de renda média e alta. Essa substituição progressiva de alimentos minimamente processados por produtos ultraprocessados tem implicações nutricionais importantes, como maior densidade energética, excesso de açúcares e gorduras de baixa qualidade, além de menor aporte de micronutrientes essenciais. 

O que a revisão sistemática avaliou? 

O estudo publicado na Nutrients analisou 20 estudos epidemiológicos observacionais, envolvendo crianças e adolescentes entre 3 e 19 anos, provenientes de diferentes regiões do mundo. A maioria dos estudos incluídos foi de delineamento transversal, além de dois estudos de coorte e um estudo caso-controle. 

Desfechos avaliados 

Os desfechos em saúde mental avaliados foram amplos e incluíram: 

  • Sintomas depressivos e ansiosos 
  • Irritabilidade, nervosismo e sofrimento psicológico 
  • Distúrbios do sono 
  • Sintomas internalizantes e externalizantes 
  • Ideação e tentativa de suicídio 

Apesar da heterogeneidade metodológica, a revisão identificou um padrão consistente de associação entre maior consumo de AUP e piores indicadores de saúde mental, especialmente entre adolescentes. 

Principais achados: associações consistentes, embora não causais 

A maior parte dos estudos analisados demonstrou que o consumo frequente de alimentos ultraprocessados esteve associado a maior prevalência de ansiedade, depressão e distúrbios do sono. Alguns trabalhos, inclusive grandes estudos populacionais, relataram relação dose-resposta, ou seja, quanto maior a frequência de consumo de AUP, maior o risco de sintomas emocionais adversos. 

Associações particularmente robustas foram observadas com o consumo de bebidas açucaradas, fast food e bebidas energéticas, sobretudo em adolescentes, além de maior risco de ideação e tentativa de suicídio em contextos de consumo elevado. Embora os estudos longitudinais ainda sejam escassos, os dados disponíveis sugerem que padrões alimentares ricos em AUP tendem a se manter ao longo do tempo e podem acompanhar piora do bem-estar psicológico. 

Os autores ressaltam, contudo, que a predominância de estudos observacionais impede estabelecer causalidade direta. Fatores como contexto socioeconômico, ambiente familiar, saúde mental prévia e estilo de vida podem atuar como confundidores importantes. 

Possíveis mecanismos biológicos e psicossociais 

A revisão discute mecanismos plausíveis que podem explicar a associação entre AUP e saúde mental. Dietas ricas em ultraprocessados estão associadas a inflamação sistêmica de baixo grau, disbiose da microbiota intestinal e pior qualidade global da dieta. Esses fatores podem influenciar o eixo intestino-cérebro, alterar a produção de neurotransmissores e impactar a regulação emocional. 

Além disso, AUP costumam substituir alimentos fontes de micronutrientes importantes para o funcionamento cerebral, como vitaminas do complexo B, zinco e magnésio. Do ponto de vista psicossocial, o consumo de AUP pode estar relacionado a padrões de alimentação emocional, menor convívio familiar durante as refeições e maior exposição a ambientes obesogênicos, aspectos que também se associam a sofrimento psicológico na infância e adolescência. 

Implicações para a prática pediátrica 

Os dados apresentados reforçam que a alimentação deve ser considerada um fator modificável relevante no cuidado integral da saúde mental pediátrica. Embora não se possa afirmar que AUP causem transtornos mentais, a associação consistente entre alto consumo e piores desfechos psicológicos sugere que a orientação alimentar pode ter impacto além da saúde física. 

Na prática clínica, torna-se pertinente: 

  • Avaliar padrões alimentares em consultas de rotina 
  • Reconhecer o consumo elevado de AUP como possível marcador de risco psicossocial 
  • Integrar orientações nutricionais simples em estratégias de promoção do bemestar mental 

Considerações finais 

A revisão sistemática publicada na Nutrients em 2026 amplia e atualiza o corpo de evidências que relaciona o consumo de alimentos ultraprocessados à saúde mental de crianças e adolescentes. Apesar das limitações metodológicas inerentes aos estudos observacionais, o conjunto dos achados aponta para uma associação consistente entre dietas ricas em AUP e maior risco de sintomas emocionais adversos. 

Esses dados reforçam a importância de estratégias de saúde pública, educação nutricional e intervenções familiares que promovam padrões alimentares mais saudáveis desde a infância, com potencial benefício não apenas metabólico, mas também psicológico. 

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa  de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).  Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).

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